Faz amanhã um mês que, no «Centro de Cirurgia Cardiotorácica» dos Hospitais da Universidade de Coimbra, o Prof. Manuel Antunes e sua equipa me fizeram um transplante cardíaco. Não fui a primeira pessoa de Vila Real a beneficiar desta conquista da ciência, nem serei a última, dado o êxito que este recurso extraordinário começa a ter entre nós.
Naturalmente, o transplante cardíaco, pelo perigo que acarreta, causa enorme tensão e curiosidade intelectual. Por tudo isso, pareceu-me útil redigir este texto a partir do muito que ouvi e algo que senti. A informação prestada pelo cirurgião ao candidato no encontro preparatório do transplante é minuciosa, é mesmo um dos momentos mais perturbadores. Antes de prosseguir, quero agradecer o interesse das muitas pessoas que me acompanharam de perto, a muita oração de grupos e comunidade, e o encorajamento de médicos e enfermeiros conhecedores do meu estado clínico. Sem esse estímulo, não sei se teria avançado.
Fundamentalmente, o transplante cardíaco é a enxertia do coração de uma pessoa falecida num doente cujo coração original está completamente gasto e sem hipótese de sobreviver. Esse coração deve ser um coração compatível, isto é, que tenha o mesmo grupo sanguíneo e outros elementos do doente receptor. (É indispensável que o doente receptor tenha bom funcionamento de rins, fígado, brônquios e pulmões). Há um momento em que o peito está totalmente vazio, sem nenhum coração. Adivinha-se a competência técnica e mais ainda a fortaleza e sangue frio que o cirurgião precisa de ter para este trabalho! Depois de colocado o novo coração, segue- -se durante meses o acompanhamento minucioso do funcionamento do novo coração, o que obriga a viver perto do Centro Cirúrgico. O grande problema do transplante reside na tendência permanente de o corpo rejeitar o novo coração ao sentir que é um corpo estranho. Para controlar essa tendência, provoca-se o enfraquecimento das defesas do organismo do receptor a fim de ele ir aceitando o novo coração. Esse enfraquecimento orgânico tem o grave inconveniente de deixar o transplantado sujeito ao risco de infecções, alergias de todo o género e outros riscos, o que obriga ao uso de muitas drogas e cuidados. O transplante é, pois, um recurso extremo, e, por isso, enquanto a medicina puder ir respondendo à doença cardíaca por meio de remédios e cirurgias parcelares às coronárias e às válvulas, não se avança para o transplante, até por motivos sociais.
Na estrutura orgânica da pessoa, o transplante representa uma espécie de abalo sísmico porque o conjunto dos órgãos vitais do corpo (mormente o coração, fígado, rins, pulmões), que sempre formaram um bloco, são agora separados do «rei» e convidados a trabalhar com outro, e esse reequilíbrio do novo coração com os outros órgãos é lento. O novo coração vai -se integrando no organismo como um motor novo num órgão de tubos, mantendo exactamente os mesmos registos sonoros.
Frequentemente, as pessoas perguntam pelas dores físicas. São muito poucas. Mais perturbadora é a hora da informação prestada pelo cirurgião ao candidato no encontro preparatório. Mas as perguntas que fazem são mais de índole psicológica: querem saber se se sente o funcionamento do novo coração, se se tem saudades do antigo, como se convive com o novo coração, como se relaciona com a pessoa do dador, etc. A resposta a estas e outras questões afectivas depende da sensibilidade, da cultura e da formação de cada um. No plano objectivo, as coisas são simples, pois a sede dos sentimentos está no cérebro e não no coração, e, por isso, a pessoa sente que tudo continua na mesma, como se nada se tivesse passado. A sensação que temos é que no peito parece bater o mesmo coração, aquele que nos foi dado na geração, o que sempre ali esteve, aquele que animou a nossa vida até ao transplante. Sabemos da colocação de um novo coração porque a equipa de cirurgiões no-lo diz. Da nossa parte vemos, unicamente, uma cicatriz no peito. A novidade está na força física que o novo coração imprime à circulação do sangue, incluindo uma nova tensão arterial.
É incontornável a pergunta pela relação com a pessoa do dador. Essa relação depende muito da formação cultural e religiosa de cada um. Da minha arte, desde que fui inscrito na lista dos candidatos ao transplante, comecei a rezar pela pessoa cujo coração, mesmo depois da sua morte, me iria proporcionar mais alguns anos de vida, e pedi a Deus que a recompensasse. Hoje essa pessoa sem rosto faz parte dos amigos por quem habitualmente se reza. Entrou no grupo.
Numa reflexão mais cuidada, o transplante cardíaco é uma experiência ímpar acerca do mistério da vida humana e da partilha dos bens da Criação entre dois doentes. Até à hipótese dos transplantes, a ajuda máxima dada aos doentes ia até à doação do sangue. Agora é possível dispor de um órgão que reste válido após a morte, um pedaço de um corpo morto e condenado à terra que pode levar um suplemento de vida a outro doente. Legalmente, a pessoa do dador permanecerá, segundo a lei portuguesa, sempre desconhecida. O dador pode ter feito em vida disposição dos órgãos que permanecerem vivos depois da morte, ou deixar isso ao cuidado da família, ou, simplesmente, não dizer nada e, depois, concordar que a autoridade competente extraia do corpo aqueles órgãos que permaneçam válidos. Pelo que me informaram no «Centro de recolha de órgãos», a geração mais nova é mais generosa que a anterior e bom será educar para essa abertura. Pressente-se, contudo, a luta bárbara que neste sector pode nascer se, ao lado do avanço científico e técnico em volta dos transplantes, não existir uma verdadeira antropologia e um sadio respeito pelo corpo humano.
Coimbra, 12 de Fevereiro de 2008
* Bispo de Vila Real





