Maria de Lourdes Cardoso, de 63 anos, morreu a 14 de agosto no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD), em Vila Real, depois de ter sido submetida a três operações ao estômago.
O marido, António Augusto Ribeiro, de 60 anos, residente em Paradela do Monte, freguesia de Louredo, concelho de Santa Marta de Penaguião, acusa o Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro de negligência médica, por dar “pouca atenção” ao caso da sua esposa uma vez que anulou uma cirurgia que estava marcada para 20 de maio por se tratar de um caso de “fácil resolução”, “não sendo necessário recorrer à cirurgia”.
Tudo começou a 19 de março quando Maria de Lourdes Cardoso começou a ter dores de estômago e a vomitar constantemente aquilo que comia. Este foi o primeiro sinal. Preocupado, o marido levou-a ao médico de família no Centro de Saúde de Santa Marta de Penaguião, que lhe prescreveu um exame ao estômago. Mais tarde, o médico de família, como a paciente não mostrava sinais de melhorias, encaminhou o caso para o CHTMAD, em Vila Real. Começou a ser seguida por uma médica da unidade hospitalar vila-realense, que lhe disse que tinha um pequeno tumor no estômago e marcou uma operação para o dia 20 de maio, altura em que o iriam retirar. No entanto, cerca de 5 dias antes da operação, ligaram para casa da paciente para anular a cirurgia. “Disseram-me ao telefone que tinham boas notícias e que não seria necessário recorrer à operação para tratar do caso da minha mulher”, refere António Ribeiro, adiantando que se tratava apenas de uma infeção que poderia ser solucionada com medicação adequada. Os dias passavam e Maria de Lourdes não mostrava sinais de recuperação. Desesperado ao ver a mulher em constante sofrimento, António foi falar com os médicos ao hospital e pediu-lhes para internar a sua esposa, que “estava a morrer aos poucos no sofá de casa”. Foi às urgências várias vezes, mas acabava por trazer novamente a esposa para casa, que tentava comer, mas pouco depois voltava a vomitar. “Nestes meses posso afirmar que fui mais de 15 vezes às urgências, onde estive durante horas infindáveis. Aliás, o que se passa lá é uma miséria”, refere António Ribeiro indignado.
No final de julho, já “muito fraca” Maria de Lourdes teve de receber uma transfusão de sangue e de ferro, foi nessa altura “que uma outra médica verificou a situação e ligou para a colega que a seguia nas consultas externas e decidiram internar” Maria de Lourdes. Foi internada a 31 de julho pela primeira vez para ser submetida a uma operação a 3 de agosto. Dois dias depois, os médicos decidiram operá-la novamente, devido “a um ponto que se tinha soltado”. Ficou em coma induzido e foi submetida a uma nova operação na terça-feira seguinte (a 11 de agosto). “Desde a primeira operação não falou com mais ninguém, nem abriu mais os olhos”, diz entre lágrimas António Ribeiro, que recebeu a notícia da morte da sua esposa no dia 14 de agosto.
Inconformado com o tratamento dado à sua mulher, António Ribeiro pondera avançar para tribunal, no entanto isso “já pouco adianta, porque não traz de volta a minha mulher”, desabafa emocionado. “A doutora que a seguiu desde o início não soube tratar da minha esposa. Até poderia ter morrido antes, agora deixá-la morrer aos poucos sem fazer nada, isso não posso aceitar”, diz o viúvo, revoltado com a situação.
O Conselho de Administração do CHTMAD refere que este foi um caso clínico “muito complexo” e que “parece não haver indícios de negligência médica”. No entanto, o centro hospitalar vai proceder à abertura de um inquérito para “esclarecimento de toda a atuação clínica” do corpo médico que interveio neste caso durante “pelo menos os quatro meses em que a doente foi socorrida, acompanhada e tratada”.


