Sexta-feira, 15 de Outubro de 2021

Padeiro solidário

Ajudar está-lhe no sangue. Depois de em 2012 criar o Pão da Troika, Mário Telmo Teixeira decidiu agora vender este pão especial a metade do preço para ajudar quem mais precisa.

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Mário Telmo tem 60 anos. É padeiro em Abreiro, no concelho de Mirandela, desde 1985, já lá vão 35 anos. Em 2012, com a crise que se abateu sobre Portugal, decidiu criar um pão especial, que apelidou de ‘Pão da Troika’.

“Na altura criámos este pão para ajudar as famílias. É um pão de trigo, parecido com a baguete, mas mais grosso, sem aditivos. Tentámos que fosse um pão que desse para tudo”, explicou, acrescentando que “não é massa fina nem é tipo papo seco. É um pão consistente e regional”.

Na altura em que apareceu no mercado, este pão era vendido a 0,80€, passando, depois, a custar 1,10€. O produto ganhou fama e passados oito anos continua a ser o preferido de muitas famílias. A crise voltou, agora devido ao coronavírus, e o padeiro Telmo decidiu voltar a baixar o preço deste pão.

“O pão pesa 750 gramas e manteve sempre um preço baixo. Agora vamos para metade do preço. Vamos vender o ‘Pão da Troika’ a 0,60€, pelo menos até ao final do ano”.

“ISTO É PIOR QUE A TROIKA”

Nesta padaria, uma empresa familiar, onde trabalham oito pessoas, fabricam-se várias qualidades de pão. É um trabalho que dura toda a noite e termina com a distribuição do produto final nos concelhos de Mirandela, Murça, Vila Flor, Carrazeda de Ansiães e Valpaços.

Foi ao percorrer, diariamente, estes cinco concelhos, que o padeiro de Abreiro se apercebeu que “há pessoas com dificuldades” e não hesitou em, mais uma vez, abrir os cordões à bolsa para ajudar quem mais precisa.

“Já estou aqui há muitos anos e acho que o que estamos a viver agora é pior que a Troika”, afirma Mário Telmo.  “Estamos a voltar ao tempo em que as pessoas ficavam a dever e pagavam no final da semana ou do mês”, conta, acrescentando que “notam-se dificuldades em famílias que pertencem à classe média e há muitas dessas pessoas que ficam acanhadas e pedem aos vizinhos para lhes comprarem o pão”.

NEGÓCIO SEM QUEBRAS

“A venda porta a porta é o nosso forte”, diz Mário Telmo, ainda que “os clientes já foram mais”. A culpa é da desertificação, “os idosos morrem e os jovens vão embora. Mas, mesmo assim, ainda temos mais de mil”.

Quanto ao negócio, e ao contrário de outros setores que têm sofrido quebras desde que a Covid-19 chegou a Portugal, a crise parece estar a passar ao lado desta padaria. “Não temos notado quebras, antes pelo contrário. Tem havido um ligeiro aumento no consumo de pão, talvez pelo facto de as pessoas estarem mais tempo em casa”, salienta.

Ainda assim, este padeiro mostra-se reticente quanto ao futuro. “Nós percorremos todas as aldeias aqui à volta. Muitas delas chegaram a ter 500 e 600 habitantes, se não mais. Agora há aldeias completamente desertas, com pouco mais de 10 habitantes, o que complica a nossa vida”.

“O preço do pão não sofre alterações há coisa de sete anos, mas o da farinha, do fermento e tudo o resto vai subindo e fica difícil fazer face às despesas. Vamos ter de encontrar soluções para dar a volta a isto”, concluiu o padeiro Telmo, antes de partir para mais uma viagem pelas aldeias transmontanas com a carrinha carregada de pão acabadinho de sair do forno.

 

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