Sexta-feira, 1 de Julho de 2022

“Trás-os-Montes precisa de uma solução que passa por uma medida mais arrojada: a regionalização”

Professor aposentado, Carlos Gomes revela-se à VTM como cabeça--de-lista do Bloco de Esquerda pelo círculo eleitoral de Vila Real. O partido procura adotar uma orientação ambiciosa na campanha eleitoral que se avizinha e está determinado a apostar na regionalização como principal solução. Entre as suas várias preocupações está o intenso envelhecimento da população e a supressão de serviços importantes para a região

Antes de mais, pode recordar o seu percurso dentro do Bloco de Esquerda (BE) até à liderança da distrital?

O Bloco de Esquerda foi uma conjugação de diversos partidos e movimentos políticos que ocorreu há cerca de 12 ou 13 anos e, na altura, eu era militante de um dos partidos fundadores do BE, o PSR (Partido Socialista Revolucionário). Imediatamente a seguir a essa contenção política que foi surpreendentemente positiva para toda a sociedade portuguesa e em particular para os partidos da esquerda, que normalmente são acusados de estarem separados ou sempre em conflito, envolvi-me claramente e sem reservas nenhumas neste novo partido de confiança, que é o Bloco de Esquerda. Neste momento sou militante do BE e deixei de ter qualquer tipo de ação política na remanescente APSR (Associação Política Socialista Revolucionária). Só me interessa o Bloco de Esquerda.

 

Atualmente, qual o ponto da situação do partido no distrito?

Os partidos da esquerda sempre tiveram alguma dificuldade em se implantarem em zonas do interior transmontano. O Bloco de Esquerda, não fugindo a essa marca, vive uma problemática mais acentuada porque sendo um partido que começou com raízes claramente urbanas nos grandes centros do país como Lisboa, Porto, e apesar de ter adquirido desde o início um núcleo de militantes e aderentes que fez o seu trabalho político na medida das suas possibilidades, sempre teve muito mais resistência em conquistar pessoas. Por um lado, pela própria natureza das ideias e, por outro, as pessoas que são simpatizantes do BE e o facto de se encontrarem nesta região condiciona uma certa liberdade política, pois sentem que são perseguidas. Temos noção que há discriminação e temos com regular frequência testemunhos dessa situação por parte de pessoas que residem não só em Vila Real, mas em sítios mais pequenos do distrito. Uma terceira causa desta situação, é a emigração. O Bloco sente a partida das pessoas mais novas para fora do país e assim, neste momento, estamos numa fase menos boa do seu percurso no distrito, mas acreditamos que vamos conseguir ultrapassar. Temos cerca de 60 militantes dispersos pela região, mas o núcleo que funciona de uma forma consistente e regular é o de Vila Real.

 

Nas legislativas de 2009 e 2011, o Bloco de Esquerda perdeu alguns “pontos no distrito” passando, segundo os dados gerais, da quarta força mais votada para o quinto lugar. Quais são as expectativas para setembro/outubro no círculo eleitoral de Vila Real?

Desejamos voltar a tomar essa posição, ser ambicioso é uma coisa boa que se deve ter sempre que nos apresentamos numa campanha eleitoral. Naturalmente a luta será bastante mais difícil, mas acredito que a apresentação de um programa realista e ajustado, plausível de ser concretizado e se os cidadãos de Vila Real ousarem dar um passo no sentido de que não tem dado habitualmente, o BE pode crescer significativamente no distrito. Vamos ver se a nossa campanha consegue realmente cativar as pessoas com as nossas propostas. Apesar das dificuldades temos boas expectativas e acredito que estamos num momento que reflete uma situação que se viveu a nível nacional. Houve uma fase menos boa, mas penso que essa situação já passou e a casa está mais ou menos arrumada e, como tal, neste momento temos apresentado propostas a nível nacional que têm merecido nota positiva por parte dos comentadores e das sondagens, não passando isto de sondagens mas leva-nos a pensar que realmente o pior já passou. Não está a desfazer-se ou a desintegrar-se como alguns analistas políticos têm feito vincar.

 

A dois meses das eleições legislativas, as últimas sondagens (Eurosondagem – julho) colocam o PS à frente das intenções de voto e o BE na quarta posição. Considera que o momento de crise e as medidas de austeridade levadas a cabo na atual legislatura poderão beneficiar os partidos de esquerda, tendo em conta alguma animosidade existente da parte dos cidadãos em relação ao Governo PSD/CDS?

Não é uma questão automática, isto é, as medidas de austeridade foram aplicadas pelos partidos do arco da governação, mas não é automático que os partidos da esquerda sejam beneficiados. Acredito que o mais importante são as propostas que esses partidos vão apresentar. Portanto, não estamos a propor o paraíso nem coisa que se pareça, estamos a propor outro caminho, um outro rumo, porque nos parece que é possível criar riqueza, fazer de outra maneira sem ser de forma austeritária como aplicam os partidos, principalmente os da maioria atual. Como tal, o BE pensa que é possível seguir outro rumo que proporcione bem-estar, desenvolvimento, felicidade e justiça social às pessoas. Há um grande descontentamento por parte de todos, um descontentamento justificado, todos estamos mais pobres um pouco, principalmente da classe média para baixo. Naturalmente as pessoas têm o hábito de desabafar e protestar, se bem que não de uma forma tão evidente quanto deveria acontecer, mas acredito que durante a campanha eleitoral que se avizinha os portugueses irão refletir profundamente sobre as propostas que estarão na mesa não se esquecendo das dificuldades por que passaram e lembrando-se de uma coisa fundamental que às vezes passa despercebida: naquele dia, o voto da pessoa mais humilde vale tanto como o voto do homem mais rico de Portugal. Se as pessoas perceberem que podem mudar as coisas, irão à mesa de voto e votarão nos partidos alternativos a esta política, particularmente o BE, obviamente.

 

Já são conhecidos alguns cabeças-de-lista do BE por outros distritos. É possível levantar um pouco o véu sobre o perfil daqueles que vão dar o rosto pelo círculo eleitoral de Vila Real?

Sou eu! Houve dois debates internos para escolher o cabeça de lista e ficou decidido, apesar de alguma resistência da minha parte porque entendia que os “dinossauros” deviam abdicar. Mas as pessoas mais novas e capazes do BE neste momento não estão em Vila Real, por força do seu trabalho estão a residir fora do distrito ou do país. Entendeu-se assim que seria mais credível uma candidatura de uma pessoa mais velha, uma figura da região, que viva cá e conheça os problemas e as vicissitudes dos transmontanos. Ainda estamos a fazer uns ajustes na lista, mas creio que no máximo em 15 dias, será divulgada a lista definitiva tentando corresponder às diversas opções regionais e também à idade e ao género.

 

Na sua opinião, qual a receita para revitalizar Trás-os-Montes e Alto Douro? Que medidas devem os deputados que serão eleitos em outubro defender junto da Assembleia da República na nova legislatura?

Temos muitas preocupações. Ao caminhar por os sítios mais recônditos de Trás-os-Montes e Alto Douro, particularmente por Vila Real, apercebo-me como as pessoas estão a desaparecer. Desde aldeias que têm 3, 4 pessoas, casas degradadas, envelhecimento intenso das populações… Portanto, sinto que qualquer coisa está a morrer aos poucos na nossa região. As medidas e as promessas daqueles que têm governado Portugal em relação a esta região não têm resultado, pelo contrário, aceleram a desertificação. Todos os dias damos conta do que tem acontecido, o encerramento de alguns serviços que são essenciais para as populações que vivem cá, desde serviços relacionados com a saúde, com os transportes… Há talvez 5 anos, Vila Real tinha acessibilidades através de três meios de transportes: o caminho-de-ferro, a rodovia e o transporte aéreo. Agora, só tem um. E continua a ser muito difícil para qualquer pessoa se deslocar de uma aldeia para outra através do transporte coletivo. Apesar de haver pontos localizados de sucesso empresarial e que vale a pena enaltecer, penso que o balanço é francamente negativo. Desta forma, o BE entende que tem que se abrir outras opções estruturais, nomeadamente algumas estradas que deviam ser melhoradas para permitir a circulação interna. Hoje já estarei um bocadinho menos entusiasmado com a ideia da A1, preferindo, por exemplo, os IC’s que bordejam a região. O IC 5 que foi muito importante e nós sabemos que deveria haver um IC parecido desde Chaves até Bragança, por exemplo. A retoma do transporte aéreo, que não acredito que esta solução vá resultar, a urgência da reabilitação a sério da linha do Douro, as SCUT, que já começam a penalizar as pessoas…

 

Nas últimas legislativas, a cabeça-de-lista do BE em Vila Real defendeu a regionalização como “um fator indispensável para o reforço da democracia e para o combate às assimetrias económicas do país”. Esse é um processo ainda defendido a nível local?

Sim, Trás-os-Montes e Alto Douro tem que ter uma outra solução que passa por uma medida mais dura e arrojada, a regionalização. O BE tem debatido internamente este assunto, nem sempre é muito pacífico mas claramente todas as estruturas do Bloco do distrito de Vila Real e Bragança apostam que a regionalização será a forma de poder negociar diretamente com Bruxelas ou com os fundos comunitários de maneira a que esta negociação não seja falseada. Portanto, essa é uma bandeira que vamos implementar na nossa campanha eleitoral sem qualquer tipo de hesitação e reclamando que as matérias-primas do subsolo e mesmo da superfície, as Águas das Pedras e as de Vidago, as pedreiras, tragam uma mais-valia significativa para a região. Nós queremos viver aqui, esta é a nossa terra e o Estado tem a obrigação de tratar as pessoas com dignidade.

No compromisso assumido em 2011, o partido sublinhou também temáticas como a luta contra a precariedade no emprego, a necessidade do desenvolvimento da agricultura… São temas ainda atuais? Que questão se destaca atualmente na discussão contra o futuro do distrito?

Sim, principalmente a questão do emprego e da precarização. Os incentivos à natalidade, por exemplo. Enquanto não houver estabilidade no emprego não há incentivo à natalidade que resista a não ser um subsídio esporádico para quanto mais filhos fizer, mais dinheiro. Se cada vez é mais aleatório ter um emprego que dure alguns aninhos, como é que eu posso planear uma vida com descendentes se não fazemos a mínima ideia do que vai acontecer amanhã. Além disso, o trabalho está tão desvalorizado, cada vez há salários mais baixos e a situação da precariedade a manter-se, que realmente as pessoas ficam a pensar se devem continuar a trabalhar no nosso país. Os portugueses que trabalham lá fora são elogiados, eficientes, produzem em quantidade, ficam contentes e acabam por ter salários mais vantajosos e eu acho que temos o direito de desejar coisas mais ambiciosas para o nosso país. Quanto à agricultura, o Bloco conhece relativamente mal o fenómeno em Trás-os-Montes mas entende que a região tem particularidades importantes, o vinho, o azeite, a amêndoa. Há nichos importantes na agricultura do distrito que podemos ainda valorizar com projetos sustentáveis e estruturais. A floresta também tem sido um bocadinho esquecida. Para além da questão da produção do oxigénio que acaba por ser o mais importante, a floresta deveria ser aproveitada e valorizada e não o é, neste momento. Há também o problema da desertificação. Cada vez menos pessoas estão cá, só o núcleo da cidade é que cresceu um bocadinho, o resto do distrito tem tendência a desaparecer. É uma tristeza.

 

“Décadas de abandono e desvalorização”, ainda é como o partido classifica a atuação dos sucessivos governos perante a região?

Acho que os partidos têm medo da regionalização, não sei porquê, tem a ver com o poder estar em Lisboa, hierarquizado e centralizado, têm receio que as pessoas percam o seu sentido de serem portugueses. Não acredito em nada disso, as pessoas gostam de ser portugueses. É da responsabilidade do Estado criar um território coeso e o Estado tem sido desleixado. Às vezes fico com a sensação de que quem está nos corredores do poder não quer saber de nós para nada. Digo isto com muita mágoa. Nós queremos viver aqui e achamos que vale a pena tomar medidas estruturais, duras, que virem esta tendência. Com o BE há boas soluções para que isso possa acontecer.

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