Raúl Saraiva, de 16 anos, sonhava ser jogador de futebol. Começou a dar os primeiros passos no Real Clube de Penaguião, onde jogou um ano, mas teve de abandonar por causa de um cancro, que lhe foi diagnosticado quando tinha apenas 11 anos.
A mãe, Ana Maria, explica que o filho chegava a casa com dores de cabeça constantes, o que a levou a procurar ajuda médica. “Primeiro levei-o ao oftalmologista, que me disse que ele não tinha qualquer problema na visão. Depois, os peitos começaram a crescer e fui à médica de família. Mandou-me fazer exames, uma mamografia, análises, mas nada acusou”.
O problema persistia e, após várias idas ao médico e exames, já no hospital de Vila Real, o pior cenário foi confirmado, tinha cancro no fígado. Foi operado no Hospital Pediátrico de Coimbra, onde esteve internado, e fez várias sessões de quimioterapia. Aparentemente, até correu bem, no entanto, mais tarde voltou a ser diagnosticado com metastases no fígado, que também já estavam a afetar o pulmão.

O tratamento teve alguns momentos dolorosos, mas para a mãe o pior foi quando o cabelo começou a cair. “Lembro-me que foi numa sexta-feira e que ele esteve toda a tarde a tirar o cabelo. Foi das poucas vezes que o vi chorar, assim como quando a médica lhe disse que tinha cancro”, conta Ana Maria, que tem muito orgulho no seu menino.
Apesar da triste notícia, Raúl nunca deixou de acreditar na vida e decidiu vivê-la ao máximo, dentro dos limites que a doença lhe impõe. “Na altura chorei, não tinha bem a noção do que era. Fui operado e a médica disse que era melhor parar de jogar”, conta à VTM, adiantando que o cancro o obrigou a abandonar o futebol, mas não o impediu de continuar a “adorar” esta modalidade, que move paixões e multidões. “Agora, só jogo na escola com os meus amigos, mas fico mais cansado, porque não tenho a preparação física deles”.
De três em três semanas, o jovem, que reside em Fontes, no concelho de Santa Marta de Penaguião, tem de ir fazer o controlo da doença ao Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto, uma rotina à qual já se habituou. “Sei que não há um medicamento que cure esta doença a 100%, talvez um dia seja possível encontrar uma solução, para depois ser novamente operado”. Tem de tomar 10 cumpridos por dia, “três dos quais são para a quimioterapia oral, que tomo logo de manhã”, revela este ‘menino guerreiro’, como, carinhosamente, é apelidado pela mãe. “Temos de pensar que o pior já passou, ele tem muita força e ainda nos dá mais força a nós, pais. É um rapaz determinado”, revela a mãe, visivelmente emocionada.
Quando regressou à escola, “eu ficava preocupada e tinha de lhe ligar para saber como se sentia ou se precisava de alguma coisa. “Por vezes, quando eu lhe ligava a perguntar se estava bem, não me conseguia conter e chorava. Ele dizia-me: estás a chorar para quê? E porque estás com essa cara?. Ele é o nosso menino de ouro, que nos dá força todos os dias, mas sei que ele, por vezes, fica revoltado”.
“IMPARCIAL”
Confessa que é adepto do atual campeão nacional, uma paixão incutida pelo pai António. Quando o Raúl tinha apenas oito dias de vida inscreveu-o como sócio do FC Porto. “Já agradeci várias vezes ao meu pai por me ter feito portista, porque não se explica, sente-se.
Mas sei distinguir bem as coisas e tento ser isento e imparcial. E acho que tenho conseguido, até porque gosto de falar apenas das questões do jogo, não entro em confusões clubísticas. Os meus melhores amigos são de outros clubes, um é do Sporting, outro do Benfica e sempre nos damos bem”.
Conhece tudo e todos, desde os craques dos clubes mais pequenos aos grandes, passando pelas ligas de vários países europeus, não apenas os da atualidade, como os de outros tempos. Falar de futebol é mesmo um campo onde se sente confortável, um gosto que o faz feliz todos os dias.

BOM ALUNO
O gosto pelo futebol não lhe tirou o foco nos livros escolares, pois é um curioso, que adora aprender coisas novas. Raúl é um bom aluno, que absorve facilmente a matéria e tira boas notas. “Gosto mais de português, história e educação física, mas também tenho boas notas em outras disciplinas”, frisa Raúl, que, no futuro, gostava de seguir os passos do padrinho e do tio, que são jornalistas. “Vou estudar ciências da comunicação e gostava de vir a ser jornalista, porque gosto muito de escrever”.
Além do futebol, também gosta de ver basquetebol, andebol e hóquei-patins. Agora, que acabaram os campeonatos, vê outros programas, em que tenta aprender alguma coisa e aumentar a sua cultura geral.
“Gosta de estar a par de tudo. No início nem acreditava que era ele que escrevia aquilo, mas depois vi que era mesmo. É um verdadeiro fora de série”, diz, com orgulho, o pai António, que só quer que ele seja feliz.
CRÓNICAS DA BOLA
Frequenta o Agrupamento de Escolas de Peso da Régua e a pandemia obrigou-o a ficar mais tempo em casa do que os colegas. Mas como é um rapaz muito ativo, que não gosta de estar parado, pensou em fazer algo relacionado com futebol. “A ideia surgiu no ano passado, quando estive mais tempo em casa. Tentei criar uma página nas redes sociais, mas como não tinha grandes conhecimentos, acabei por desistir. Este ano, nas férias da Páscoa, decidi avançar com as ‘Crónicas da Bola’, porque fui falando com outras pessoas que tinham páginas e até foi fácil, o mais difícil é mesmo geri-la, pois sou eu que faço tudo”, conta entusiasmado, adiantando que o padrinho e o tio também o incentivaram. “O meu padrinho e o meu tio são jornalistas e mostrei-lhes as análises que escrevi sobre alguns jogos. Eles disseram que tinha jeito e, então, criei a página para mostrar às pessoas as minhas crónicas sobre futebol”.
Aficionado pelo desporto-rei e pela leitura de jornais em papel, o que é uma raridade entre esta nova geração, foi um gosto que o pai lhe incutiu desde cedo. “Todos os dias leio os três jornais desportivos, mas também acompanho as crónicas do António Tadeia, ouço podcasts, gosto do comentador Luís Freitas Lobo e do Luís Catarino, da Sport TV. Acho que são estas as minhas fontes de inspiração. Mas também sempre gostei de esc
rever, porque me expresso melhor do que a falar”.
Para já só escreve sobre futebol, que tem “muito que se lhe diga”, mas quem sabe um dia não escreve um livro com as histórias sobre o que se passa à sua volta. “Confesso que também gosto de contar histórias que vivi e sobre aquilo que se passa pelo mundo fora. No entanto, agora estou mais focado no futebol. Lá em casa, a minha mãe está constantemente a dizer que a televisão da sala está estragada, porque só dá futebol”, afirma, entre risos.
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