Quarta-feira, 3 de Junho de 2026
InícioVila Pouca de AguiarComunidade exige respostas para a poluição do rio Corgo e da Ribeira da Pena

Comunidade exige respostas para a poluição do rio Corgo e da Ribeira da Pena

A qualidade da água do rio Corgo e da Ribeira da Pena esteve em debate, no sábado, durante o evento “Painel da Primavera – Rios em Diálogo”, em Tourencinho, promovido pelo projeto CorGO – Community River Action Lab. A iniciativa reuniu moradores, especialistas, representantes de entidades públicas e autarcas para discutir problemas ambientais que afetam os dois cursos de água e procurar soluções para a sua recuperação.

O encontro surgiu num contexto de crescente preocupação da população local com episódios recorrentes de poluição. Entre os casos mais recentes está o ocorrido a 28 de abril, quando o rio Corgo apresentou uma coloração avermelhada ao longo de vários quilómetros, situação alegadamente associada à descarga de efluentes vínicos na rede de saneamento. Segundo os organizadores, as autoridades competentes, incluindo a GNR, deslocaram-se ao local para averiguar a ocorrência.

Durante a manhã, dezenas de participantes percorreram troços da Ribeira da Pena numa caminhada interpretativa orientada por especialistas da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). A atividade procurou promover uma maior ligação da comunidade aos ecossistemas ribeirinhos e sensibilizar para a importância da sua preservação.

Sara Barreiro, responsável pelo projeto CorGO, explicou que a iniciativa pretende contrariar o afastamento progressivo da população em relação aos rios da região.

“Há um sentimento de frustração porque os problemas persistem há muitos anos e as pessoas sentem que não sabem como agir. O objetivo deste projeto é voltar a aproximar a comunidade do rio, recuperar a ligação afetiva que existe com estes lugares e criar condições para uma participação mais informada”, afirmou.

Segundo a responsável, a caminhada permitiu recordar experiências e memórias associadas ao rio, mas também proporcionar contacto direto com conhecimento científico sobre a biodiversidade e os desafios ambientais que afetam os cursos de água.

“Temos registos de situações recorrentes em que o rio apresenta sinais evidentes de poluição. O episódio do rio vermelho foi apenas um exemplo. Existem ainda situações em que se observam descargas provenientes da ETAR e impactos visíveis no leito do rio”, referiu Sara Barreiro.

Além da questão da poluição, a caminhada trouxe também à discussão o abandono agrícola e a desertificação do interior. O professor António Crespi, da UTAD, alertou para a degradação crescente das veigas tradicionais da região. “O abandono destas áreas representa a perda de um património construído ao longo de séculos. O que observamos hoje é mais um sinal da desertificação do interior e da ausência de estratégias de desenvolvimento verdadeiramente sustentáveis”, afirmou.

Do lado da população, a preocupação com o estado do rio é geral. Fernando Rui, residente em Tourencinho, descreveu episódios frequentes de maus odores e degradação ambiental.

“Em certas alturas do ano o rio cheira muito mal. As pedras ficam cobertas de lodo e praticamente já não se vê peixe. Antigamente havia muito mais vida no rio”, relatou.

O morador referiu ainda a existência de descargas provenientes de áreas de exploração de pedreiras, que deixam a água com uma coloração esbranquiçada, situação que diz já ter observado diversas vezes.

A sessão contou com a presença de representantes da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), das Águas do Norte, da câmara municipal e de investigadores da UTAD, que procuraram esclarecer dúvidas da população e ouvir as preocupações da comunidade.

Presente na sessão, Ana Rita Dias, presidente da Câmara de Vila Pouca de Aguiar, mostrou-se “preocupada” com a situação e admitiu que, apesar de “sabermos a origem das descargas, ainda não foi possível comprovar”.


APOIE O NOSSO TRABALHO.
APOIE O JORNALISMO DE PROXIMIDADE.

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo regional e de proximidade. O acesso à maioria das notícias da VTM (ainda) é livre, mas não é gratuito, o jornalismo custa dinheiro e exige investimento. Esta contribuição é uma forma de apoiar de forma direta A Voz de Trás-os-Montes e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente e de proximidade, mas não só. É continuar a informar apesar de todas as contingências, nunca paramos um único dia.

Contribua com um donativo!

VÍDEO

Mais lidas

PRÉMIO

ÚLTIMAS NOTÍCIAS