Sexta-feira, 1 de Julho de 2022

“Trás-os-Montes deve aproveitar as excelentes condições que tem para a prática do ciclismo”

A paixão pelo ciclismo vive enraizada no coração deste transmontano, nascido em Campeã, Vila Real. Desde muito cedo sonhou ter uma bicicleta, mas só aos 11 anos os pais lhe ofereceram uma. A partir daí começou a destacar-se no Centro Desportivo e Cultural da Campeã. Depois participou numa prova federada em Lordelo, que foi uma espécie de porta aberta para o sucesso, corria o verão de 1984. Quatro anos mais tarde, o jovem promissor Delmino passa a ter um contrato profissional com a equipa da Boavista.

Desta forma, via o seu sonho concretizado. O fim da carreira de atleta foi complicado, por isso sempre manteve uma estreita ligação ao ciclismo. Depois de alguns anos como dirigente da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC), em 2012 encabeça uma lista para presidir a federação, altura em que foi eleito com 90 por cento dos votos. Em 2016 haverá eleições e promete candidatar-se para continuar a trabalhar em prol do desenvolvimento da modalidade.

 

Como é que o ciclismo entrou na sua vida?

O primeiro contacto que tive com a bicicleta teria uns 8 anos, mas só tive a primeira bicicleta aos 11. Foi um dia muito especial, diria mesmo maravilhoso. Como qualquer criança, eu também sonhava ter uma bicicleta, mas daí a pensar que um dia seria ciclista profissional ia uma distância enorme. No Centro Desportivo e Cultural da Campeã havia um grupo de jovens mais velhos do que eu e desafiaram as crianças a praticar desporto. Havia muitas modalidades, mas eu escolhi ciclismo. Depois, a 15 de agosto de 1984, fui fazer uma prova federada em Lordelo, tive um bom desempenho e convidaram-me para entrar no Clube de Ciclismo de Vila Real, ainda como júnior, onde permaneci três anos. Em 1988 tive uma oportunidade de correr para a equipa do Boavista, onde fiz a minha primeira Volta a Portugal e onde permaneci durante 14 épocas até 2001, altura em que decidi deixar de correr.

 

Como é que o ex-ciclista e empresário Delmino Pereira chega a presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo?

Em 2004 fui convidado para a direção da federação. Sempre senti que tinha perfil para dirigente, uma vez que fundei a Associação Portuguesa de Ciclistas Profissionais, sempre gostei de organizar provas, eventos, passeios de cicloturismo, festas de homenagem a ciclistas. Depois, em 2008, fui convidado para vice-presidente, cargo que assumi até 2011. Em 2012 surgiu a possibilidade de ser candidato a presidente, acabei por ser eleito, onde estou até hoje.

 

Eleito com 90 por cento de votos, em outubro de 2012, como classifica estes três anos à frente da Federação Portuguesa de Ciclismo? Faz um balanço positivo?

É um balanço positivo, até porque tive a felicidade de ter corredores de grande valor e de Portugal ter atingido resultados históricos, como o Rui Costa que foi campeão do mundo, o Ivo Oliveira, que também foi campeão do mundo de pista em juniores. Além de muitos bons resultados que temos tido nas seleções.

 

A nível de números, o ciclismo está a crescer? Como está a componente profissional? E a de lazer?

Estamos com um crescimento histórico. Nos últimos dois anos crescemos 45 por cento em número de filiados. Neste momento, o ciclismo é uma modalidade global para todas as idades. Temos fomentado a política da bicicleta, que pretende que os portugueses utilizem cada vez mais este meio de transporte, tanto para lazer como para trabalhar.

 

Há cada vez mais atletas a praticar as diferentes vertentes do ciclismo? Qual é a que tem aumentado mais?

Havia um desequilíbrio, ou seja dois quartos dos nossos federados estão integrados no âmbito do ciclismo para todos (lazer e recreativo), e cerca de um quarto são corredores de competição, em que crescemos bastante, mas ainda estamos abaixo da quota internacional. As escolas de ciclismo têm crescido muito e é aí que está uma oportunidade de grande de desenvolvimento. Por isso, estou convencido que vamos continuar a ter bons corredores.

A que se deve este bom desempenho do ciclismo?

É uma modalidade divertida e um desafio constante. Hoje, cada vez mais a sociedade procura estilos de vida saudáveis e conseguem isso através da prática de uma atividade física e desportiva. Também o mercado da bicicleta se desenvolveu muito, porque ter hoje uma bicicleta é também uma paixão, em que há uma ligação entre o nosso corpo e a máquina. Há ainda os valores da natureza e da ecologia que movem cada vez mais as pessoas.

 

Mas ainda há um entrave à prática da modalidade, uma vez que uma boa bicicleta é bastante cara.

Sim, sabemos que é uma modalidade dispendiosa, mas é uma modalidade que nos apaixona e nos prende. Houve também uma grande evolução nas máquinas, no vestuário e nos acessórios, com um papel fundamental do marketing. Ir hoje a uma loja de bicicletas é diferente, o vendedor sabe aconselhar o que melhor se adapta às nossas necessidades. Esta é uma tendência mundial e creio que há ainda muito espaço para crescer.

 

Lançou o “Plano Nacional de Ciclismo para Todos”. Em que consiste? E quais são os resultados práticos?

Tem duas grandes linhas de intervenção. A primeira linha é formativa, que pretende ensinar as pessoas a praticar corretamente o ciclismo. Para isso temos de ir às escolas e desenvolver o plano de formação e acompanhamento junto dos praticantes. A segunda linha tem a ver com a criação de condições para a prática do ciclismo em conforto, com a criação de ciclovias e outros espaços onde se pode andar em segurança de bicicleta. Aqui, ainda temos um longo caminho pela frente, mas a federação tem disponibilidade para acompanhar a construção de ciclovias, percursos, trilhos e outros. É um projeto que será para continuar a implementar durante os próximos anos.

 

Já conseguimos importantes títulos a nível internacional, como medalhas olímpicas, campeões do mundo, vencedores de etapas do Tour, mas falta uma conquista como vencer o “Tour de France”, aquela que é considerada a grande prova do ciclismo mundial. O que falta ao ciclista português para conseguir um feito desses?

Estamos a viver bons tempos. Temos atletas de grande qualidade mundial como o Rui Costa, que é o nono corredor do ranking e já foi campeão do mundo. O “Tour” é o maior evento desportivo que se realiza no mundo e sonhamos que um português consiga vencer essa competição, no entanto já é muito bom ter corredores que vão para as provas disputar os primeiros lugares, quando no passado íamos só participar. Agora já temos corredores portugueses a vencer etapas nas melhores provas mundiais. O ciclismo está muito desenvolvido, tem 180 federações no mundo que fazem grandes apostas na modalidade e ter sucesso neste contexto já é muito bom.

 

Como está a situação financeira da instituição que dirige?

A federação tem uma situação estável, apesar de sentirmos algumas dificuldades na angariação de novos sponsors. A nível de financiamento público somos a 11ª federação no ranking de 74 federações. Temos tido uma boa cooperação com o governo, no entanto estamos a crescer em contraciclo. Em 2014, a FPC foi considerada como a melhor no desenvolvimento da prática desportiva em Portugal, pelo IPDJ. Por exemplo, a nossa independência do financiamento do Estado é de 42 por cento, enquanto a média nacional ronda os 76 por cento. Portanto, o financiamento não tem acompanhado o nosso crescimento, mas terá de haver uma aproximação de valores nos próximos tempos. Em 2012 cada federado custava uma média de 130 euros, neste momento custa 59 euros, o que quer dizer que crescemos muito e o mesmo dinheiro tem de ser distribuído por todos, o que exige um enorme esforço numa realidade de grande contração orçamental.

 

A União Ciclista Internacional (UCI) atribuiu-lhe o prémio de mérito. O que significa para si essa distinção?

A minha carreira de dirigente ainda é curta, por isso penso que foi um título pelo trabalho e política global desportiva desenvolvida no ciclismo, em que a tónica tem sido o crescimento e a melhoria da qualidade das nossas seleções. Acho que foi um reconhecimento pelo crescimento constante e pela qualidade das nossas seleções, dentro de uma federação tão pequena. Para mim é uma enorme satisfação, que partilho com toda a minha comunidade (associações, clubes, atletas, agentes da modalidade e os meus colegas da direção). Não é um reconhecimento pessoal, mas sim do trabalho da equipa que lidero.

 

Na sua carreira de ciclista qual foi a maior alegria que teve?

Enquanto ciclista posso dizer que foi verdadeiramente feliz.

Adorava competir e ir para as corridas era uma festa. A Volta a Portugal era o ponto alto da época, sempre quis vencer uma subida à Senhora da Graça, mas não consegui. Mesmo assim, sempre senti grande apoio em todas as etapas da Volta, mas aquela que me correu melhor foi a segunda vez em que participei, em que vesti a camisola amarela. Lembro-me de uma chegada a Vila Real que coincidiu com a comemoração dos 700 anos do floral da cidade, eu era um miúdo desconhecido que chegou a Vila Real com a camisola amarela, foi emocionante ver todo o apoio que tive. É um dos momentos que elejo como extremamente feliz.

 

E qual foi o momento mais difícil?

Quando abandonei a competição. É duro deixar de correr. Saí de uma forma voluntária, mas senti dificuldades em saber gerir a minha retirada da modalidade. É como estar num quarto escuro e perder um pouco o rumo da nossa vida. Apesar de ter a minha vida pessoal organizada, senti que me faltava algo e por isso aproximei-me do ciclismo, de forma a ser feliz, de estar ligado à modalidade e me reencontrar.

Para si qual é, ou foi, o melhor ciclista português de todos os tempos?

Cada ciclista é aquilo que os adversários o deixam ser. Há gerações maravilhosas e outras menos boas. Destaco duas grandes figuras. No séc. XX o Artur Agostinho, um grande voltista e um grande corredor de provas por etapas. Um excecional corredor de calibre mundial. No séc. XXI temos o Rui Costa, que é um corredor extraordinário, inteligente e que vai sempre para as provas com espírito ganhador. É ainda um adversário de grande nível que consegue afirma-se numa modalidade cada vez mais globalizada.

 

No próximo ano, o que poderemos esperar a nível de novidades por parte da FPC para a nossa região? Qual é a grande aposta?

Temos um plano muito interessante para Trás-os-Montes, que inclui diversas provas de dimensão nacional. A Volta vai regressar a vários concelhos, à semelhança do que aconteceu este ano. Temos ainda a Taça de Portugal de Cross, de Maratonas, que vai passar por Chaves, a de Downhill em Mirandela e em Vila Real, a Volta ao Alto Tâmega. Estão ainda previstos os campeonatos nacionais de ciclismo de estrada em juniores, cadetes e femininos em Vila Flor. Entre muitos outros eventos dirigidos para as escolas de ciclismo, que estão em crescimento em todo o país e Trás-os-Montes não é exceção.

 

Lance Armstrong está associado ao maior escândalo de doping no ciclismo. Acha que essa fase negra da modalidade está ultrapassada?

Teve um impacto profundo no ciclismo, que se pode dividir na fase antes e depois de Armstrong. As feridas ainda não foram curadas e ficam para a história do desporto mundial, que deverá ser escrita por um historiador, que deve explicar como foi possível isto acontecer. Neste momento, a modalidade reorganizou-se e está novamente a crescer, tendo ultrapassado este problema. O desporto tem de ser sempre muito claro e transparente e vamos lutar para que assim seja.

 

Que conselho daria a um jovem que queira ser ciclista profissional?

É uma modalidade apaixonante e há cada vez mais jovens que querem ser corredores profissionais. Dá prazer sofrer e ainda mais vencer, por isso têm de trabalhar muito para chegarem ao topo, como em qualquer desporto. Não é por nascer talentoso que será campeão, terá de se esforçar ao máximo para chegar ao topo.

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