Quarta-feira, 17 de Agosto de 2022

Casa do Douro divide deputados por Vila Real

Dando continuidade à edição anterior, publicamos esta semana a reportagem realizada na Assembleia da República com os deputados Agostinho Santa (PS) e Pedro Pimental (PSD) protagonistas da rubrica da VTM “Frente a Frente”. Com o objetivo de conhecer melhor o trabalho desenvolvido por pelos dois deputados, representantes do circulo de Vila Real, fomos à casa da democracia conhecer as suas rotinas e a opinião que ambos têm relativamente a alguns assuntos de interesse para o país e para a região.

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Agostinho Santa Partido Socialista

“Vamos fazer tudo para que a autoestrada transmontana não tenha portagens”

 

Natural de Vila Pouca de Aguiar, Agostinho Santa assumiu-se como socialista desde os tempos da sua juventude. Aos 58 anos é deputado em regime de exclusividade e tenta conciliar a vida política com a vida pessoal, ora estando em Lisboa ou fazendo breves visitas a Trás-os-Montes.

Representante do círculo eleitoral de Vila Real, o deputado transmontano deu os primeiros passos na política na cidade do Peso da Régua, sempre do lado socialista, apesar de nos tempos de “meninice” ter experimentado um flanco mais à esquerda, como membro da UDP (União Democrática Popular) “até ir para a tropa”.

Agostinho Santa classifica-se como “o independente mais socialista que há no PS” e relembra a longa ligação de mais de duas décadas ao seu partido, mantendo sempre uma relação com o poder local. Do seu extenso currículo consta o cargo de presidente da Assembleia Municipal do Peso da Régua durante dois mandatos, membro da Assembleia Intermunicipal da Comunidade Intermunicipal do Douro e inspetor-geral da Educação.

Licenciado em Direito, integra a Comissão de Educação, Ciência e Cultura e a Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação, e ainda o Grupo de Trabalho – Currículos dos Ensinos Básico e Secundário, talvez pelos 30 anos que esteve ligado ao mundo da Educação, onde desempenhou vários cargos de chefia. Agostinho Santa é também membro dos corpos sociais de diversas associações desportivas e culturais. Escrever é mais do que um passatempo e a alma de poeta levou-o a publicar várias obras.

Segundo o deputado socialista, o dia-a-dia pela Assembleia da República é muito atarefado, sendo a maior parte das vezes difícil “conciliar o inconciliável”, dado que cada um integra diferentes comissões. No mundo da política os horários não são fixos, mas a semana é quase sempre passada em Lisboa, salvo a segunda-feira que é dedicada exclusivamente ao “contacto com as pessoas da nossa região”. Ficam a sobrar os fins de semana, onde marca presença em diversas iniciativas. “O grande trabalho está na preparação dos dossiers, nos debates e em ouvir as pessoas. É fundamental este contacto porque permite que não haja um distanciamento dos problemas. Não é por acaso que existem círculos eleitorais e que nós somos eleitos por aquelas populações”, disse Agostinho Santa. Para além de ter sido eleito para representar o país, assume-se como deputado transmontano-duriense em que considera ser essencial “trazer na bagagem os problemas, as especificidades e capacidades da região no sentido de poder intervir e dar visibilidade ao território que me elegeu”.

No caso das portagens nas ex-SCUT, Agostinho Santa crê que se partiu de um pressuposto errado, uma vez que as SCUT foram criadas para que as regiões mais desfavorecidas se aproximarem dos níveis de desenvolvimento da média nacional, mas parece que se esqueceu do maior problema de Trás-os-Montes, que passa pelas ligações das sedes municipais à rede viária principal. “Nesta questão temos de continuar a bater-nos para que haja discriminação positiva e acessos rápidos e fáceis”.

Ainda assim, “o território transmontano necessita da solidariedade nacional e não o contrário”. Com a região a necessitar de ter condições de sobrevivência, “vamos tentar pelo menos minimizar o problema com uma revisão dos preços e fazer tudo para que a autoestrada transmontana não tenha portagens, como quer introduzir o atual governo”.

Já sobre a relação com os outros deputados, o socialista garante que o respeito e a cordialidade absoluta sobressaem diariamente. “Cada um tem o seu próprio ponto de vista, mas, no final dos debates, não há problema em me despedir com um abraço”. Quando se tocam em temáticas mais sensíveis, como a saúde, a educação ou a desertificação é normal um afastamento mas nunca o impedimento “de nos tratarmos bem”, pois no final, “são tudo boas pessoas que defendem o seu território”. Já dentro do partido, as posições são muito similares e há sempre um bom entendimento, devido ao facto de “não se meterem nas áreas uns dos outros”. No entanto, “nem tudo são rosas”. Apesar da regra do PS ser a liberdade de voto, “não quer dizer que os deputados concordem em absoluto com tudo o que votam”. Ainda assim, o socialista orgulha-se em dizer que nunca foi forçado a votar em algo que não entendesse que deveria escolher.

Considerando que atualmente há uma desconfiança maior em relação aos políticos, Agostinho Santa explicou que as pessoas estão mais despertas para a política do que há 30 anos, ou seja, “o problema está na menorização do nosso trabalho devido ao que se tem passado no país, daí haver uma maior apetência das pessoas em estarem mais atentas”. Com um contacto com a população cada vez mais mediático, é preciso ser coerente, pois na política tudo o que parece é. “Por mais qualificados e capacitados que sejamos, temos de ter cuidado com as práticas. Não se pode fazer um determinado discurso e agir de forma contrária”, reforçou.

Com a aproximação do término da legislatura, o Partido Socialista “quer muito ser poder”. Após quatro anos gravosos na vida económica, social e cultural, o PS quer apostar num programa claro em que os portugueses se revejam e percebam quais as diferenças entre os dois partidos de poder. “Se o nosso programa for aquilo que o povo português anseia, estou convicto que poderemos alcançar uma maioria, no entanto não será fácil”, referiu o deputado.

 

Casa do Douro

 

Quanto à tentativa de resolução da questão da Casa do Douro, a dúvida permanece no ar acompanhada do impasse que se tem verificado neste momento. Para Agostinho Santa, não é com um decreto-lei que a situação se vai resolver, sendo necessário, numa primeira fase, “separar as águas” e ouvir a opinião da região. A prioridade seria resolver o problema da avultada dívida e dos trabalhadores. “Poderia ter demorado um pouco mais, mas iriamos resolver a questão a sério. O Estado tinha poder de intervenção a esse nível e parece-me que há factos indiciários que nos levam a perceber que existe uma estratégia que não é a que melhor serve o Douro. Não nos tragam modelos importados e deixem a região resolver”, declarou o socialista.

 

Pedro PimenteL Partido Social Democrata

“Tenho a consciência tranquila, na certeza que fiz o que estava ao meu alcance na defesa do país e da região“

 

 Aos 44 anos, Pedro Pimentel dedica-se exclusivamente à vida de deputado passando a maior parte da semana em Lisboa. Apesar de regressar à casa transmontana quando a disponibilidade lhe permite, orgulha-se de estar sempre disponível para o seu concelho, distrito e região.

Militante do PSD desde tenra idade, 16 anos, a política sempre esteve presente na sua vida, também pelo facto do seu pai ter sido vereador na Câmara Municipal de Alijó, em regime de não permanência. Sempre de mãos dadas com o Partido Social Democrata, foi vice-presidente da Comissão Política Distrital de Vila Real, deputado na Assembleia Municipal de Alijó, Assembleia da Comunidade Intermunicipal do Douro, e agora desempenha os cargos de presidente da Comissão Política de Secção de Alijó, secretário do grupo parlamentar e secretário geral-adjunto do PSD.

Representante do círculo eleitoral de Vila Real, Pedro Pimentel integra as Comissões de Agricultura e Mar; Ambiente, Ordenamento de Território e Poder Local; e Defesa Nacional. A escolha, para integrar as comissões parlamentares, é feita no início da legislatura e permite um máximo de três comissões por deputado.

A viagem para Lisboa é feita, sobretudo, às segundas à noite ou terças de manhã, bem cedo, na companhia do seu colega de partido, Luís Ramos. A viagem é efetuada de automóvel ou comboio, mas quando a carreira aérea ainda estava em funcionamento, era a opção preferida “por ser mais rápida”, escolha essa que espera retomar logo que a carreira aérea regresse.

A semana na Assembleia da República tem planeamento definido. Terça durante o dia e à quarta de manhã são períodos reservados para as reuniões das Comissões Parlamentares. As tardes de quarta-feira, quinta e manhãs de sexta são dedicados às sessões plenárias. Contudo, apesar desta rotina, grande parte do trabalho do deputado é, também, efetuado no terreno, “normalmente o dia da semana escolhido para este contacto com o eleitorado, é a segunda-feira”. “O fim de semana é passado no distrito, não tanto quanto gostaria junto da família, pois esse tempo é aproveitado para um contacto intensivo com diversas entidades e associações onde somos, regularmente, solicitados”, explicou.

Com o atual Governo, Pedro Pimentel referiu que é a primeira vez “que não integro a oposição”, já a nível de trabalho “existem diferenças significativas”. O social-democrata acredita que exerce um papel de agente da região na Assembleia da República e junto do Governo, com o propósito de “desbloquear diversos assuntos, muitas vezes de cariz burocrático, e ajudar presidentes de câmara, associações, entidades regionais, trabalho esse que é mais difícil na oposição”, Uma vez que na bancada oposta ao governo grande parte do trabalho consiste na apresentação de requerimentos, propostas e dirigir questões aos elementos governativos.

No que respeita à resolução de problemas da região, o deputado do PSD destacou as ajudas que têm sido prestadas na área da Saúde. Nomeadamente o alargamento do período de horário do Centro de Saúde de Valpaços, a ausência de médicos em Boticas, que “sei que está para ser resolvido muito em breve”. Quanto à questão da Unidade Hospitalar de Chaves, Pedro Pimentel afirmou que “este carece de melhores condições e ser dotado de meios capazes para o seu funcionamento pleno, indo de encontro às necessidades dos utentes do Alto Tâmega, particularmente no reforço de algumas especialidades”, situação que já referenciou ao Governo e que continua na agenda do dia dos deputados do PSD. Considera que “a saúde é um fator vital para o distrito de Vila Real” e que, nesse aspeto, “está muito melhor, atualmente, do que durante a governação socialista, que encerrou inúmeros serviços de saúde”.

Embora já tenha discordado algumas vezes dos seus colegas de partido, a relação entre todos é saudável. “Discutimos todas as matérias de forma aberta e tentamos chegar a um consenso comum. Acrescentou que, apesar de já ter tido opiniões divergentes , “nunca sentiu vontade de bater com a porta”.

Segundo Pedro Pimentel, a atual legislatura irá ficar na história, e o tempo irá dar razão às decisões do atual primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho. Relembrou que quando este Governo chegou, o país encontrava-se “à beira do precipício e a menos de um mês de conseguir cumprir as suas obrigações, particularmente o pagamento de pensões e salários aos funcionários públicos”. Assim, atribuí todo o mérito, relativamente ao melhoramento do país nos últimos três anos, aos portugueses, “pelo enorme esforço que desempenharam em prol da nação”.

Por fim, o deputado sublinha que pretende terminar o mandato “com a consciência tranquila, na certeza de que fiz tudo o que estava ao meu alcance na defesa do país e da região de Trás-os-Montes e Alto Douro”.

 

Casa do Douro

No que respeita à Casa do Douro (CD), Pedro Pimentel aponta o problema da avultada dívida, de cerca de 160 milhões de euros. O facto é que o Governo apresentou “uma solução para um problema que se arrasta há imensos anos, e na realidade foi, até ao momento, a única solução viável apresentada, se considerarmos a complexidade que esta questão envolve”. Ressalva que “vários governos identificaram o problema, e outros tantos prometeram uma resolução, e o facto é que só o atual se empenhou na solução, com a apresentação desta proposta”.

Contudo, apesar dos viticultores se preocuparem com a solução do problema da CD, refere que “há muitos anos que não contam com a instituição para os defender”. Considera que “deviam unir-se em torno de uma associação forte, capaz de lutar e defender os seus interesses”.

O social-democrata acredita que a solução apresentada pode “elevar as capacidades da futura associação a vários níveis, como sejam, as ajudas comunitárias, o reforço no interprofissional, proporcionar produtos a custos reduzidos nos grémios pela via da criação de uma central de compras e tornar os laboratórios num espaço de referência da região”, assegurando que por esta via “pode ser um espaço agregador de todos os viticultores durienses”. Não menos importante “é que fiquem salvaguardados os interesses dos trabalhadores”.

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