Terça-feira, 11 de Maio de 2021

“Gostava muito de poder terminar o curso este ano”

A 2 de março, Portugal confirmava os dois primeiros casos de infeção pelo novo coronavírus. Uma semana depois, o número subiu para 39 e a preocupação com o contágio e propagação do vírus instalou-se. As universidades foram as primeiras a encerrar, deixando milhares de estudantes sem aulas… presenciais.

Sara Queirós, estudante de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, estava na última semana de estágio em Psiquiatria, no Hospital Júlio de Matos, quando a Comissão de Curso informa os estudantes que “todos os estágios e aulas presenciais tinham sido suspensos, sem data prevista de recomeço”. 

A notícia caiu que nem uma bomba, uma vez que a estudante está no último ano do curso, o 6º, em que, em novembro, realiza a Prova Nacional de Acesso à Formação Especializada (PNA), o antigo Harrison. “Por sermos do último ano de medicina e este ser um ano profissionalizante, ou seja, maioritariamente constituído por estágios hospitalares, ficamos preocupados. Inicialmente, tive pensamentos egoístas por vários motivos: por existir um exame em novembro, a Prova Nacional de Acesso, que todos os alunos do 6º ano têm de realizar para terem acesso a uma especialidade; pela diminuição de tempo de estudo para a PNA, se tivéssemos de repor os estágios durante o verão; por nada substituir o contacto com doentes; e claro, por este ser o último ano do curso, com as festas da faculdade, queima das fitas, baile de finalistas, tudo adiado ou até mesmo cancelado”. 

Na sua cabeça, Sara já tinha tudo planeado até ao derradeiro exame em novembro, e o encerramento da universidade e a suspensão dos estágios e das aulas presenciais vieram trocar-lhe as voltas mas, apesar da preocupação com o que poderá acontecer-lhe no seu último ano de curso, a estudante considera que a decisão foi a mais sensata. “Fui-me apercebendo da dimensão do problema e do quão importante foi esta medida de contenção e atualmente o que me preocupa é o número de pessoas com COVID-19, o desgaste dos profissionais de saúde e a capacidade do SNS para receber estes doentes.

Sara está em Chaves, de onde é natural, de quarentena, há mais de três semanas. Para não prejudicar os alunos, principalmente os que se encontram a terminar o último ano, a faculdade encontrou algumas soluções. Neste momento, Sara e os colegas iniciaram, à distância, o estágio na especialidade de Medicina Geral e Familiar com a resolução de casos clínicos e a visualização de consultas online sendo que, no final, tal como em todos os estágios, farão um relatório e um portfólio. “A maior parte dos nossos professores e orientadores são médicos que se encontram neste momento a trabalhar na “linha da frente” no combate à COVID-19. A faculdade está a tentar arranjar uma solução viável que não prejudique os alunos (principalmente os do 6º ano). Estas medidas não substituem os estágios práticos, mas podem garantir que a nossa formação se mantenha. Gostava muito de poder terminar o curso este ano e ser médica, mas sei que neste momento existem outras prioridades para os nossos docentes”.

Assim que a Organização Mundial de Saúde declarou, a 11 de março, a pandemia de coronavírus Covid-19, a Associação Nacional de Estudantes de Medicina comunicou que estaria disponível para auxiliar no combate ao mesmo e no Algarve, os alunos finalistas do curso de medicina reforçaram a linha SNS 24, para dar uma melhor resposta ao surto. Na internet foi ainda criada uma plataforma dirigida aos profissionais de saúde e a estudantes de medicina e enfermagem, com o objetivo de reforçar a resposta em telesaúde à pandemia resultante da COVID-19. “Eu preenchi o formulário, mas ainda não obtive resposta. Neste momento, como futura médica, a ajuda que posso dar aos profissionais de saúde e restantes trabalhadores no ativo, é transmitir informação adequada e fidedigna à população. Escolhi medicina para poder ajudar os outros, para trabalhar em prol da comunidade em qualquer situação e hoje mais do que nunca sei que fiz a escolha certa”. 

A adaptar-se a este novo método de “cursar” Medicina e entre os estágios online, a futura médica vai estudando para o PNA, até porque “matéria de estudo não falta” e para manter a sanidade mental faz exercício físico, põe a leitura em dia, vê concertos e peças de teatro online e visita, virtualmente, museus que ainda não conhecia. “Não é assim tão difícil permanecer em casa, basta ter criatividade e pensar que estamos a contribuir para um bem maior”. 

Mãe e irmão no combate à Covid-19

Enquanto Sara tenta terminar o curso de medicina, a mãe, médica de Medicina Geral Familiar, num dos Centro de Saúde de Chaves, e o irmão, interno da especialidade de Cardiologia no Hospital de Vila Nova de Gaia, estão na luta contra este inimigo invisível que colocou o país em estado de emergência. 

Sara esclarece que ambos são conhecedores da realidade do Serviço Nacional de Saúde e que, em conversas diárias, mostram-se “preocupados com a capacidade de resposta do SNS, o número de camas (enfermaria e cuidados intensivos) e ventiladores que podem não ser suficientes, a carência de equipamentos de proteção e o desgaste dos profissionais de saúde” e ainda com as pessoas que ainda não perceberam a mensagem “Fique em casa!” e continuam a fazer as suas vidas normalmente. 

Embora já mostrem algum cansaço, “ainda não chegaram ao nível em que se encontram os profissionais de saúde de Itália e Espanha, nem querem pensar nisso! Continuam a cumprir o seu trabalho, respeitando as medidas de prevenção e controlo de infeção decretadas pela DGS e OMS”.

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