Sábado, 19 de Junho de 2021

27 mulheres mortas por violência doméstica

A violência doméstica é uma situação que não deveria existir nos dias de hoje marcados pela defesa do género, pelos afetos, pela consciencialização cívica, pelos convites à tolerância, ao diálogo, enfim, pelos direitos humanos, ampliados pela globalização e pela solidariedade.

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No entanto, fruto das corridas desenfreadas que são feitas no dia-a-dia, das vicissitudes do consumismo quase extremo, dos endividamentos pessoais e familiares, dos compromissos pouco consistentes, dos encontros efémeros e irrefletidos, das oportunidades perdidas e das turbulências sociais que nos envolvem, os contactos do Homem consigo mesmo e com a Natureza assumem periodicamente grande rispidez. A violência reflete isso mesmo: é sempre um escape. A violência doméstica e a familiar é a que está mais próxima de quem tem de resolver (ou julga ter de resolver), às vezes afogueadamente, os problemas que residem na casa e na família ou os que, vindos de fora, são transportados para o ambiente domiciliário.

51 CASOS MORTAIS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR, EM 2018

O ano de 2018 foi, entre nós, dramático e triste. Mais do que o de 2017. Tal como aconteceu com os acidentes e vítimas de acidentes rodoviários ou com os afogamentos de verão. As pessoas têm dificuldade em se relacionar, de se entender, de cumprir normas legais e éticas. A responsabilidade é do egocentrismo, do egoísmo, das prioridades de cada um que acabam por pender para a mera satisfação própria. Em 2018, houve 51 casos de violência doméstica com ocorrência de mortos. Quase um por semana. Terrífico. E nos primeiros dias de 2019 já vamos em mais alguns. As vítimas maiores são as mulheres, especialmente as que têm vida em comum com homens, sejam maridos, companheiros, amantes ou namorados. No entanto, neste ano também cresceu excecionalmente o número de homens mortos no seio familiar. Neste caso, muitas das vítimas são também os agressores que optaram pelo suicídio após terem tirado a vida às companheiras. Num dos casos, já no final do ano, o marido alvejou a esposa. Julgando tê-la matado, suicidou-se. Mas a mulher sobreviveu.

 

MAIS CASOS A SUL E NO LITORAL

Os casos verificados em 2018, em Portugal, ocorreram em 39 municípios do continente e dois casos tiveram lugar ora na Madeira (Funchal) ora nos Açores (Ponta Delgada). Tal como em Vila Real, as regiões de Ponte de Lima, Porto, Torres Vedras e Vila Franca de Xira tiveram duas situações em que pessoas morreram por violência no meio familiar. As outras regiões preencheram a totalidade do mapa de Portugal, desde o topo norte (Valença ou Viana do Castelo) ao topo sul (Portimão ou Quarteira). A norte, houve 11 casos mortais; no centro, registaram-se 15 e, a sul, 16. No interior do país aconteceram 13 casos de violência mortal, neste domínio. No litoral, o número foi mais elevado: 29.

Em Lisboa e Grande Lisboa morreram três pessoas. No Porto e Grande Porto morreram duas. Mas onde o maior número de homicídios aconteceu foi na região da chamada Cintura Industrial de Lisboa (seis pessoas mortas).  Refira-se que ocorreram cinco mortes de portugueses, por violência doméstica, em países estrangeiros, nomeadamente na Bélgica, na Espanha, nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Suíça, envolvendo emigrantes.

Foi nos meses de abril (oito casos) e de agosto (sete) que aconteceu o maior número de vítimas, seguidos de perto por janeiro e março (seis). Já nos meses de maio e novembro apenas um caso se verificou. Mas em todos os meses do ano houve vítimas mortais neste contexto.

OS DIVERSOS TIPOS DE RELAÇÕES

Em casos desta natureza, houve generalizadas relações entre os vários tipos de família e de familiares. No referente a casos mortais, registamos situações entre marido e mulher, em estrutura clássica (22); filho(a) – mãe (7); namorados (pessoas que não vivem em espaço comum sob o mesmo teto – 6); genro – sogro(a) (2); e, ainda, sobrinho(a) – tio(a), primos, filho(a) – pai, cunhados e irmãos (uma situação em cada caso). Também houve casos excecionais: casal (mãe e pai) – filho(a) (2), amantes (ligação de duas pessoas sem compromisso conjugal) – (2), madrasta/enteado, padrasto/enteado e ainda um caso em que a vítima mortal acabou por ser o próprio agressor. Em quatro casos, as ocorrências envolveram casais homossexuais (todos entre parceiros masculinos).

13 MARIDOS MATARAM ESPOSAS E 5 ESPOSAS MATARAM MARIDOS

Considerando haver atualmente estruturas familiares clássicas (determinadas por casamento oficial entre homem e mulher) e outras que o não são (uniões de facto, heterossexuais; e relações homossexuais – por casamento ou não), sintetizaremos os homicídios verificados em contexto doméstico e/ou familiar na caixa abaixo.

CASOS

    

Lamas de Olo, no primeiro dia do ano de 2018. O agressor era primo da vítima mortal. Agressão a tiro. Razão: desavenças antigas. O agressor assumiu ter sido por vingança. Foi sentenciado no Tribunal de Vila Real a 12 anos de prisão, em 3 de outubro.

Évora, no dia 10 de janeiro. Um octogenário matou a mulher (esfaqueamento) e suicidou-se (enforcamento). Causa: a doença degenerativa prolongada da esposa. Uma espécie de “pacto de morte” entre os dois.

Oeiras, no dia 11 de janeiro. Um homem matou a mãe, com quem vivia, à facada. O agressor pediu dinheiro à vítima, mas esta negou-lho. O filho abandonou o corpo da mãe durante 15 dias na casa que ambos habitavam.

Viana do Castelo, no dia 14 de janeiro. Um casal de idosos terá feito um “pacto de morte”. O homem usou uma caçadeira para matar a mulher e para se suicidar de seguida. A esposa sofria de Alzheimer e o marido não aguentou as exigências da doença.

Sever do Vouga, a 16 de janeiro. Um homem degolou a mulher e tentou matar-se ingerindo veneno. A relação do casal era conflituosa e de grande violência. Na base do homicídio, os ciúmes. O marido acusava a mulher de manter uma relação  extra-conjugal.

Nazaré, a 29 de janeiro, o genro matou o sogro, a tiro e à facada, no átrio de uma escola onde o avô foi buscar o neto. Na base do ocorrido, divergências familiares sobre o poder paternal não consentido pela ex-mulher de que estava separado há dez anos.

Loures, a 7 de fevereiro, uma jovem que escondera a gravidez não desejada matou o bebé na casa dos pais, dando à luz sozinha, numa casa de banho. O ato foi cometido por estrangulamento. O bebé era um rapaz.

Charleoi, na Bélgica, a 7 de março. Uma mulher portuguesa foi morta à facada pelo companheiro. Razões: violência continuada, problemas financeiros e alcoolismo.

Fundão, a 10 de março, um homem esfaqueou mortalmente a amante. Os ciúmes foram a causa da morte, já que a mulher insistiu em manter a relação com o agressor, apesar deste ter iniciado uma outra com outra mulher.

Ponte de Lima, no dia 10 de março, uma mulher matou uma sua tia, por atropelamento deliberado, passando com o seu carro várias vezes sobre o corpo. O homicídio deveu-se a problemas financeiros da agressora que pretendia roubar a tia.

Vila Real, uma mulher foi mortalmente esfaqueada pelo amante, em 15 de março.  O agressor acabou por se enforcar num poste de alta tensão, após uma primeira tentativa falhada, com ingestão de comprimidos.

Seixal, a 11 de abril, ocorreu mais um caso de infanticídio. Uma jovem, após gravidez indesejada, matou a filha recém-nascida com uma faca, em casa dos pais, e colocou o corpo da bebé no lixo.

Pinhal Novo, no dia 23 de abril, um filho, com graves perturbações psíquicas, matou a mãe octogenária, com golpes de caneta na cara. O assassino alegou motivos sobrenaturais, por ver na mãe a personalização do demónio.

Porto de Mós, a 24 de abril, um homem matou a companheira, depois de uma desavença sobre questões financeiras. O crime foi cometido por degolação. Ambos divorciados, viviam há um ano uma união de facto.

Payern (Suíça), em 28 de abril, um homem matou a mulher e o filho, a tiro. A família era de Albergaria-a-Velha e estava emigrada. O casal estava em processo de divórcio e a causa da morte foi uma discussão sobre a propriedade de uma casa.

Ponte de Lima, a 29 de abril, um homem atou-se com uma corda à mulher que sofria de Alzheimer e atirou-se a um rio, morrendo ambos afogados. Era um casal de septuagenários.

Barreiro, a 29 de abril, um homem matou os pais, atacando-os à facada e à bastonada. O agressor era toxicodependente e reagiu dessa forma à negativa dos pais para lhe dar dinheiro para a droga. O homem tentou o suicídio após o crime.

Ansião, no dia 1 de maio, o marido matou a mulher, com um tijolo, por ciúmes. De há muito, o casal mantinha relações de grande violência e a esposa era sujeita a várias agressões.

Sesimbra, a 8 de junho, um pai matou o filho, com um tiro de caçadeira. Eram frequentes as desavenças entre ambos que viviam juntos na mesma casa, sem mais ninguém. O filho era acusado pelo pai de lhe roubar objetos que ia vender fora.

Funchal (Ilha da Madeira), a 11 de junho, um homem morreu às mãos de um cunhado, à facada, o qual o desmembrou e escondeu as partes do corpo entre duas paredes. Ambos eram alcoólicos.  A morte ocorreu a seguir a uma acesa discussão.

Vila Verde, a 16 de junho, uma mulher matou o marido, a tiro, depois de este a ter ameaçado de morte. Um filho do casal foi acusado de ajudar a mãe no assassinato, tendo fugido para França, após o homicídio, onde veio a ser detido, em 21 de setembro.

Porto, a 20 de junho, num quarto em que vivia um casal de toxicodependentes, um homem matou a companheira, estrangulando-a. A vítima namorava o agressor há um ano, mas era comum discutirem de forma acalorada.

 

 

Caldas da Rainha, a 20 de junho, os elementos de um casal esfaquearam-se mutuamente. Ninguém deu conta do que terá sido um homicídio seguido de suicídio, tendo ambos sido encontrados dentro de casa, já em decomposição.

Torres Vedras, no dia 8 de julho, um sogro matou o genro, com tiros de caçadeira, num ambiente de desentendimentos familiares. Eram ambos idosos (o sogro tinha 90 anos e o genro tinha 70) e viviam sós, na mesma casa, após a morte da filha do agressor, há 4 anos.

Bombarral, a 14 de julho, um homem matou a mulher, num cenário de violência doméstica que vinha de trás. O homicida escondeu o cadáver num pinhal, depois de ter asfixiado a esposa.

Vila Franca de Xira, em 16 de julho, em crime passional, uma mulher matou o marido. A mulher terá atuado com um amante e o móbil do crime terá sido o seguro de vida do homem, engenheiro informático e conhecido triatleta.

Porto, no dia 18 de julho, um jovem matou outro, com quatro facadas, por ciúmes. O agressor tinha uma forte atração sentimental pela vítima que não correspondia aos seus intentos. Ao ver o rapaz na companhia de uma namorada, o homicida matou-o à porta da moradia do outro jovem.

Portimão, no dia 2 de agosto, um homem matou a mulher, à pancada, num cenário de alcoolismo crónico e ambiente conflituoso. As discussões entre os dois elementos do casal eram frequentes.

Vila Franca de Xira, no dia 6 de agosto, um homem matou outro homem, com o qual tinha uma relação homossexual. O crime foi cometido à facada, na sequência de conflitos anteriores entre eles.

Abrantes, em 18 de agosto, uma professora matou o marido com martelo e faca de cozinha. Não havia antecedentes de violência no casal.

Long Branch (Estados Unidos da América), em 24 de agosto, um emigrante português açoriano tentou matar a ex-namorada, mas acabou por matar a tiro o homem que a acompanhava, num restaurante.

 

Quarteira, em 27 de agosto, uma mulher morreu num carro a arder. Com um historial de consumo de drogas, a jovem mulher (29 anos) foi vítima de um amante de 21 anos. Antes de morrer queimada, a mulher foi agredida e asfixiada.

Quiaios (Figueira da Foz), em 28 de agosto, um homem matou a mulher a tiro, com uma arma que lhe fora devolvida pelas autoridades após apreensão há dois anos. Na base do ataque estiveram as permanentes depressões e problemas psicológicos do agressor.

Leiria, em 31 de agosto, um homem matou a mulher a tiro e suicidou-se de seguida, no mesmo local. Terá sido um ato impulsivo, após discussão, quando metiam malas no carro, para irem de férias, à porta da garagem de casa.

Silves, no dia 1 de setembro, um caso de alcoolismo entre dois homens que mantinham uma relação de homossexualidade originou a morte de um às mãos do outro

Ponta Delgada (Açores), em 5 de setembro, um homem foi morto por outro, após discussão por motivos passionais. A relação amorosa homossexual entre ambos fracassara, com a vítima a tentar uma reaproximação de que o agressor não gostou.

Montijo, em 7 de setembro, uma mulher foi morta por filha e genro, à martelada. A filha pretendia entrar na posse de bens que receberia por herança. Na base da má relação entre todos, estavam questões de consumo de droga e a opção religiosa do genro.

Ribeira de Pena, em 8 de outubro, um homem matou a mãe por esta ter negado dar-lhe 20 euros para vinho. O agressor era alcoólico. O corpo da vítima foi encontrado em 23 de dezembro, por caçadores, submerso numa linha de água perto do rio Tâmega.

Coimbra, no dia 24 de outubro, um homem matou o irmão a tiro por causa de partilhas mal resolvidas. Os tiros surgiram depois de uma luta corpo-a-corpo entre ambos, quando trabalhavam num campo de milho.

Torres Vedras, em 8 de novembro, foi descoberta a autoria da morte de um homem, ocorrida no mês de fevereiro anterior.  Foi a esposa quem o matou, à facada, após uma discussão fútil entre ambos.

Fafe, a 5 de dezembro, uma jovem rapariga matou o namorado, esfaqueando-o. O conflito que levou à morte do rapaz nasceu de uma mensagem que este escreveu no Facebook, dirigindo parabéns a uma amiga.

Azambuja, no dia 9 de dezembro, um homem matou a esposa, na cozinha da moradia em que viviam com dois filhos menores, à facada, invocando que o fizera porque a mulher pretendia envenená-lo.

Aveiro, em 19 de dezembro, foi descoberta a autoria do assassinato de uma mulher de 94 anos, cometido em junho. Foi o filho da senhora idosa quem a matou, asfixiando-a. Como motivo, o homem referiu que, acamada, a mãe se tinha tornado “um fardo” na sua vida.

Santa Maria da Feira, em 24 de dezembro, um homem com grande instabilidade emocional disparou sobre a mulher. Em seguida, suicidou-se com a mesma arma. A mulher sobreviveu.

 

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