Terça-feira, 19 de Outubro de 2021

“Somos todos da mesma equipa, temos que nos proteger para voltarmos todos bem”

Natural de São João de Lobrigos, David Gouveia é um apaixonado pelo futebol. Um dos seus maiores sucessos aconteceu na época 18/19 ao sagrar-se campeão de juniores da AFVR ao serviço do SC Régua, um título que fugia ao clube há 27 anos, juntando ainda a Taça Distrital, numa dobradinha inédita.

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Já passaste por vários clubes, tens o coração dividido?

Nos 18 anos de atleta, joguei em quatro clubes muito próximos da minha zona de conforto, Santa Marta, Régua, Cumieira e Lobrigos. Nas 10 épocas como treinador, treinei apenas o Santa Marta e o Régua. É claro que tenho o coração dividido, porque até sou de Lobrigos, freguesia que separa os dois clubes.

Até agora qual o jogo que mais te marcou como jogador?

Em 1996/97, quando joguei nos juvenis do Santa Marta, frente ao Mondinense. Nunca me vou esquecer desse jogo em Santa Marta, em que ganhamos por 3-1, conquistando o único título de formação do Santa Marta.

Sentes que podias ter ido mais longe na tua carreira como jogador?

Quando tinha 17 anos, disputei o nacional de juvenis. Aí senti que tinha uma oportunidade de carreira, mas as exibições não foram as melhores e percebi que não ia passar de um jogador da distrital.

Como eras enquanto jogador? Alcunha “Lucho” era só pelo cabelo (da altura) ou havia mesmo semelhanças no campo?

Polivalente, fazia qualquer posição da defesa e médio defensivo, não era muito talentoso tecnicamente, mas compensava com muita entrega e garra à equipa. Quanto à alcunha Lucho, era só o cabelo naquela época e o facto de ser o jogador que mais admirava. 

Agora, por brincadeira, chamam-te Jurgen Klopp. Porquê? E qual é o treinador que mais admiras? 

É um dos treinadores que eu mais me inspiro, a par do Diego Simeone. Em relação ao Klopp, as semelhanças são na forma como estamos no jogo, no relacionamento e carinho que temos com os atletas.

Qual foi o treinador que mais te marcou?

O Luís Machado, meu treinador em 96/97 em Santa Marta, já naquela altura estava à frente dos outros em todos os aspetos. 

Começas em 2009 em Santa Marta, onde não consegues títulos como treinador. 

Sim e devo um agradecimento ao mister Justino Ribeiro, que me incentivou a ser treinador. Não consegui títulos em quatro anos, sinto alguma tristeza, mas também sabia que ia ser difícil conquistar, por vários fatores, não tinha experiência como treinador e também Santa Marta é um concelho pequeno, em comparação com o de Chaves, Vila Real ou Peso da Régua.

Ingressas no SC Régua em 2013/2014, numa época difícil por algumas condicionantes. Não foi fácil o início?

Foi mesmo difícil. Fui convidado para treinar iniciados. Para meu espanto, os iniciados não podiam competir no seu próprio campeonato por causa de um incumprimento na época anterior. Solução? Os iniciados disputaram o campeonato de juvenis como Régua “B”. Apesar de tudo, os atletas evoluíram de tal forma que três atletas iniciados foram inseridos na equipa de juvenis, que viria sagrar-se campeã. 

Na época 2014/2015 és campeão e a equipa sobe ao nacional. O que sentiste nessa altura? 

Senti que estava a nascer uma geração de ouro para o futuro do clube. Em termos pessoais foi uma alegria imensa pelo meu primeiro título e de estar a escrever o meu nome na história do clube. Foi uma época de sonho, sem derrotas, com boas exibições, com muitos golos marcados e poucos sofridos. Uma época inesquecível em todos aspetos.

No Nacional de Iniciados sentiste acima de tudo que foi uma aprendizagem? 

Sem dúvida, a série mais difícil do nacional. Foi a época que evolui como treinador e também os meus atletas evoluíram bastante. Perceberam que era outra realidade, outro rigor e uma oportunidade para o futuro das suas carreiras. O melhor momento foi a primeira vitória frente a Dragon Force em nossa casa, foi um trampolim para conseguirmos melhores resultados. Ganhar um jogo no nacional vale mais do que 10 jogos no nosso distrital. 

Nessa mesma época mais um título em infantis (sub-13)? Dava gosto ver aquela equipa jogar. 

Foi uma época fantástica. Conseguimos ser campeões por dois golos de diferença com os mesmos pontos do Chaves. A geração de 2003 jogava muito, vinha muito bem treinada pelos anteriores técnicos. Só tive que dar continuidade ao excelente trabalho que eles fizeram.

Duas épocas (2016/2017 e 2017/2018) em que as tuas equipas lutaram até ao fim, mas não atingiram o título nem a subida. O que falhou?

Tanto no futebol como na vida, temos que saber lidar com o reverso da medalha. Não ganhei nada nessas épocas em termos de títulos, mas consegue-se ganhar em outros aspetos. 

Na época passada, talvez a mais gloriosa, dobradinha (Campeonato e Taça) no escalão de juniores e “matar um borrego” para o SC Régua que já durava desde os anos 90. Tem um sabor especial?

Foi mesmo um ano de glória e de história. Conseguirmos o campeonato 27 anos depois, e acrescentar com a taça, foi uma época de sonho para esta maravilhosa geração. Significa que todo o trabalho que fizemos durante estes cinco anos, pelos atletas, treinadores e diretores de escalão, fez valer a pena todos os sacrifícios.

Depois desta época incrível, como foi ser recebido no município? 

Foi um momento muito especial para todos nós, sermos reconhecidos pelo município pelo feito que alcançamos para a cidade.

Tiveste um diferendo público com a anterior direção e saiste para o Fontelas. Entretanto, houve eleições e regressaste ao SC Régua. O que aconteceu?

Não quero falar sobre esse episódio. Foi muito desgastante para mim e para a minha família. Com a entrada da nova direção, o coração falou mais alto e aceitei com todo o prazer continuar no meu clube.

Voltaste ao escalão de Iniciados, como foi a preparação da época após esse episódio tanto nos iniciados, como nos sub-13? 

Não foi fácil a preparação para esta época, porque houve a saída de alguns atletas para o Fontelas, com isso não conseguimos ter as duas equipas na máxima força. Quem ficou a perder foi o concelho, que não conseguiu ter duas equipas a disputar o título, que acabou por não ser atribuído a ninguém, por tudo que estamos a passar. Neste momento, somos todos da mesma equipa, temos que nos proteger para voltarmos todos bem. O futebol agora passa a ser secundário e a saúde é a taça de todos nós. Juntos iremos vencer. 

No futebol, em que patamar poderemos ver o David Gouveia daqui a 10 anos?

Adoro estar na formação e quero continuar por algum tempo. Quero continuar onde me sinta bem e junto daqueles que me querem bem.

 PERFIL

 David Gouveia

 Profissão: Funcionário das Águas Interior Norte

 Idade: 38 anos

 Naturalidade: S. João de Lobrigos

 

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