“É evidente que era necessário haver formação nas escolas para, nos diversos momentos, por exemplo na disciplina de cidadania e desenvolvimento, esta temática ser abordada”, disse à Lusa o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima.
O responsável falava a propósito do alerta deixado pela Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância sobre “o crescente impacto” do discurso do ódio em crianças e jovens, sobretudo ‘online’ e nas escolas, e para os “níveis alarmantes” de discursos discriminatórios na Europa, no seu relatório anual de atividades de 2025, divulgado na quinta-feira.
Segundo o relatório, o discurso de ódio predominante nos países europeus é o xenófobo, existindo outras tipologias que levam a comportamentos discriminatórios, como a religião, cidadania, orientação sexual e identidade de género.
As crianças e os jovens podem ser potenciais vítimas e também difusoras do discurso de ódio, segundo a comissão.
Em Portugal, o presidente da ANDAEP confirmou que há cada vez mais crianças que são difusoras dessas mensagens de ódio, “porque é aquilo que muitas vezes se vê na sociedade” e que também são vítimas desse discurso, admitindo que não está surpreendido com as conclusões do relatório.
Filinto Lima disse que é difícil combater o fenómeno e indicou que as escolas “tentam fazer o possível e às vezes até o impossível para minimizar os discursos de ódio”.
“Nós tentamos remar contra a maré. Temos dificuldade. Por isso é que muitas vezes entidades externas são chamadas às escolas para falar sobre essa temática”, disse o responsável, dando o exemplo do programa Escola Segura da Polícia de Segurança Pública (PSP), que pretende prevenir comportamentos de risco e reduzir comportamentos potenciadores de insegurança em ambiente escolar.
O presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), Manuel Pereira, admitiu também à Lusa um aumento do discurso de ódio entre as crianças e os jovens, referindo que o comportamento dos alunos é um reflexo do que ouvem nas suas casas.
“O discurso que os miúdos têm na escola, mesmo político, é um discurso que vem de casa quase sempre. É uma opinião que é veiculada pelas famílias e que os alunos trazem para a escola”, disse à Lusa Manuel Pereira.
O presidente da ANDE responsabilizou também os partidos políticos, nomeadamente de extrema-direita, pelo discurso de ódio replicado pelas crianças, “que a comunicação social, de alguma forma, também transmite”.
A presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Mariana Carvalho, também concorda que há um aumento de crianças difusoras de discursos de ódio, indicando que existem ideologias e criadores de conteúdo, muitas vezes ʽonline̓, que influenciam os menores para um tom de intolerância.
A presidente da Confap disse à Lusa que é preciso criar estratégias para perceber que notícias são verdadeiras e falsas e quais são os valores que se desejam para a sociedade.
“Temos que aumentar essas competências e esses valores nas nossas crianças e jovens”, declarou.
Para Mariana Carvalho é preciso criar equipas multidisciplinares nas escolas “para prevenir todas estas situações de intolerância e de discursos de ódio”.





