Entre tecidos, linhas, botões e máquinas de costura, uma sala da Associação Cultural e Recreativa de Abaças – Mérito Rebelde transforma-se num autêntico ateliê. É ali que nascem os fatos, os acessórios e boa parte da identidade da marcha, fruto de um trabalho voluntário que mobiliza quase toda a comunidade.
“Começamos em abril a tratar da música, a escolher o tema e depois a fazer tudo o resto”, explica Joana Borges, uma das organizadoras. Este ano, a marcha presta homenagem às costureiras, profissão que marca gerações da aldeia. “Muitas das nossas avós sabiam costurar, porque antigamente ficavam em casa e não iam à escola. Nunca tínhamos dado destaque a esse trabalho e decidimos fazê-lo agora.”
A escolha do tema acaba por ser também uma homenagem às próprias mulheres que, ano após ano, constroem a marcha. São elas que desenham, cortam, cosem e decoram praticamente tudo. “Seria muito mais fácil alugar os fatos, mas nós fazemos tudo à medida. Cada saia, cada blusa, cada sapato, cada acessório. Tentamos reutilizar materiais de outros anos, mas continua a ser um investimento muito grande”, admite.
Desafio superado
Nélia Brigas é uma das organizadoras que dedica horas intermináveis ao projeto. “Desde abril que isto não para. Estamos aqui todos os dias. Há noites em que saímos daqui perto da meia-noite”, conta. O vestido da madrinha da marcha foi um dos maiores desafios deste ano, com um corpete que “leva centenas de botões e muito trabalho manual. Parece um vestido de noiva”, conta.
A preocupação com a sustentabilidade também está presente. Muitos dos materiais são reaproveitados. Os botões são provenientes do ponto têxtil de Vila Real, que deram vida aos fatos deste ano. “Tudo o que conseguimos reutilizar é aproveitado. Dá trabalho, mas vale a pena”, acrescenta Rosa Gonçalves, outra das organizadoras.
‘Muitos não dão valor ao que elas fazem. É tudo voluntário”.
FILIPE BRIGAS
O esforço é ainda mais impressionante quando se percebe que a maioria destas pessoas trabalha durante o dia. Maria Gorete, uma das participantes que mais tempo dedicou a esta marcha, chegou de França há cinco anos e nunca mais deixou a marcha. “Há dias em que durmo duas horas. Saio daqui à meia-noite e às cinco da manhã já estou a caminho do trabalho. Mas quando entramos na avenida, o cansaço desaparece.”
A marcha de Abaças reúne cerca de 80 pessoas entre marchantes, músicos e cantores. Nem todos são da freguesia. Há participantes que vêm de Vila Real e Sabrosa. Um deles é Diogo Trindade. “Vim por convite de um amigo e fiquei. Fui recebido como se fosse da terra. Nunca falhei um ensaio”, afirma. Mais do que a dança ou a música, foi o ambiente que o conquistou. “Sente-se que isto é uma família.”
Comunidade
Para Filipe Brigas, presidente da Junta de Freguesia de Abaças, esse espírito comunitário é precisamente o maior património da marcha. “As pessoas veem cinco minutos na avenida, mas não imaginam o trabalho que está por trás. Há semanas em que estamos aqui até à uma da manhã. Tudo é feito por amor à terra”.
O autarca faz questão de destacar o papel das mulheres que lideram o projeto. “Muitos não dão valor ao que elas fazem. É tudo voluntário. Gastam tempo, energia e dinheiro para que a freguesia esteja bem representada”.
Quando a marcha entrar na avenida, poucos saberão quantas horas foram necessárias para coser uma saia, aplicar centenas de botões ou criar um acessório. Mas para quem vive este projeto por dentro, o verdadeiro prémio não é um troféu.
“É muito ingrato trabalhar meses para três ou quatro minutos”. “Mas quando ouvimos os aplausos e vemos as pessoas felizes, percebemos que vale a pena.”
Em Abaças, a marcha não é apenas uma tradição popular. É uma obra coletiva feita de dedicação, amizade e orgulho numa comunidade que continua a encontrar nas festas um motivo para se unir.






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