IgrejaPAULO REIS MOURÃO*

PAULO REIS MOURÃO*

A Santa Sé atribuiu a 2008 o ano das comemorações do nascimento bimilenar de São Paulo. Ainda que estas datas sejam sempre mais referenciais do que exactas, não deixa de ser um bom momento para reflectirmos sobre esse homem que muito admiro (não tivesse eu o nome que ele imortalizou!) São Paulo começou por ser […]

A Santa Sé atribuiu a 2008 o ano das comemorações do nascimento bimilenar de São Paulo. Ainda que estas datas sejam sempre mais referenciais do que exactas, não deixa de ser um bom momento para reflectirmos sobre esse homem que muito admiro (não tivesse eu o nome que ele imortalizou!)

São Paulo começou por ser tudo menos um santo, como agora o vemos. Apesar de um dos seus mestres ter sido o famoso doutor da Lei Gamaliel, um dos teólogos judaicos daquela altura mais próximos da mensagem de Cristo (há quem refira que Estêvão, o primeiro mártir do cristianismo, também frequentava as lições de Gamaliel), a verdade é que Saulo de Tarso (assim se chamava São Paulo antes da conversão) enveredou por uma corrente ortodoxa do farisaísmo e desde muito jovem procurou ser fiel ao espírito integrista das correntes do judaísmo de então. Por isso, viu com grande desprezo a mensagem de Jesus (um pouco mais velho do que ele) e a dos homens que rodeavam Jesus, homens modestos, quase sem cultura e intempestivos, como Pedro, Tiago, André ou João, bem longe daqueles outros com quem Saulo convivia, fariseus, poliglotas, políticos e diplomatas.

A família de Saulo de Tarso era uma família de mercadores (alguns dizem mesmo tendeiros) que conseguiram dar a cidadania romana aos filhos (era muito comum os judeus mercadores financiarem as grandes obras do Império e dos senadores e, em troca, conseguirem estatutos mais abonatórios para os seus filhos). Por isso, Saulo era um judeu de tradição e romano por direito, o que lhe promovia um futuro promissor pelo Mediterrâneo fora.

No entanto, este homem que alguns caricaturavam como rabugento, feio e pouco à-vontade a falar em público (escrevia melhor do que falava…) converteu-se numa viagem que fez a Damasco, na Síria. A tradição apresenta-nos Saulo como cegando temporariamente perante a luz que viu em Jesus que o interpelou com a célebre frase: Porque me persegues?

Naturalmente, aqueles homens modestos e incultos (segundo Saulo) que eram os discípulos de Jesus não acolheram facilmente Paulo. “Então, num dia, persegue-nos e goza-nos e no outro apresenta-se como seguidor de Jesus?” pensaram aqueles que conviveram tão de perto com Cristo. Aliás, ao longo do resto da sua vida, terminada em Roma durante a administração de Nero, num martírio que difundiu ainda mais a mensagem cristã, São Paulo soube manter-se com algum pudor perante a Igreja de Jerusalém, onde pontificava Pedro apoiado pelas vozes influentes de Tiago e João.

A grande obra de São Paulo foi trazer o cristianismo para o Mediterrâneo. Alguns pensadores, como o português Antero de Quental, acreditam mesmo que sem Paulo muito tardiamente o Cristianismo teria saído da Judeia. Os Doze Apóstolos de Jesus (mesmo considerando a substituição de Judas Iscariotes) eram um grupo heterogéneo, ecuménico, diríamos hoje. Eram um grupo de homens que pensavam muitas coisas de modo muito diferente entre si. Mas, no geral, preferiam um Cristianismo hebraico, centrado em Jerusalém e nos Judeus. Paulo, dada a sua personalidade, viu sempre a Mensagem de Cristo como uma mensagem universal, para todos os homens, de todas as tribos e de todo o mundo. Esse espírito universal (católico) foi, sem dúvida, o legado maior deste santo cristão. Um exemplo para todos nós.

 

*(Docente do Departamento de Economia da Universidade do Minho)

 

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