Quarta-feira, 6 de Julho de 2022

Contrastes do tempo

Lembro-me perfeitamente desse ambiente. Na tarde de Quinta-feira Santa os homens do campo só faziam o trabalho que pudessem realizar sozinhos, como podar as últimas videiras das vinhas ou conduzir a água pelos campos de erva, sem recurso ao trabalho de máquinas que, nesse tempo, eram os carros de bois e os arados de lavrar. […]

Lembro-me perfeitamente desse ambiente.

Na tarde de Quinta-feira Santa os homens do campo só faziam o trabalho que pudessem realizar sozinhos, como podar as últimas videiras das vinhas ou conduzir a água pelos campos de erva, sem recurso ao trabalho de máquinas que, nesse tempo, eram os carros de bois e os arados de lavrar. Desse modo, sem o barulho ou até a algazarra que o trabalho em conjunto acaba por fazer, as pessoas podiam manter o espírito recolhido. Quem tinha rádio não o abria. Mesmo nós, os filhos mais novos e as crianças, envoltos naquele ambiente de recolhimento e contenção dos adultos, evitávamos as canções mais mexidas e alegretes e sentíamos que a Semana Santa era para todos. À nossa imaginação parecia que até a terra fazia Semana Santa porque os lírios campestres ou dos jardins eram maioritariamente roxos. As aves faziam os ninhos em silêncio e, se aparecia um cuco a cantar nalgum ramo mais precoce, era corrido à pedrada por causa do seu atrevimento. A Missa da tarde, a que chamávamos da Ceia, tinha um clima de mistério e grande concentração, em latim, com uma grande tolha e muitas flores no altar. Tudo ali cheirava a lavado e era desejada por toda agente. Os adultos iam em grande número, sendo essa tarde considerada «meio-dia santo» que se prolongava na manhã da Sexta-feira seguinte, ainda com mais recolhimento.

Nessa manhã os homens fumadores deixavam o tabaco, e a tonalidade de recolhimento sentia-se na refeição donde era afastado tudo o que fosse carne ou derivados dela. Aos mais idosos dizia- -se que já não eram obrigados à penitência, mas eles é que não queriam saber dessas condescendências e, pelo contrário, primavam em sujeitar-se ao rigor penitencial. Às três da tarde desse dia de Sexta-feira Santa, o sino da torre da igreja batia solene as três badaladas e era certo e sabido que, onde quer que estivesse um adulto, parava durante uns momentos, tomava uma posição respeitosa, e, se fosse homem, descobria totalmente a cabeça, lembrando «a morte do Senhor». Os homens que usavam gravata punham a gravata negra do luto. Nessa tarde não havia actos especiais na igreja, estava tudo parado pela morte do Senhor, até as imagens dos santos eram cobertas com um pano roxo. O pároco fazia uma via-sacra recolhida com algumas pessoas piedosas, mas à noite, em família, toda agente rezava à Paixão do Senhor.

No Sábado Santo o ambiente começava a aligeirar-se. Viam-se por todo o lado homens e mulheres atarefados, eles a abater, meio às escondidas, algum animal para o almoço do Domingo, para depois irem buscar os foguetes para o compasso, e elas a limpar e lavar a casa de fio a pavio: mexiam os móveis das salas e dos quartos, lavavam, tiravam teias de aranha, punham roupa nova. Era a maior lavagem do ano, uma espécie de extensão ao espaço familiar da confissão de desobriga que toda a gente havia feito na Quaresma. Enquanto isso, as vendedeiras de pão traziam as roscas de pão especial que lhes fora encomendado para os padrinhos darem aos afilhados e para encher a mesa nos encontros familiares. Pouco a pouco começaram a chamar a esse sábado «sábado de aleluia» porque o Papa havia concedido a antecipação do anúncio da Ressurreição para o sábado por causa dos missionários que tinham grandes extensões para visitar e que alguns párocos estenderam às suas paróquias, dizendo que o povo já tinha saudades da Missa e da Comunhão. Numa ou noutra paróquia às oito da manhã estralejavam foguetes e ouviam-se toques festivos dos sinos. Na tarde desse dia, os párocos, apetrechados dos novos óleos que trouxeram do Bispado, benziam em acto isolado ou ajudados por algum seminarista a água da pia baptismal num ritual muito longo, enchiam as outras pias devocionais colocadas ás entradas das igrejas; as zeladoras dos altares colocavam toalhas lavadas e engomadas nos altares dos santos, e o sacristão preparava as cruzes pascais que deviam ser levadas no compasso do Domingo e visita às famílias.

Volvidos mais de cinquenta anos, o mundo encheu-se de ruído. Os jornais e as televisões e as rádios locais, para animar a economia das populações, falam de feiras de fumeiro e do folar em plena Quaresma e, nos programas respectivos, vem indicado como ponto alto das mesmas a prova (eles dizem «degustação») dos petiscos oferecidos pelos organizadores às autoridades e convidados; à distância ouve-se o ruído dos ralis de automóveis e da animação das multidões que assistem em massa em lugares estratégicos de passagem; organizam-se oficialmente os passeios escolares das férias da Páscoa para os jovens estudantes e mesmo para crianças das escolas; as televisões programam concursos famosos de dança de adultos mais ou menos sensuais em recintos elegantes onde se vêem também crianças de olhos muito arregalados a olhar espantadas aquelas mulheres meio despidas nos braços dos homens; à noite lá aparecem na televisão um filme que fala dos romanos e dos judeus que perseguem Jesus e algumas imagens das procissões da Semana Santa; nos centros da vila e da cidade, na noite de Quinta-feira ou da Sexta ou do Sábado Santo ou nas três, chega até à rua o ruído de danças em ritmo frenético soprado pelos clubes nocturnos. Muitos jovens, estudantes, operários e desempregados, volteiam por ali à espera da entrada. Entretanto, nas igrejas ao lado decorrem algumas celebrações da Semana Santa, as maiores celebrações do ano, agora em vernáculo, com mais solenidade e clareza que há cinquenta anos.

No meio do mundo de sempre, continua a viver-se o mistério da Páscoa de Cristo em favor dos homens, mas o ambiente de cristandade acabou: a mesma natureza florida e bela agora fala mais de turismo que da paixão de Jesus, as noites da lua cheia da Páscoa são teatro de distracção e negócio e não falam do Horto das oliveiras; as famílias procuram longos passeios e não olham o Crucifixo que colocaram no peito dos filhos quando os baptizaram nem a vela branca da Comunhão. Entretanto, as consciências desejam a Páscoa, a sociedade precisa da Páscoa. Simplesmente, agora é preciso procurá-la mais intensamente, voluntariamente, sacrificadamente.

 

*Bispo de Vila Real

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