O Entrudo Chocalheiro de Podence não é apenas um Carnaval, é uma manifestação de identidade com os seus Caretos que, desde 2019, ostentam o selo de Património Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Numa altura em que o território se prepara para a Feira da Caça e do Turismo, os Caretos surgem, também, como cartão de visita de uma região que tem na tradição e autenticidade os seus maiores tesouros.
RESILIÊNCIA
A história destes seres diabólicos e coloridos, cujos fatos de franjas de lã e máscaras de latão ou couro povoam o imaginário transmontano, é uma lição de resiliência. Nas décadas de 60 e 70, a tradição esteve no limiar da extinção. A guerra colonial e o fluxo migratório para a Europa e para o Brasil esvaziaram as aldeias de jovens, os principais protagonistas da festa. O próprio regime de então via com desconfiança estas manifestações pagãs e libertinas.
“Foi um processo de muita resiliência”, recorda o presidente da Associação de Caretos de Podence, António Carneiro. A viragem deu-se com o 25 de Abril e com o olhar cinematográfico de Noémia Delgado, que em 1976 captou a essência do Entrudo em filme, ajudando a travar o desaparecimento deste “tesouro” que hoje é um orgulho nacional.
MARCA
Hoje, os Caretos já não são vistos como figuras marginais, mas sim como embaixadores culturais. No último ano, a marca de Podence percorreu distâncias astronómicas: foram recebidos pelo Papa Francisco, representaram Portugal na Expo Osaka, no Japão, e marcaram presença em grandes certames turísticos no Brasil.
A força desta identidade reflete-se no mundo digital e na economia local. O site oficial da associação é consultado por todos os cantos do globo, desde os Estados Unidos à Suíça. Mais do que um grupo de animação, tornaram-se uma marca diferenciadora. No ano passado, segundo o responsável da associação, um estudo revelou que, durante o Entrudo Chocalheiro, o movimento nas máquinas multibanco de Macedo de Cavaleiros foi o segundo maior a nível nacional.
SELO DA UNESCO
Embora os Caretos não participem diretamente na Feira da Caça e Turismo como expositores, servem de convite para os milhares de visitantes que, semanas depois, lotam por completo o alojamento.
O selo da UNESCO é, por isso, uma responsabilidade. Num mundo que tenta comercializar a tradição, em Podence a regra é clara: manter a matriz cultural como ponto principal, garantindo que o Careto continue a ser, acima de tudo, um símbolo transmontano. “Tem que ser algo diferenciador”, diz António Carneiro, acrescentando que “o selo da UNESCO tem razão de ser e por isso temos de manter a matriz pela qual fomos reconhecidos”.




