Vila RealVila Real é cada vez menos um destino apetecível para os cidadãos do mundo

Vila Real é cada vez menos um destino apetecível para os cidadãos do mundo

Apesar de as estatísticas apontarem para um aumento de 3,7 por cento da população estrangeira residente em Portugal, outros dados indicam que, em 2007, se assistiu a uma diminuição dos pedidos de apreciação de contratos de trabalho para a obtenção de autorização de permanência, destacando-se o distrito de Vila Real como o último do “ranking”, […]

Apesar de as estatísticas apontarem para um aumento de 3,7 por cento da população estrangeira residente em Portugal, outros dados indicam que, em 2007, se assistiu a uma diminuição dos pedidos de apreciação de contratos de trabalho para a obtenção de autorização de permanência, destacando-se o distrito de Vila Real como o último do “ranking”, nessa matéria. Deixamos aqui o testemunho daqueles que deixaram os seus países, para, na aventura mais ou menos efémera, tentar a sorte no território vila-realense.

Em 2007, registaram-se, em Vila Real, 21 pedidos de apreciação de contratos de trabalho, com vista à obtenção de autorização de permanência de imigrantes, um número que representa um decréscimo de 23,3 por cento, relativamente ao ano de 2006 e que faz deste distrito transmontano aquele que menos pedidos registou.

Segundo dados do Relatório Anual de Actividades da Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT), os valores são ainda mais drásticos, quando se traça a comparação com 2005, altura em que se registaram 381 pedidos de apreciação e em que Vila Real se encontrava sensivelmente a meio da tabela na distribuição geográfica de contratos de trabalho.

No ano passado, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras/SEF (que, apesar de várias tentativas, não respondeu, em tempo útil, ao pedido do Nosso Jornal, para mais esclarecimentos sobre a temática da imigração), registou uma população estrangeira de 2007 indivíduos, 1016 dos quais provenientes de países da Europa e os restantes 991 de nações de outros continentes.

Entre os países mais representados, neste distrito transmontano, estão o Brasil (com 529 cidadãos), a Ucrânia (com 383 pessoas), a China (com 96 residentes), Angola e Cabo Verde, com 86 e 78 cidadãos, respectivamente.

Vladymyr, de 19 anos, de nacionalidade ucraniana, foi um dos imigrantes que, em 2007, viu concluído o seu processo de legalização, apesar de já estar, em Vila Real, há três anos, com a família. Preferindo não dar o rosto para a nossa reportagem, o jovem que trabalha na construção civil garante que a sua passagem por Vila Real e por Portugal será breve, traçando como grande objectivo o regresso ao seu país natal.

“Vivemos um dia de cada vez”, garante o imigrante, adiantando que, este ano e desde que saiu da Ucrânia, vai de férias, pela primeira vez, ao seu país.

Classificando como “complicado” todo o processo de adaptação a Portugal, Vladymyr reconhece que “há pessoas boas e há pessoas más, em todo o lado” mas que nem sentiu muito na pele o peso da discriminação.

Mais complicada, ainda, tem sido a tentativa de legalização de João (nome fictício), outro imigrante, natural da Ucrânia, de 24 anos, e que, apesar de estar, em Vila Real, há dois anos, ainda não conseguiu “tratar dos papéis”. Mas, ao contrário de Vladymyr, o jovem é peremptório, ao afirmar que não se importava de ficar, “para sempre”, na região transmontana.

A redução do número de imigrantes tem-se feito sentir e prova disso mesmo foi o encerramento, em Junho de 2007, “por falta de movimento” de utentes, do Centro Local de Apoio a Imigrantes, um espaço que, localizado na Capela Nova, no coração da cidade, foi criado, em Novembro de 2003, para “apoiar os imigrantes que vêm trabalhar para Portugal”.

“Nos primeiros anos de funcionamento, ajudávamos muitos imigrantes. No entanto, por falta de movimentação, acabámos por fechar”, explicou, ao Nosso Jornal, o Padre Lúcio, responsável pelo Centro.

Xu Hailong, imigrante, residente em Portugal há 20 anos, 17 dos quais em Vila Real, ajudou a compreender a redução do número de chineses que se aventuram em lutar por uma vida melhor, em Portugal.

“Neste momento, a economia da China está em ascensão, as pessoas começam a ganhar mais e já não vale a pena emigrar”, referiu o comerciante que, neste momento, gere três lojas, em Vila Real, mas que já foi proprietário de três restaurantes.

“Casei-me e agora tenho cá toda a família (quatro filhos), mas não posso dizer, com certeza, que não vou voltar para a China”, explicou Xu Hailong, deixando no ar a possibilidade de regressar ao continente asiático, depois de ter passado a maior parte da sua vida na nação lusa.

Seguindo a tendência nacional, também no distrito são os brasileiros que lideram, quando se fala de população residente. Apesar de ainda não entrar nas estatísticas de 2007, Keity Moskwyn Feltrin, há sete meses em Portugal, espera a conclusão do processo de legalização, deixando o verde e amarelo do Brasil para, “por amor”, mergulhar no vermelho e verde portugueses.

“Surgiu uma oportunidade do meu noivo vir para Portugal, para jogar Futsal, e eu acompanhei-o, sem pensar duas vezes”, revela a brasileira, de 20 anos, que deixou a família e um emprego estável, em São Paulo, para tentar “recomeçar a vida, de novo”.

Com a Ucrânia e a Itália no sangue, esta foi a primeira vez que Keity Feltrin deixou o seu país, uma experiência que, como nos contou, foi difícil, no início, mas que deverá ser temporária, embora “o futuro ainda seja incerto”.

“Tenho consciência de que seria melhor criar os meus filhos em Portugal, mas eu sou apaixonada pelo meu país”, revela, sem hesitação.

Apesar de reconhecer que “tive sorte em conhecer as pessoas certas”, a brasileira que, actualmente, trabalha como empregada de balcão, explica que houve situações em que se sentiu descriminada, mas que, por outro lado, teve o apoio de muita gente, como, por exemplo, os seus patrões que “muito me têm ajudado”.

“Eu amo o meu país, mas aprendi a vestir a camisola portuguesa. E visto-a com gosto”, garante a jovem, ao vestir, efectivamente, uma camisola, com as cores de Portugal.

 

 

Maria Meireles

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