Vila RealUma “paixão” cada vez mais cara

Uma “paixão” cada vez mais cara

Numa altura em que o sector da caça está no centro das atenções, o Nosso Jornal foi conhecer um pouco da modalidade que, em Trás–os-Montes, movimenta, anualmente, centenas de adeptos. Retratada por um dos mais famosos caçadores transmontanos, Miguel Torga, como expressão da “intimidade lúdica com a natureza”, apesar de hoje ser necessário muito mais […]

Numa altura em que o sector da caça está no centro das atenções, o Nosso Jornal foi conhecer um pouco da modalidade que, em Trás–os-Montes, movimenta, anualmente, centenas de adeptos. Retratada por um dos mais famosos caçadores transmontanos, Miguel Torga, como expressão da “intimidade lúdica com a natureza”, apesar de hoje ser necessário muito mais de que uma arma, munições e paixão, a caça continua a ser um dos vícios de centenas de milhares de portugueses.

No último dia 31, foram dados os primeiros disparos da época de caça à rola e ao pombo-torcaz, na Zona de Caça Municipal de Abaças, um início mais tardio que se deveu à transição da responsabilidade de gestão daquele espaço, da Junta de Freguesia para o Clube de Caçadores local.

“Apesar de ser cada vez mais difícil ter a carta de caçador e de serem cada vez mais caras as licenças, ainda há muitos jovens a praticar esta modalidade”, garantiu Manuel Araújo, Presidente do Clube de Caçadores de Abaças que, para a época em curso, que decorre aos Domingos e Feriados nacionais, até ao final de Outubro, sorteou 150 jornadas diárias.

O Nosso Jornal acompanhou dois caçadores, no dia em que a lei permitiu que se dessem os primeiros tiros para o céu de Abaças, um dia que, segundo José Varela Couto, que se dedica à modalidade há mais de 30 anos, não foi muito produtivo.

“Os caçadores andam pelo monte, mas nem se ouvem os tiros”, referiu o vila-realense que, apesar de reconhecer que o dia inaugural não ter sido fraco, recorda outras caçadas mais “lucrativas”, como a vez em que, em Mirandela, matou “três coelhos, com um cartucho só”.

“Ainda na semana passada, o meu sobrinho viu um javali com mais de 100 quilos”, afiançou Leonel dos Santos, outro dos caçadores que, no Domingo, madrugou à procura das rolas. Também com mais de trinta anos de caça, Leonel dos Santos lembra que, só no ano passado, caçou “33 coelhos”, recordando, também, já agora, o feito de há alguns anos atrás ter pescado, no Azibo, um lúcio de 16,7 quilos, cuja fotografia guarda no porta-luvas do carro.

As recordações podem variar e, apesar de jurarem a sua veracidade, os caçadores reconhecem bem a reputação que caçadores e pescadores têm de aumentar um ponto ou dois às histórias. No entanto, todos defendem também uma verdade incontornável: a modalidade é, cada vez mais, um “vício caro”.

“Contando com o tratamento dos cães, a manutenção do material, os custos das licenças, gasto, anualmente, à vontade, mais de mil euros”, contabilizou Leonel dos Santos que, durante todo o ano, alimenta e trata a Rola, a Rebeca e a Boneca, as suas três cadelas, companheiras na caça ao coelho.

E, por falar em cães, o Nosso Jornal encontrou também António Alves Correia, outro caçador que, apesar de não se encontrar de arma em punho, no Domingo, saiu de casa bem cedo, para “treinar os seus nove cães”.

Com a carrinha estacionada no local reservado apenas para o treino dos animais, o caçador larga a Laica, a Ribeira, a Andorinha, o Joli, a Raposa, o Bolinha, pela mata e, num corre-corre que se divide entre “farejar” atrás dos coelhos e o regresso ao dono, de quando em quando, vai ganhando a experiência para mais uma época venatória de caça. “Sou sócio de três associações de caça”, revela António Alves Correia, comprovando a paixão pela modalidade que define não tanto como um vício, mas como uma oportunidade de convívio.

Até à hora de fecho desta edição do Nosso Jornal, não foi possível obter, junto da ex-Direcção-Geral de Recursos Florestais, denominada, desde o dia 1, Autoridade Florestal Nacional, o número de caçadores existentes no distrito de Vila Real, ou, tão pouco, o número de licenças passadas este ano.

No entanto, segundo os dados disponibilizados pela DGRF, no seu “site” da Internet, estão registadas, no distrito, 73 zonas de caça, 59 dessas com tipologia municipal, 33 associativas e uma turística.

Só na capital de distrito, os caçadores podem usufruir, dentro das épocas específicas de caça estipuladas e divulgadas, de mais de duas dezenas de espaços devidamente delimitados.

Com a época venatória de caça, em curso desde o dia 15 de Agosto, de entre os mais de 300 mil titulares de carta de caçador válida existentes em Portugal, já se contam mais de 60 mil as licenças adquiridas, calculando-se que o sector tenha um impacto económico na ordem dos 326 milhões de euros.

Definindo-se como “montanhês por devoção”, Adolfo Correia da Rocha, imortalizado pelo pseudónimo de Miguel Torga, deixou na sua obra a marca do seu desporto preferido: a caça.

“Trôpego, o Tafona já não chegava às perdizes da Cumieira. Por isso, arrastava-se até Pedralva e caçava de espera. Caíam rolas no cedo, uma lebre ou outra pelo ano adiante, e coelhos quase sempre. No defeso, fornecia a casa e a barriga sem fundo do compadre Frederico; no tempo da permissão, vendia-lhe a Joana Benta as caveças na Vila”, contou Miguel Torga, na sua obra “Novos contos da montanha”.

Definindo a paixão pela caça como a expressão da “intimidade lúdica com a natureza”, era bem conhecido o seu “vício”, mas, mais do que regressar a casa com os animais que, de forma certeira, conquistava, Miguel Torga via na caça “um instrumento de mortificação pelo cansaço e pela dor, mas também uma fonte de inspiração”.

 

Maria Meireles

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