InícioMondim de BastoOs fornos de cal de Campanhó

Os fornos de cal de Campanhó

Nas fraldas da Serra do Marão, a pequena aldeia de Campanhó possui um importante património em degradação ligado à produção de cal, uma atividade já extinta. No distrito de Vila Real, são raras as referências a este tipo de estruturas que caíram em desuso ao longo do último século. Os fornos encontram-se dispersos por encostas, que durante anos produziram a cal muito utilizada na região do Douro como adjuvante de tratamento fitossanitário.

De Vila Real até Campanhó são cerca de 35 quilómetros, mas a estrada é íngreme, depois de passarmos no Alto do Velão. Porventura, esta aldeia possui o maior conjunto de fornos de cal do distrito vila-realense, cuja atividade está ligada à história da aldeia. Dos vários exemplares existentes nas suas encostas, a maioria encontra-se invadida por vegetação, outros estão desmoronados. Contudo, ainda se podem visualizar alguns exemplares.

Nestes fornos, trabalharam centenas de pessoas e grande parte eram mulheres. Maria das Dores Ferreira, com 86 anos, residente em Campanhó, começou de menina a trabalhar nos fornos. “Desde os 12 até aos 32 anos, andei a trabalhar neste ofício, juntamente com outra moça da minha idade. Tínhamos de fazer o trabalho de uma mulher, pois só assim é que nos pagavam. Ou seja, éramos duas crianças que, na altura, tínhamos que trabalhar como uma mulher”.

Os fornos, alguns centenários, foram construídos junto às respetivas pedreiras de calcário, o que agilizava o seu processo de produção, mas “o trabalho era muito penoso”. As pedras maiores eram transportadas à cabeça desde as pedreiras. Depois, colocavam as pedras no forno por cima da lenha e eram ‘cozidas’, com os fornos todos tapados. Chegavam a vir carros de bois das quintas do Douro para carregar a cal para as vinhas. Além de servir para caiar, a cal era usada para tratar o míldio.

Maria das Dores contou- -nos que “muita gente trabalhou nestes fornos”, vinham de longe, nomeadamente de Tejão, Canadelo, Pardelhas e Ansiães. Havia uma fraga muito grande e as mulheres de muitos trabalhadores no verão dormiam lá. “Aqui, carregavam com pedras os carros de lenha e que eram puxados por vacas”.

Os patrões dos fornos eram da aldeia e da zona da Campeã. “Recebíamos quatro coroas (dinheiro) por dia, por tanto trabalho difícil, embora as pedras mais pequenas fossem transportadas em cestas”.

Da cozedura do calcário (tipo alvenaria), nos fornos artesanais, surgia então a denominada cal viva nas tais “pedras cozidas”. A cal destes fornos entrava na mistura fungicida, solução de sulfato de cobre e cal, conhecida na região duriense como calda bordalesa.

O complexo patrimonial existente em Campanhó é composto por fornos circulares interligados entre si, de forma a otimizar os recursos materiais e humanos envolvidos no processo de transformação. São de câmara única, de tipo caldeira, com uma só porta e com câmara interior em falsa cúpula de xisto ou granito. Junto aos fornos foram construídas casas de piso térreo, hoje apenas existem vestígios.

Resultante da paralisia de produção verificada no séc. XX, os fornos começaram a entrar em decadência. A Câmara Municipal de Mondim de Basto está interessada na reavaliação deste património histórico do concelho, ligado às atividades artesanais de índole rural.

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