A utilização da IA na educação está a transformar o quotidiano das escolas e a mudar a forma como muitos alunos estudam e realizam trabalhos. Ferramentas digitais capazes de responder a perguntas, resumir textos, traduzir conteúdos ou gerar trabalhos completos tornaram-se cada vez mais presentes nas salas de aula, levantando debates sobre o impacto desta tecnologia no ensino.
Especialistas na área da educação defendem que a inteligência artificial pode representar uma oportunidade importante para modernizar métodos de aprendizagem e tornar o ensino mais acessível e personalizado. No entanto, alertam também para riscos associados ao uso excessivo destas ferramentas, sobretudo por parte dos alunos mais jovens.
“Hoje os alunos utilizam a inteligência artificial para quase tudo. Temos que lhes mostrar como usá-la bem”
SANDRA PIRES
PROFESSORA
Entre as principais preocupações apontadas estão a dependência tecnológica, a redução do pensamento crítico e a possibilidade de os estudantes deixarem de desenvolver competências fundamentais como a escrita, a interpretação e a capacidade de argumentação. Muitos investigadores defendem que, embora a IA possa funcionar como apoio ao estudo, não deve substituir o esforço individual nem o processo de aprendizagem.
Relatórios recentes sobre o impacto da inteligência artificial na educação indicam que uma grande parte dos estudantes já utiliza estas ferramentas regularmente para estudar ou realizar tarefas escolares. Ao mesmo tempo, muitos alunos reconhecem que precisam de orientação para utilizar a tecnologia de forma responsável.
Há também quem defenda que a adaptação das escolas à inteligência artificial deve ser gradual e acompanhada por regras claras. A formação de professores, a atualização dos métodos de avaliação e o desenvolvimento de competências digitais são apontados como medidas essenciais para garantir que a tecnologia seja utilizada de forma positiva.
Outra preocupação frequente está relacionada com a fiabilidade da informação produzida pela IA. Apesar de apresentarem respostas rápidas e bem estruturadas, estas plataformas podem gerar conteúdos incorretos ou descontextualizados, o que torna necessária uma maior capacidade de análise crítica por parte dos alunos.
Para muitos docentes, a presença da inteligência artificial na escola já é inevitável. É o caso de Sandra Pires, professora de Espanhol no Agrupamento Morgado de Mateus, em Vila Real, que admite que os alunos recorrem cada vez mais a estas ferramentas no dia a dia.
“Hoje os alunos utilizam a inteligência artificial para quase tudo, como resumir textos, estudar para testes ou até organizar trabalhos. É uma realidade que já faz parte da vida deles”, explica.

Esta professora considera que a IA pode ter vantagens no apoio ao estudo, mas alerta para os riscos de uma utilização excessiva.
“Há alunos que usam a tecnologia para esclarecer dúvidas e aprender melhor, mas também há quem tente substituir completamente o trabalho pessoal. O problema começa quando deixam de pensar por si próprios”, afirma.
Sandra Pires defende que a escola deve acompanhar a evolução tecnológica sem abandonar os objetivos centrais da educação. No seu entender, “ não faz sentido ignorar a inteligência artificial ou tentar proibi-la totalmente. O mais importante é ensinar os alunos a utilizá-la de forma consciente, crítica e responsável”.
“A tecnologia pode ajudar, mas nunca substitui o acompanhamento humano, o diálogo e a capacidade de motivar os alunos”, assume, realçando que o papel do professor continua a ser essencial dentro da sala de aula.
No seu caso, enquanto professora de línguas, Sandra Pires confessa que a IA pode ser uma ferramenta útil na aprendizagem. A docente considera que plataformas de IA podem ajudar os alunos a treinar vocabulário, corrigir erros gramaticais e praticar a escrita em espanhol de forma mais autónoma. Ainda assim, alerta que a tecnologia deve servir apenas como complemento ao estudo.
“A IA pode ajudar os alunos a praticar espanhol fora da sala de aula e a ganhar mais confiança na escrita. Mas é importante que continuem a desenvolver a comunicação oral e a capacidade de pensar e responder sozinhos”, afirma.
Questionada sobre as técnicas usadas para perceber se um aluno usou IA num trabalho, por exemplo, Sandra Pires explica que “conhecermos o aluno é meio caminho andado”.
“ Há várias características da IA, e da forma como ela escreve, que são imediatamente identificáveis. Eu, pelo menos, consigo identificar”, vinca.
“Proibir não é o caminho. Temos, sim, que mostrar aos alunos como usar a IA de forma correta e de uma maneira que seja benéfica para eles e para a aprendizagem”, vinca Sandra Pires.
“No nosso agrupamento, 90% dos professores do primeiro ciclo já estão a utilizar inteligência artificial”
ANTÓNIO MANSILHA
PROFESSOR
Além do apoio ao estudo e à realização de trabalhos, algumas escolas já utilizam ferramentas de inteligência artificial em contexto de aprendizagem dentro da própria sala de aula. Um desses exemplos acontece através de plataformas digitais integradas no ensino, que permitem acompanhar de forma mais individualizada o desempenho dos alunos.
No caso do Agrupamento de Escolas D. Sancho II, em Alijó, uma das áreas onde a inteligência artificial tem sido utilizada com mais sucesso é no desenvolvimento da fluência leitora.
Segundo António Mansilha, através de ferramentas integradas no Microsoft Office 365, como o Teams, os professores conseguem atribuir textos adaptados à idade e ao nível de dificuldade de cada aluno.
“O professor pode até pedir à inteligência artificial para gerar um texto a partir de um determinado tema e depois criar questões de interpretação para avaliar a compreensão da leitura”, refere.
Os alunos realizam depois a leitura em voz alta, gravando áudio ou vídeo, enquanto a plataforma analisa automaticamente vários indicadores, como o número de palavras por minuto, omissões, pronúncia e erros de leitura.
Para António Mansilha, esta tecnologia representa uma ajuda importante, tanto para os professores como para os alunos.
“Permite poupar tempo ao professor e criar tarefas mais individualizadas e adaptadas às necessidades específicas de cada aluno”, afirma.
O docente considera, ainda, que este tipo de ferramentas aumenta a motivação dos estudantes, sobretudo dos mais novos, por utilizarem recursos digitais com os quais já estão familiarizados. Além disso, a utilização destas plataformas também tem aproximado as famílias do processo de aprendizagem, uma vez que “muitos alunos realizam as atividades em casa com o acompanhamento dos pais”.
Apesar das vantagens, António Mansilha alerta que a utilização da inteligência artificial exige formação e espírito crítico.
“O mais importante é trabalhar a literacia digital para perceber como estas ferramentas funcionam e de que forma podem ser usadas corretamente”, defende.
O docente acredita que a inteligência artificial veio para ficar nas escolas, mas reforça que deve ser encarada como um complemento ao trabalho humano e nunca como um substituto do papel do professor.







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