O encontro surgiu num contexto de crescente preocupação da população local com episódios recorrentes de poluição. Entre os casos mais recentes está o ocorrido a 28 de abril, quando o rio Corgo apresentou uma coloração avermelhada ao longo de vários quilómetros, situação alegadamente associada à descarga de efluentes vínicos na rede de saneamento. Segundo os organizadores, as autoridades competentes, incluindo a GNR, deslocaram-se ao local para averiguar a ocorrência.
Durante a manhã, dezenas de participantes percorreram troços da Ribeira da Pena numa caminhada interpretativa orientada por especialistas da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). A atividade procurou promover uma maior ligação da comunidade aos ecossistemas ribeirinhos e sensibilizar para a importância da sua preservação.
Sara Barreiro, responsável pelo projeto CorGO, explicou que a iniciativa pretende contrariar o afastamento progressivo da população em relação aos rios da região.
“Há um sentimento de frustração porque os problemas persistem há muitos anos e as pessoas sentem que não sabem como agir. O objetivo deste projeto é voltar a aproximar a comunidade do rio, recuperar a ligação afetiva que existe com estes lugares e criar condições para uma participação mais informada”, afirmou.
Segundo a responsável, a caminhada permitiu recordar experiências e memórias associadas ao rio, mas também proporcionar contacto direto com conhecimento científico sobre a biodiversidade e os desafios ambientais que afetam os cursos de água.
“Temos registos de situações recorrentes em que o rio apresenta sinais evidentes de poluição. O episódio do rio vermelho foi apenas um exemplo. Existem ainda situações em que se observam descargas provenientes da ETAR e impactos visíveis no leito do rio”, referiu Sara Barreiro.
Além da questão da poluição, a caminhada trouxe também à discussão o abandono agrícola e a desertificação do interior. O professor António Crespi, da UTAD, alertou para a degradação crescente das veigas tradicionais da região. “O abandono destas áreas representa a perda de um património construído ao longo de séculos. O que observamos hoje é mais um sinal da desertificação do interior e da ausência de estratégias de desenvolvimento verdadeiramente sustentáveis”, afirmou.
Do lado da população, a preocupação com o estado do rio é geral. Fernando Rui, residente em Tourencinho, descreveu episódios frequentes de maus odores e degradação ambiental.
“Em certas alturas do ano o rio cheira muito mal. As pedras ficam cobertas de lodo e praticamente já não se vê peixe. Antigamente havia muito mais vida no rio”, relatou.
O morador referiu ainda a existência de descargas provenientes de áreas de exploração de pedreiras, que deixam a água com uma coloração esbranquiçada, situação que diz já ter observado diversas vezes.
A sessão contou com a presença de representantes da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), das Águas do Norte, da câmara municipal e de investigadores da UTAD, que procuraram esclarecer dúvidas da população e ouvir as preocupações da comunidade.
Presente na sessão, Ana Rita Dias, presidente da Câmara de Vila Pouca de Aguiar, mostrou-se “preocupada” com a situação e admitiu que, apesar de “sabermos a origem das descargas, ainda não foi possível comprovar”.





