Domingo, 3 de Julho de 2022

Vaga de furtos põe aldeia em estado de sítio

Algumas aldeias da freguesia de Adoufe andam em sobressalto. Uma vaga de assaltos, perpetrada, ao que se supõe, por um indivíduo de Paredes, está a tirar o sono às suas populações. Todos sabem quem é. A GNR inclusive. Mas, apesar do esforço das autoridades, o “Maurício” (assim é conhecido) continua, alegadamente, “a fazer das suas”. […]

Algumas aldeias da freguesia de Adoufe andam em sobressalto. Uma vaga de assaltos, perpetrada, ao que se supõe, por um indivíduo de Paredes, está a tirar o sono às suas populações. Todos sabem quem é. A GNR inclusive. Mas, apesar do esforço das autoridades, o “Maurício” (assim é conhecido) continua, alegadamente, “a fazer das suas”. O povo de Paredes já guarda as suas casas, à noite. E a constituição de “grupos de vigilância” está em vias de facto.

A Junta de Freguesia de Adoufe pondera reunir com o Comando Distrital da GNR de Vila Real, se a situação não se alterar. Em Paredes, garantem que noventa por cento das habitações já foram “visitadas” pelo “Maurício, namorada e amigos”. No rol dos assaltos, entra, também, a “Carla”, a suposta namorada do “Maurício”, uma mulher na casa dos trinta anos e residente em Tinhela de Cima (Vila Pouca de Aguiar).

O Nosso Jornal foi até à “terra dos assaltos”, uma aldeia no sopé da serra do Alvão, com muitos idosos e alguns emigrantes, onde se nota, entre a população, um clima de medo e preocupação.

 

“Já se fala em formar equipas populares de vigilância”

 

Formosindo Escaleira foi uma das vítimas dos assaltos e confirmou receios.

“Eu estou preocupado. Ele já me levou vinte e cinco euros, do interior da própria casa. Tinha a porta aberta, na altura, foi o erro. Tem havido muitos assaltos, na aldeia, e já poucas casas falta para serem roubadas. Isto já se arrasta desde há um ano para cá. Estamos todos receosos e já se fala, por aí, em algumas pessoas formarem vigilância, à noite, com turnos. Eles arrombam as fechaduras, entram pelo telhado, por todo o lado. Se a GNR os encontrasse em flagrante, era uma coisa: não escapavam. Agora, assim, como os agentes de autoridade não os encontram em flagrante, pela lei não é possível”.

Formosindo Escaleira disse, ainda, que “a aldeia tem muitos idosos, cerca de sessenta pessoas”. E conhece a família do assaltante: “Ele tem família cá. O pai dele vive em Paredes”. A dona de um café da aldeia também está revoltada, com a situação que se vive ali: “Porque não os prendem? Roubam tudo. Todos os dias as casas são assaltadas. Os carros não podem ficar abertos. Mudámos as fechaduras e, mesmo assim, conseguem os seus intentos” – disse. Segundo a mesma habitante, o clima de medo impera.

“Muitas pessoas que vivem sozinhas assustam-se e não os denunciam, porque pensam que eles se vingam. Isto acontece todos os dias. Ninguém os apanha”.

 

“O povo anda com vontade de lhes dar uma tareia”

 

No horizonte, a vingança começa a ganhar contornos.

“Qualquer dia, alguém do povo perde a cabeça e faz justiça, pelas próprias mãos. É que as pessoas não estão sempre, de dia e noite, a guardar as casas. Ele começou a assaltar desde Agosto, com outra mulher. E até nas horas das missas, fazem assaltos. O povo anda com vontade de lhes dar uma tareia. Qualquer dia, acontece uma desgraça. Andamos sempre em sobressalto, agora não podemos deixar as casas sozinhas, sobretudo de noite, porque andam a levar-nos aquilo que ganhamos. Até cartuchos desapareceram, da casa do meu sogro” – acrescentou.

Segundo esta habitante, “ele não anda sozinho, há mais homens com ele. Só que aparecem sempre encapuçados, parecem drogados e até metem medo ao povo, usam luvas e óculos escuros”.

 

“Pais têm que levar os filhos à escola, porque as crianças têm medo”

 

Entretanto, há outro problema que preocupa a população: “As crianças das escolas começam a ter medo deles e já têm de ir os pais com eles, para a escola, a pé. Eles não querem andar sozinhos”.

Confrontado com esta situação, o Presidente da Junta de Freguesia de Adoufe, Carlindo Pitrez, mostrou apreensão.

”É claro que, como autarca, preocupa-me a segurança das pessoas, principalmente quando estão em causa os habitantes da minha freguesia. Estou a par daquilo que tem acontecido, nomeadamente a ocorrência de assaltos e roubos. Os autores estão já identificados, só que a Junta de Freguesia não tem poderes nem autoridade para prender os indivíduos em causa. Toda a gente sabe, em Paredes, quem é o assaltante. As pessoas têm-nos transmitido alguns dos furtos acontecidos, pelo que estou posto ao corrente, bem como as autoridades competentes”.

A disponibilidade da Junta é uma realidade: “Se a autoridade vier ter connosco, para os ajudar, com certeza que estaremos nessa disposição. Só que, até à data, ainda não vieram ter connosco e também nem precisarão, porque as pessoas nas aldeias indicam-lhes melhor o caminho”.

 

“Alguma coisa terá que se fazer. Isto não pode continuar assim”

 

Carlindo Pitrez tem ouvido a população a queixar-se: “Um dos queixosos desabafou comigo. Que tinha deixado a carteira em cima da cómoda, enquanto foi comprar pão. Passados cinco minutos, de regresso a casa, já não viu a carteira que tinha algum dinheiro e a documentação. Valeu um irmão do suposto autor do roubo, pressionando-o a deixar a carteira dentro da caixa do correio”. Quanto à vigilância nocturna, “acho que isso não está muito correcto. A vigilância não pode ser o povo a fazê-la. Se todos nós pagamos os nossos impostos, acho que outras pessoas têm de zelar pela segurança dos cidadãos. Vigiarmos as casas de noite, mas quando temos de ir trabalhar, durante o dia, não tem lógica. Não podemos estar a fazer de sentinelas”. Segundo o autarca, além de Paredes, também Adoufe, Couto e Escariz são locais onde se registaram, já, diversos assaltos.

“Para o futuro, se as coisas continuarem assim, iremos pedir uma reunião com o Comandante do Destacamento de Vila Real da GNR” – disse Carlindo Pitrez que ressalvou o papel da GNR, no terreno. “Tudo isto não põe em causa o trabalho da GNR. Aliás, tenho visto os jipes a passar, diversas vezes. Só que o ladrão é difícil apanhar, porque é impossível estar um GNR em cada porta. Mas alguma coisa terá de se fazer. Isto não pode copntinuar assim. Exige-se mais um esforço, por parte dos agentes e, dentro daquilo que nos for possível, também ajudaremos, para resolver este problema. Lembro que o suspeito esteve preso, recentemente, mas foi solto logo depois. Nem sei as razões porque foi preso”.

Apurámos que o indivíduo e a presumível companheira são toxicodependentes e, segundo a GNR, os assaltos terão como objectivo a angariação de dinheiro para a compra de estupefacientes. No terreno, a GNR (que, por várias vezes, já interpelou os suspeitos dos assaltos) tenta encontrar uma forma “adequada e de acordo com a Lei” para pôr fim aos furtos, na aldeia de Paredes. E não se tem poupado a esforços, para desenvolver várias acções de investigação.

 

 

José Manuel Cardoso

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