No âmbito da declaração de impacto ambiental do aproveitamento hidroeléctrico de Foz-Tua, as cinco câmaras (Alijó, Murça, Carrazedo, Vila Flor e Mirandela) conseguiram negociar a constituição de uma Agência de Desenvolvimento Regional que tem três grandes objetivos: promover a mobilidade alternativa do Tua; instalar um parque de natureza e biodiversidade; e fazer um conjunto de investimentos em todo o Vale, em que se destaca a recuperação patrimonial em parceria com a Direcção Regional de Cultura do Norte.
São vários investimentos nos cinco concelhos, no entanto, o Museu do Tua será a cereja no topo do bolo, que será dedicado à memória do Vale do Tua e que vai ficar na estação ferroviária do Tua. Esta recuperação patrimonial, bem como a construção do Museu pretendem desenvolver o território através de três componentes: uma na área da mobilidade, outra na área cultural e por último o parque de natureza e biodiversidade, na área ambiental.
O presidente da Associação Regional de Desenvolvimento do Tua (que desde sexta-feira passou a Associação de Municípios), Artur Cascarejo levantou, ao Nosso Jornal, a ponta do véu deste importante projeto que ainda está numa fase embrionária. “É uma forma de perpetuarmos aos vindouros aquilo que foi o vale do Tua. De certa forma, pretende-se compensar a ausência da visão daquele vale selvagem, que obviamente vai desaparecer com o enchimento da barragem. Não questionando os constastes entre o ter e não ter, o desaparecimento físico do património natural e parte da ferrovia, será compensado com a memória fotográfica, para que se perceba o que existia antes da barragem. É um legado que nós queremos preservar na nossa memória coletiva”.
A ideia é inserir o Museu do Tua em articulação com três museus do território ligados a três áreas específicas, o Douro, o Tua e Foz Côa. “O museu do Tua vai centrar-se na imagem do território do Tua, muito ligado à memória do caminho-de-ferro, mas também à memória de todo o vale”, sublinhou o autarca de Alijó.
A unidade museológica ferroviária irá ter elementos ligados à linha, como o património, a composição, as carruagens, o material de uso ferroviário, entre outros. Ainda em fase de estudo, o futuro museu poderá nascer do aproveitamento do edifício atual, ou readaptar alguns dos seus espaços, ou então construir um edifício de raiz. “Neste momento, estamos a discutir esses três cenários, todos eles têm vantagens e inconvenientes, mas ainda não decidimos a solução em termos definitivos”, sublinhou Artur Cascarejo.
O projeto do Museu do Tua deverá estar concluído no final do ano e depois será feita uma candidatura a fundos comunitários. Estão envolvidos cinco municípios, a Direcção Regional de Cultura do Norte, o Instituto Nacional da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, a REFER e a CP, num processo onde vai haver a intervenção de várias entidades. “É um projeto integrado que visa criar uma nova oportunidade de desenvolvimento para o território e para as suas gentes”, reforçou o edil.
“O objetivo fundamental é criar no vale do Tua uma estratégia de desenvolvimento integrado onde estejam presentes as autarquias locais, a EDP e o próprio Estado. O que se pretende, em termos práticos, é compensar de certa forma a região, ou seja, para além da componente financeira pela expropriação de terras, estas populações merecem mais alguma coisa que fique para memória futura. Este investimento físico pretende apoiar o autoemprego e o empreendorismo”, concluiu.
A via estreita do Tua foi construída no final do século XIX e início do século XX, desde a Foz do Rio Tua até Bragança, numa extensão total de cerca de 133,8 quilómetros (km), tendo sido desativado o troço de Mirandela a Bragança, de 81 km, no ano de 1991. A construção da linha desde a Foz do Tua até Mirandela, sobretudo os vinte quilómetros iniciais, foi comparável a algumas vias nos Alpes, foi uma obra de execução muito difícil, tendo sido concluída em 1887. É precisamente o troço mais bonito que ficará “afogado” nas águas da albufeira da barragem do Tua.




