Terça-feira, 16 de Agosto de 2022

“As pessoas são o verdadeiro tesouro deste maravilhoso país”

Rui Vieira, um jovem advogado, natural de Alijó, conta a experiência de voluntariado que está a viver em São Tomé e Príncipe

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Rui Vieira é um jovem advogado de 26 anos, natural de Alijó, que decidiu fazer voluntariado em São Tomé e Príncipe, onde está desde 10 de setembro do ano passado. A adaptação foi muito fácil e não sentiu grandes dificuldades em superar alguns obstáculos. Sendo esta a sua primeira experiência de voluntariado fora de Portugal, Rui Vieira diz que está a ser “inesquecível e reconfortante”, num país com recursos quase inesgotáveis, desde o calor magnífico, que convida sempre a desfrutar das praias paradisíacas, à quantidade de alimentos que a terra e o mar proporcionam, à flora em estado selvagem, entre outros atrativos. Foi talvez isso que mais o surpreendeu, a perceção de que os recursos estão disponíveis, ao contrário do que poderia pensar, mas falta “alguma organização que os permita potenciar e maximizar”. No entanto, há outro lado, que mostra um país com uma dependência gigantesca de ajuda externa. “A quantidade de Organizações Não Governamentais (ONG) a trabalhar em São Tomé é enorme e, por vezes, custa um bocadinho perceber que as pessoas vivem à espera que sejam elas a resolver todos os problemas”.

Com mais três pessoas, Rui trabalha diretamente com as comunidades de Porto Alegre, Vila Malanza, Ponta Baleia e Ilhéu das Rolas, uma “realidade um pouco difusa”, em que as pessoas se debatem com problemas básicos, como a dificuldade no abastecimento de água e no fornecimento de energia, o isolamento geográfico ou a grande distância dos focos de decisão. Apesar de todos os problemas, estas comunidades têm um nível de organização razoável, uma vez que demonstram “uma grande vontade de resolução das situações complicadas que as afetam e têm abertura a novas ideias e novos projetos”. O jovem transmontano acredita que será possível que as comunidades consigam ultrapassar as dificuldades, embora tenha consciência que tudo isso levará tempo e muito trabalho.

O dia-a-dia no terreno

O dia-a-dia é tudo menos monótono, sendo que os únicos momentos que se repetem, todos os dias e sempre com grande alegria, são a oração individual, ao início do dia, e a oração comunitária, ao final do dia. Tudo o resto depende muito do projeto em que esteja a trabalhar.

Está a coordenar três projetos, no âmbito da “coesão social”, que passam pela dinamização do Grupo Comunitário (que reúne quinzenalmente representantes das comunidades e entidades do sul de São Tomé, formando um fórum de reflexão/ação acerca de variados assuntos que afetam as comunidades); faz acompanhamento da Associação de Moradores de Porto Alegre, tentando ajudar os seus membros a perceber as suas funções e competências; e está a implementar um Centro Cultural Comunitário, que vai permitir a estas comunidades ter um local para se reunir e promover atividades culturais e desportivas. Para além disso, é responsável pela realização da Celebração da Palavra dominical, já que o pároco apenas se pode deslocar a estas comunidades duas vezes por mês. “A experiência está a correr dentro das expectativas, embora com dificuldades e contratempos, que existem em qualquer parte do mundo. Mesmo assim, os projetos estão a cumprir os seus objetivos, mas este é um trabalho contínuo que está longe de estar terminado. Contudo, acredito que é possível vir a colher aqui muitos frutos”, refere o advogado com o entusiasmo próprio da sua juventude.

São Tomé e Príncipe é um país que tem muitas condições para crescer, além de ser um paraíso natural, com paisagens incríveis, mas o melhor mesmo são as pessoas, que Rui classifica como “um dos tesouros do país”. “As dificuldades estão cá, são visíveis, mas mais visíveis ainda são os sorrisos constantes, a boa disposição contagiante e a sua natural propensão para um estilo ‘leve-leve’, em que o stress não tem lugar mas em que, geralmente, as coisas aparecem feitas”.

A recetividade das pessoas foi algo que este jovem alijoense tem dificuldade em explicar. “De um momento para o outro, tão longe de tudo a que estava habituado, senti-me quase em casa, acolhido como se fosse um deles desde sempre, tão preocupados em saber se está tudo bem e se precisamos de alguma coisa, com a porta de sua casa sempre aberta para nos receber, para falar, para partilhar uma ou outra história ou, simplesmente, estar e desfrutar”.

 

As saudades…

 

São sete meses neste belo país, mas as saudades da família, namorada e amigos já começam a apertar, no entanto o Rui tenta não pensar nisso, até porque sente que todos eles o apoiam e querem que aproveite esta experiência ao máximo. “Aqui costumamos comentar que tudo isso é muito confuso. Por um lado sentimos vontade de que o tempo corra para podermos estar de novo com essas pessoas e nesses locais. Por outro, temos o desejo que não passe assim tão rápido e nos seja possível viver este tempo de graça da melhor maneira possível”.

Rui sente que tem sido útil e agradece a Deus esta oportunidade de contactar e partilhar com estas pessoas culturas, ideias e perspetivas, uma vez que tem sido gratificante perceber que está a “receber” mais do que a “dar”. “Quero agradecer esta oportunidade que me é dada, neste local, de poder ser efetivamente um missionário cristão, pelo testemunho que é pedido e que tento dar em cada coisa que faço, nunca podendo esquecer Aquele em nome do qual fui enviado, sendo esta uma experiência que ultrapassa as minhas expectativas”.

O jovem alijoense vai continuar disponível para ajudar, independentemente do local, que pode ser no nosso país ou noutro, na nossa localidade, na nossa rua ou até em nossa casa. O importante será estar em condições de responder aos vários desafios que poderão ser colocados e enfrentá-los com a mesma vontade de sempre. “O futuro, como costuma dizer-se, ‘a Deus pertence’. Não sei em que condições, como, onde ou quando, a verdade é que o meu desejo é fazer coincidir a minha vontade com a d'Ele e poder ser útil em qualquer circunstância em que tal me seja solicitado”.

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