Em março de 2021, quando foi eleito reitor, apresentou a visão para a UTAD como “referência em sociedades do conhecimento, inclusiva e integradora, reconhecida pela qualidade de ensino, investigação e abertura ao mundo. Quatro anos depois, essa visão concretizou-se?
Aceitei um mandato de 4 anos como reitor da universidade e no meu espírito esteve sempre um mandato. Por isso, com a necessária antecedência, no final de janeiro de 2025, início de fevereiro, avisei a academia de que não era candidato ao segundo mandato.
As pessoas eram essenciais no meu programa. Não olhei apenas para os docentes e investigadores da UTAD. Os assistentes operacionais foram o primeiro grupo e tratado com todo o cuidado. Todos os assistentes operacionais que fizeram um esforço para concluir o ensino secundário e tinham tarefas ao nível de assistente técnico – eram muitos – fizeram essa mobilidade interna para a categoria dos assistentes técnicos, num processo coletivo. E essa foi uma das primeiras grandes mudanças da UTAD. Foi um movimento coletivo único, muito apreciado pela provedoria dos trabalhadores, não docentes e não investigadores. O mesmo aconteceu a todos os assistentes técnicos que tinham terminado cursos no ensino superior.
Também nos técnicos superiores foi feita uma reorganização, houve abertura de lugares para coordenadores de uma forma transparente. Por outro lado, a UTAD esteve anos sem abrir concursos de promoção interna para docentes e investigadores. Abrimos mais de 130 lugares para as categorias de professor associado e catedrático. Tínhamos rácios quase indignos de uma universidade e que punham em causa o nosso futuro. O meu compromisso foi ultrapassar o rácio de 40% de associados e catedráticos no mandato. Esse rácio foi ultrapassado.
Medicina foi uma ambição da UTAD desde os anos 90, sempre sem sucesso. O que mudou para tornar este projeto viável?
A aprovação foi uma aposta pessoal. Eu tinha saído há alguns dias, mas ainda tive o prazer e o privilégio de participar nessa ajuda, do mestrado integrado em medicina, numa parceria com a ULS Trás-os-Montes e Alto Douro, para fazermos formação médica a partir do ano letivo 26/27. Há um ano atrás, quando veio a segunda resposta negativa à proposta, eu sei bem o que é olhar para a solidão. Houve duas pessoas fantásticas ao meu lado, a professora Raquel Chaves e a professora Carla Amaral.
Uma pessoa decisiva em todo este processo foi o professor António Ferreira, antigo diretor do Hospital Universitário de São João, e que presidiou ao nosso Centro Académico Clínico. Após a segunda recusa o mais fácil era ter parado e desistido, mas tinha a consciência que faltava muito pouco. E por isso, no comunicado que fiz à academia, disse: “Estamos mais perto e vamos conseguir”. Sabia exatamente os passos a dar e o que era necessário para corrigir para que a probabilidade de sucesso fosse muito maior.
Nos anos 90 houve uma decisão política de abrir dois novos cursos de medicina, no Minho e na Beira Interior. E a UTAD também estaria interessada, mas para isso era preciso ter um dossier de candidatura.
A vontade do então ministro Manuel Heitor de que a UTAD pudesse avançar com uma proposta foi importante. E fomos bem-sucedidos a criar o Centro Académico Clínico em parceria com o hospital, com a Dra. Ana Rita Castanheira como presidente do conselho de administração. Mas para a preparação do dossier do mestrado integrado em medicina, eu parti de uma folha em branco.
Há pessoas que foram muito importantes, não é um trabalho que se faça sozinho. Foi importante a parceria com o hospital. Quer a Dra. Rita Castanheira, quer o Dr. Ivo Oliveira foram sempre pessoas cooperantes. Mesmo do lado clínico, o professor João Pinto de Sousa, o diretor da pediatria, Dr. Eurico Gaspar. E sentimos sempre apoio dos ACES (Agrupamentos de Centros de Saúde) também. Fui eu, a professora Carla, a professora Raquel Chaves, professor António Ferreira e um fantástico colaborador externo, o professor Robert Armstrong, foi o nosso consultor externo especializado, o mentor da proposta. Também é justo referir o apoio da professora Maria Amélia Ferreira e do professor Agostinho Marques do Hospital de São João. Foram pessoas que nos apoiaram muito, mas foi preciso trabalhar dia e noite para ter uma proposta credível.
A primeira proposta já era credível. A nossa convicção é que já tínhamos condições na primeira proposta para que ela avançasse. A comissão de avaliação externa não nos fez nenhum reparo, aliás, deu-nos uma grande esperança da aprovação da proposta, mas a resposta foi negativa. Nós recorremos e ela manteve-se negativa. Voltámos à carga, melhorámos ainda mais a segunda proposta. E uma vez mais, perante muitos elogios, na própria avaliação, mas ainda não havia condições para o curso. Confesso que o segundo insucesso foi duro e foi preciso um espírito forte e serenidade para voltarmos à carga e a terceira proposta foi bem-sucedida. Foi um trabalho que eu tive que liderar, de 0 a 100.
Os dois chumbos ao mestrado integrado em medicina causaram surpresa e indignação na região. Como é que geriu essa pressão?
O mandato de quatro anos é muito mais que uma candidatura ao mestrado integrado em medicina e teria sempre um saldo muito positivo. Não escondo que a aprovação do mestrado integrado em medicina acabou por compor, de forma definitiva, o cabaz do conjunto de iniciativas que foram bem-sucedidas.
Nestas coisas é preciso estar imune ao ruído externo. Um dossier de candidatura é sobretudo técnico e científico. Não adianta que as pessoas fiquem muito indignadas com os chumbos e depois eufóricas e com uma miríade de novas paternidades aquando da aprovação. Quem lidera um processo destes tem que ter alguns princípios básicos. Acreditar que a proposta que está a submeter é credível, depois, perante o insucesso, não insistir na mesma coisa sem mudar nada, perceber o que tem de corrigir e acreditar que um trabalho feito com seriedade de forma consistente e que vai respondendo às objeções que são colocadas, tem maior probabilidade de sucesso.
Deu muito trabalho. Foi um trabalho feito por uma equipa e foi um trabalho que seguiu sempre um caminho de tentar retirar da proposta, aquilo que eram as objeções que nos colocávamos. Podíamos discordar da decisão da agência de avaliação, mas tínhamos que perceber que era a eles que competia decidir e à comissão de avaliação externa internacional, e, portanto, tínhamos que eliminar todo e qualquer fator que servisse para a não aprovação e foi isso que foi feito. Sobretudo nesta terceira a proposta, diria que era impossível ela ser recusada à luz das garantias que nós dávamos.
Foram investidos 19 milhões de euros do PRR para criar 540 novas camas e duplicar a capacidade atual de 530 do alojamento estudantil. Porquê esta prioridade?
Não acredito no futuro da UTAD sem considerar um conceito de destino universitário. Do meu ponto de vista, a UTAD como universidade de Vila Real não tem nenhum futuro. Se a UTAD quiser ter 9.000 alunos em 2030, só cerca de 10% é que serão das atuais CIM do Douro, Terra de Trás-os-Montes e Alto Tâmega e Barroso.
A cidade tem que ser atrativa, amiga do ambiente estudantil, que acolhe bem os estudantes. A universidade tem que ter o melhor campus de Portugal, se possível, as melhores residências estudantis e um número muito significativo de oferta. Acho que depois destas cinco, é preciso fazer mais quatro ou cinco residências, até para equilibrar a oferta com o mercado privado. Vila Real à espera que os alunos procurem quarto não tem futuro. E, portanto, o município e os municípios envolventes e a universidade têm que trabalhar em conjunto para Vila Real ser um destino universitário atrativo. Caso contrário, o que é que pode levar um jovem com 18 anos, a viver no Porto e estudar para a UTAD? Com o devido respeito. Quando tem no Porto uma oferta generosa em muitas áreas. O que o pode levar é estar a uma hora de distância, um destino universitário único e que vai ser bom para o seu futuro.
Na sua mensagem de despedida, garantiu deixar a casa arrumada e as contas equilibradas. Quais foram as principais medidas que tomou para garantir esse equilíbrio?
Crescimento no número de estudantes. A UTAD cobra hoje maior valor em propinas do que cobrava antes do abaixamento determinado pelo primeiro governo do Dr. António Costa. Depois, diversificar fontes de financiamento. A UTAD passou a cobrar valores muito altos de projetos cofinanciados europeus e não só. Temos um orçamento que este ano 2025, não estou lá para ver as contas, mas deverá executar 80 milhões de euros, dos quais só 40 e poucos vem do orçamento de Estado.
As práticas de gestão permitiram grande economia. As fontes de receita aumentaram e houve disciplina orçamental e modéstia na gestão da reitoria. Entrei sem um carro de serviço, saí sem um carro de serviço. Andávamos nos miseráveis carros alugados de dois em dois meses.
Desde os últimos meses do seu mandato que há um impasse no conselho geral. Considera que esta situação compromete a governação da UTAD?
Avisei com muita antecedência que não era candidato e que me vinha embora. Não dramatizo, mas podia ter sido evitado. Os estatutos são o que são, foram herdados e a minha impressão é que foram corrigidos no sentido errado. Todas as outras instituições corrigiram no sentido de um número ímpar de eleitos e a UTAD corrigiu no sentido par.
A forma como foram eleitos os cooptados gerou dúvidas. Enquanto reitor nunca disse que era legal ou ilegal. Estas dúvidas foram confirmadas pela área jurídica da tutela. A Inspeção Geral disse para continuar a gerir e é curioso verificar que o grupo que entendia que em maio eu já me devia ter vindo embora, é o mesmo grupo que entendia que no final de setembro eu não podia sair. Eu completei quatro anos de reitor em maio, mas não fui eu que marquei as eleições para 20 de fevereiro de 2025. Quem marcou as eleições para 20 de fevereiro foi o Conselho Geral, porque eu tinha pedido que fosse logo na primeira semana de janeiro. Mas devido às épocas de exames, e não sei que mais, o Conselho Geral, por unanimidade, e o reitor não vota, propôs essa data. Se tudo tivesse corrido normalmente, não tivesse existido nenhum impasse na eleição dos cooptados, o conselho geral tivesse sido constituído na plenitude e tivesse decidido, naturalmente, avançar com o processo de eleição do reitor, não teríamos reitor antes do final do mês de julho ou início do mês de setembro. Houve uns senhores que criaram a ideia de que em maio eu tinha que sair porque tinha completado quatro anos. É o que há de mais falso em toda a história.
E qual é o legado que deixou?
Uma universidade muito preparada para enfrentar o futuro, se souber ser uma universidade aberta e exigente. Uma universidade muito mais preparada para enfrentar o futuro.[/block]






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