Segunda-feira, 4 de Julho de 2022

Ambiente pode estar em perigo

As prospecções que o consórcio luso-canadiano “Kernow Mining” está a fazer, nas Minas de Jales (Vila Pouca de Aguiar) e na zona do Limarinho (Boticas) estão a ser acompanhadas já com alguma preocupação, por investigadores e especialistas ambientais. A reactivação das explorações auríferas podem, no entender de especialistas ambientais, provocar graves prejuízos ambientais, nas linhas […]

As prospecções que o consórcio luso-canadiano “Kernow Mining” está a fazer, nas Minas de Jales (Vila Pouca de Aguiar) e na zona do Limarinho (Boticas) estão a ser acompanhadas já com alguma preocupação, por investigadores e especialistas ambientais.

A reactivação das explorações auríferas podem, no entender de especialistas ambientais, provocar graves prejuízos ambientais, nas linhas de água adjacentes.

A acidificação das águas, pelo emprego do mercúrio e do ácido sulfúrico, no processo de exploração, poderão “ser catastróficos”, a nível ambiental.

 

Rui Cortes:

Recursos hídricos

serão afectados

 

Um dos investigadores que manifesta reservas e preocupações, neste processo, é Rui Cortes, docente da UTAD ligado à área ambiental.

Em declarações ao Nosso Jornal, deixa explícita uma mensagem de apreensão, quanto ao retomar da actividade mineira, nas duas explorações.

“Ninguém está contra a eventual reactivação da extracção aurífera na região. Porém, há situações que não se podem ignorar, em favor do ambiente. Nestas matérias, mais vale prevenir do que remediar aquilo que, por vezes, nem remédio tem. Ainda perdura na nossa memória o que aconteceu com as minas de Jales, onde, no rio Tinhela e seus afluentes, foram verificadas taxas elevadas de acidificação (entre 3 e 4). As áreas onde estão inseridas são zonas que possuem os seus valores naturais e que nunca devem ser postos em causa, com este processo” – salientou.

Rui Cortes refere que “caso a actividade seja retomada, os recursos hídricos serão afectados. O emprego do mercúrio (de toxicidade elevada), para separar o ouro, bem como o ácido sulfúrico infiltram-se, facilmente, na água. Convém não esquecer que as explorações auríferas são das mais problemáticas, a nível ambiental. Nas minas de Jales, foi notada a presença de sulfuretos, nas suas enormes escombreiras (cinco milhões de toneladas) que estavam a pôr em perigo a saúde pública (doenças respiratórias) das populações das aldeias em redor e das linhas de água, afectadas pelo processo de lixiviação. Em dias de vento, era habitual “levantar-se”, das escombreiras, um pó branco (carregado de sulfureto) que o povo daquela região muito temia e ao qual chamava “o branquinho”.

 

“Estudos devem ser feitos com muito cuidado”

 

No entender deste investigador, os rios Terva e Tinhela, bem como os seus afluentes, podem ser afectados, directamente. Rui Cortes, perante os riscos em que incorrem estas explorações, aponta soluções para a minimização de impactos negativos ambientais.

“Creio que todos os estudos devem ser feitos com muito cuidado, sendo necessária, a exemplo de outras minas, a construção de grandes bacias de retenção, receptoras e zona de acumulação. Estas estruturas são necessárias, para evitar qualquer afectação dos recursos hídricos vizinhos”.

Segundo dados do Instituto Geológico Mineiro, Portugal possui cerca de oitenta sítios mineiros abandonados, à espera de serem reabilitados e recuperados, em termos ambientais. O reperfilamento das escombreiras, impermeabilização, reorientação da drenagem natural envolvente e implantação de sistema de drenagem superficial e subterrânea são cuidados a ter.

 

 

Fernando Campos:

“Existe desfasamento entre as instituições públicas”

 

Além das questões ambientais, o processo da eventual reactivação da exploração mineira, em Trás-os-Montes, fica já marcado por um caso que veio a lume, durante uma reunião do grupo que está a elaborar o Plano Director Municipal de Boticas. O IPPAR resolveu classificar as antigas minas romanas, em Limarinho (Mina do Poço das Freitas), enquanto o Governo aprovou, em Conselho de Ministros, uma concessão de exploração e pesquisa ao consórcio luso-canadiano. Contradições aparentes que irritaram o Presidente da Câmara Municipal, Fernando Campos.

“Isto só acontece em Portugal. Como é que o Conselho de Ministros toma tal decisão? Como é possível que o concessionário se prepare para começar a trabalhar ali, surgindo um organismo público (IPPAR) a dizer que não o pode fazer?”. O edil considera que “há um desfasamento total, entre instituições públicas”.

Este impasse inesperado põe em causa a criação do Parque Arqueológico de Boticas que iria abranger os complexos mineiros dos Batocas, Poço das Freitas e do Brejo. Neste projecto, estava incluído um centro de interpretação, percursos pedonais, plataformas de observação e a reabilitação de antigos povoados mineiros das épocas castreja e romana.

Boticas foi, em tempos, um dos mais importantes complexos mineiros do Norte de Portugal. Para contornar esta complicada situação, Fernando Campos avança com uma solução: “Cria- -se uma zona intocável e pondera-se a exploração, nas zonas envolventes ao espaço em questão!”

 

Governo deve tomar

uma decisão, em breve

 

Entretanto, o Governo deverá tomar uma decisão, sobre esta matéria, em breve. A empresa luso-canadiana acompanha a situação, com expectativa preocupante, admitindo contactos com o Governo e mostrando-se receptiva ao diálogo.

Em termos de quantidade potencial de ouro nas duas minas que estão a ser alvo de prospecções, os valores são diferentes. Enquanto nas Minas de Jales se estimam em mais de 10 toneladas de ouro, a mina de Limarinho, situada no sopé da serra do Leiranco, tem cerca de sete toneladas. Porém, as minas de Jales que “fecharam” em Outubro de 1992 foram as únicas, no país, onde a exploração aurífera teve rentabilidade. O seu filão tinha origem no norte da Península Ibérica, “nascendo” em zona montanhosa, perto de Oviedo, e “passando” por Lugo, Leon, Orense e Zamora.

 

José Manuel Cardoso

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