Estamos à porta de mais uma Feira da Caça e Turismo em Macedo de Cavaleiros. Este ano tem um peso diferente, assinalam-se os 30 anos da Festa dos Caçadores do Norte. Como é que vê esta marca histórica?
É um motivo de orgulho enorme, porque é um dos maiores eventos cinegéticos do país. Eu, que acompanho isto desde o início, ainda mais orgulho tenho.
O programa deste ano mantém a aposta em provas muito específicas. O que é que se pode esperar em termos de competições e atividades de campo?
Vamos ter as Provas de Santo Humberto, largadas de perdizes e faisões, além de tiro (no Campo de Tiro de Nogueirinha). Teremos também um raid todo-o-terreno e o passeio de clássicos. Mas o ponto alto são, sem dúvida, as três montarias, na quinta, sexta e sábado. São elas que trazem mais gente, cerca de 800 caçadores de todo o país.
Para quem não conhece, como é que se avaliam os participantes na Prova de Santo Humberto?
Há juízes que estão credenciados a nível nacional. O segredo do Santo Humberto é a simbiose entre o caçador e o cão. O trabalho do cão é o que dá mais pontuação. Se o animal obedece, se fica estático quando deteta o odor da perdiz até ao caçador lá chegar e se faz a entrega da peça na mão do dono com delicadeza. É quase um trabalho de treinador. Se o cão arranca antes da ordem ou coloca a peça no chão, perde pontos.
“Este vício está na nossa génese, passa de pais para filhos”
Macedo de Cavaleiros é considerada a “Capital da Caça Maior”. Contudo, a caça menor parece atravessar um período difícil na região, é verdade?
A caça está a passar por um mau período já há uns anos, devido a vários fatores, como o uso de pesticidas e herbicidas nos solos, às mudanças climáticas, a temperatura tem aumentado e tem impacto na criação e desenvolvimento das espécies. Também há algumas doenças que surgiram, nomeadamente no coelho, que era a base da caça menor, e praticamente ficou dizimado. É uma situação que se nota a nível nacional e, até, internacional. Vão resistindo poucos exemplares, algumas zonas estão a recuperar, mas tem sido uma situação muito difícil.
E a nível da perdiz?
A nível da perdiz e da lebre o maior problema que temos são os pesticidas e os herbicidas. A perdiz gosta muito de comer o bicho da batata. Antigamente não havia pesticidas e havia menos doença nas batatas, porque as perdizes comiam o bicho. Agora, não há agricultor nenhum que não ponha remédio e a perdiz come e morre. Nos cereais a mesma coisa. O coelho, a lebre, os pássaros comem. Passado uns tempos encontra-se mortos. Se as pessoas vão para o terreno e não encontram caça, desanimam e acabam por desistir.
Apesar disso, o “bicho da caça” passa de geração em geração. Ainda há jovens a quererem tirar a carta de caçador?
Sim, as turmas para exames de carta de caçador, quase todos os anos, ficam esgotadas, ou seja, ainda há gente a querer tirar a carta de caçador. O problema é que, passado algum tempo, uns continuam, outros não. Mas este vício está na nossa génese, passa de pais para filhos. Eu próprio não tinha caçadores na família e tornei-me num. Além disso, temos visto um aumento muito significativo de mulheres, especialmente na caça maior, onde o esforço físico é menor, mas a adrenalina é igual. Muitas já participam nas montarias.
Por vezes existe uma imagem negativa do caçador. Como é que o setor lida com esta pressão da opinião pública?
Hoje as redes sociais influenciam determinadas opiniões e as pessoas que são mais influenciáveis são as que mais desconhecem. Porque quem sabe o que é um caçador não tem esta ideia. Em todas as classes existem membros bons e maus. Acontece o mesmo com os caçadores. Mas 90%, ou 95%, são pessoas que respeitam muito mais o ambiente do que essas pessoas que nos criticam. Ajudamos a equilibrar o ecossistema e se não fossemos nós não existia nem metade da caça. Criamos as condições para que o coelho e a perdiz sobrevivam e fazemos reintroduções. Eu não vejo ninguém dos que criticam a fazer nada por esta causa.
E também são muitas as regras a cumprir, certo?
Existem planos de caça que são aprovados pelo ICNF, mas nós próprios queremos isso. A lei geral, por exemplo, diz-nos que podemos matar três coelhos ou três perdizes por ano. Nas próprias zonas de caça, por vezes impomos que, como há poucos, vamos matar só dois, ou vamos matar só um. Há uma consciencialização do setor no sentido da proteção.
Só por mero desconhecimento é que se pode ser crítico.
O convívio é hoje o grande motor das montarias?
O essencial da caça, hoje em dia, é o convívio. Aliás, já dizemos uns aos outros que vamos à caça para comer a merenda. Porque já sabemos que não vamos matar nada. Vamos conviver e para ver os cães a trabalhar, que é aquilo que nos dá alegria.
Para terminar, qual o impacto económico real desta feira e do setor para Macedo de Cavaleiros?
Entre a Feira da Caça e o Carnaval de Podence, movimentam-se milhões de euros na região. A restauração, o alojamento e os produtos endógenos dependem destes eventos. Ao nível da feira da caça, e isto é transmitido pelos presidentes das outras federações do país, quando temos reuniões, a nossa é a melhor do país, no que toca à caça maior. Isso também é dignificante, tanto como caçador, como organizador. É para isso que trabalhamos.







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