Quarta-feira, 17 de Agosto de 2022

Douro “está na moda” mas corre o risco de se tornar num destino “déjà-vu”

O rio que corre selvagem, ladeado pelos socalcos de vinhas trabalhadas durante séculos por homens e mulheres de fibra. O Douro é uma paisagem sem igual, um verdadeiro “excesso da natureza” que ainda é abrilhantado pela gastronomia, cultura e património. A riqueza de uma região que durante muitos anos esteve guardada entre as suas fronteiras e que agora quer, cada vez mais, abraçar o mundo…

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“Nos últimos anos foram registados mais turistas e mais dormidas, havendo naturalmente muitas e boas razões que têm contribuído para o crescente prestígio do Douro”, explicou Melchior Moreira, presidente da Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPN) sobre o balanço “muito positivo” do destino turístico no ano passado.

Apesar de garantir que ainda não são conhecidos os dados específicos relativamente ao turismo na região, o mesmo responsável confirmou em entrevista exclusiva à VTM, que no destino turístico duriense “a tendência é semelhante” à registada no Norte, ou seja, “de crescimento e com um futuro igualmente promissor”.

“Concordo que o ano de 2014 foi um dos melhores anos de sempre para a indústria turística”, sublinhou Melchior Moreira revelando que “a avaliar pelos resultados globais” a TPN não poderia estar mais satisfeita.

Segundo dados do INE (Instituto Nacional de Estatística), a região do Porto e Norte foi mesmo a que mais cresceu em 2014, com 4,7 milhões de dormidas (nacionais e estrangeiros), o que “confirma o sucesso do destino turístico, que tem vindo a crescer acima da média nacional, com mais turistas, mais dormidas e mais proveitos totais”.

No caso do Douro, para o sucesso contribui “o extraordinário trabalho que na área do empreendedorismo tem vindo a ser realizado, com especial ênfase na melhoria da qualidade da oferta do enoturismo, nomeadamente através de jovens empresários que tem sabido apostar na inovação”. “Porém”, considera o presidente da TPN, “a procura dá-se por um diversificado leque de outros motivos, de entre os quais não podemos esquecer a importância de uma hotelaria de grande qualidade, a riqueza paisagística, um valioso património cultural, a aposta em eventos enogastronómicos com os quais temos estado diretamente envolvidos e a diversidade de programas do turismo de cruzeiros que ao longo da Via Navegável do Douro tem ajudado a dinamizar a região, contribuindo significativamente para a sua notoriedade em termos nacionais e internacionais”.

Melchior Moreira destaca exatamente a vertente do aproveitamento do próprio rio, referindo que o número de passageiros que procuram os 36 operadores marítimo-turísticos atualmente existentes e que oferecem programas “em barcos hotel, barcos de recreio, realizando cruzeiros de um dia, ou simplesmente na mesma albufeira, tem tido “um crescimento exponencial”. Isso mostra “um crescente dinamismo de uma atividade que tem na sua base a beleza de uma inigualável paisagem ao longo das margens do Douro”, sublinhou.

Relativamente a outras ofertas ao nível da animação turística, Melchior Moreira defende que o Douro “necessita de apostar mais na diversidade de uma oferta que seja efetivamente atrativa e capaz de diminuir ao máximo os efeitos da sazonalidade que prejudica tudo e todos”. “Para isso, é preciso saber aproveitar convenientemente o potencial de uma região que peca muitas vezes por não implementar ações que em simultâneo valorizem, por exemplo, o património material e imaterial existente, a par das quais o tecido empresarial pode e deve apostar na inovação, tendo como objetivo final a oferta de serviços apelativos e diferenciadores, ao longo de todo o ano”.

O rosto do turismo na região frisou ainda que é “desejável que haja uma plataforma de diálogo para a coordenação de esforços de todos os agentes da cadeia de valor, beneficiando não só quem nos visita, como todos aqueles que aqui vivem”, congratulando-se desde logo com facto da TPN ser “um importante elo de ligação entre os agentes públicos e privados, na tentativa de ter um setor cada vez mais pautado pela coesão”.

Com os dados de 2014 ainda por fechar, em relação a infraestruturas direcionadas para o turismo, a TPN apresenta os números de 2013 e considera que no ano passado “não deverá ter havido grandes oscilações”. “O Douro tinha disponíveis 2.266 camas, distribuídas por cerca de 34 estabelecimentos hoteleiros de diversa categoria. No entanto, não podemos esquecer que a região oferece ainda alojamento em Turismo no Espaço Rural, cuja qualidade deverá aqui ser também realçada e que é uma alternativa para quem gosta de ambientes diferentes, independentemente de serem mais ou menos sofisticados”, contabilizou Melchior Moreira.

Relativamente a novas infraestruturas, a TPN confirma que existem “alguns projetos de diferentes categorias, uns em fase de acabamento, outros em fase ainda de apreciação”, no entanto, escusa-se de os identificar individualmente alegando que está a “aguardar pelo resultado final da auscultação realizada recentemente aos Municípios do Douro”.

“Aquilo que posso adiantar é que alguns desses projetos contribuirão não só para a procura e dinamização do território duriense como, estou certo, ajudarão à melhoria do desenvolvimento da economia local/regional, nomeadamente, através da oferta de emprego e de formação na área da hotelaria e da restauração”, sublinhou.

“O Douro ainda não é um destino turístico”

Para o presidente da TPN, defender que o Douro “está na moda” deve ser entendido como “um incentivo para se trabalhar ainda mais afincadamente”. “Caso contrário, o Douro, como qualquer outro destino, corre sérios riscos de rapidamente se tornar num destino ‘déjà-vu’, quando o objetivo deverá ser que o turista regresse e repita a sua ‘experiência’”.

“Aliás, não podemos aqui esquecer que o Douro, embora sendo uma “Marca” forte e de prestígio, tanto para toda a Região Norte, como para o próprio País, ainda não é um destino turístico”, defendeu Melchior Moreira.

Relativamente às expectativas para 2015 “são as melhores naturalmente”.

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