Quinta-feira, 11 de Agosto de 2022

Região em alerta por causa da vespa que veio para ficar…

37 mil hectares de solo português está ocupado por castanheiros, que produzem entre 45 e 50 mil toneladas de castanha por ano, das quais 85 por cento são transmontanas. Numa fileira de extrema importância para a economia regional, o “susto” foi grande com a deteção de uma praga que prometia ser “desastrosa”. Apesar da erradicação da vespa do castanheiro ser uma meta utópica, a luta para a manter sob controlo está a mobilizar produtores, investigadores e municípios

-PUB-

“A área de expansão da vespa é maior do que aquilo que pensávamos. Surpreendentemente encontramos focos bastante desenvolvidos em Trás-os-Montes”, explicou José Gomes Laranjo, presidente da Associação Nacional da Castanha (RefCast) e docente da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), fazendo, no entanto, um balanço positivo de um plano de combate à vespa do castanheiro, desenvolvido de urgência em maio.

A vespa “ataca” alojando os seus ovos nos gomos da árvore, “provocando a redução do crescimento dos ramos e a frutificação, podendo diminuir drasticamente a produção e a qualidade da castanha e conduzir ao declínio dos castanheiros”.

A praga foi detetada pela primeira vez em Portugal no ano passado, em Barcelos, mas atualmente já está confirmada a sua presença em soutos espalhados por todo o país, em especial em Trás-os-Montes e no Minho. “Infelizmente houve más surpresas. Depois do abrolhamento, fomos confrontados com focos em muitos sítios. Não só em castanheiros jovens, mas também em adultos”, explicou o investigador.

Se o país tivesse ficado de braços cruzados, e segundo a experiência de outros países onde a praga descontrolou-se, como por exemplo a Itália, o setor poderia ver reduzida a produção nacional em mais de os 70 por cento nos próximos anos. O cenário seria especialmente desastroso para Trás-os-Montes, região que assume a posição dianteira no setor, ao ser responsável por 85 por cento da produção nacional, que atinge as 50 mil toneladas de castanhas por ano, movimentando, “em termos brutos, entre 150 a 200 milhões de euros”.

Só no inverno passado, calcula-se que tenham sido plantados 200 mil novos castanheiros, e está nessa forte expansão a fonte da praga. “Os agricultores, cheios de boa-fé, mas sem ouvir as recomendações oficiais, compraram castanheiros em locais menos apropriados, plantas sem garantias, sem o passaporte fitossanitário, castanheiros infetados”, lamentou José Gomes Laranjo.

Com a confirmação da praga em território nacional e a forte ameaça ao futuro do setor, foram realizadas várias reuniões de emergência que resultaram num plano com uma ação inicial “drástica” que foi responsável por mais de meia centena de ações de sensibilização por todo o país. O objetivo foi alertar os produtores para questões como o facto da vespa ser resistente a qualquer tipo de produto químico.

No âmbito do esforço conjunto desenvolvido durante o mês de maio e que, nesta primeira fase do combate à praga, se prolongará até a primeira semana de junho, foi feito o levantamento e mapeamento das zonas infestadas e extraídas e destruídas “milhares e milhares” de galhas infetadas. O próximo passo é a luta biológica (ver caixa).

“Ainda bem que este plano avançou. O plano mobilizou o setor, os produtores, a inspeção. Com todo este trabalho, não digo que se tenha conseguido limpar zonas mas conseguiu-se minimizar muito, mas muito, o impacto desta praga”, defendeu o presidente da RefCast.

Consciente de que não será possível erradicar a vespa, José Gomes Laranjo advertiu que os esforços para a controlar devem continuar no terreno e que, além do Estado, os municípios e a própria fileira terá de se chegar à frente no que diz respeito aos custos da “guerra”, que nesta primeira fase contou com o suporte financeiro do Ministério da Agricultura, apoiado pelo Instituto Politécnico de Bragança (IPB).

Outro caminho que tem que ser percorrido é a investigação. Perante a notícia da chegada da praga à Portugal, a UTAD, o IPB e o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária uniram-se desde logo num projeto, o primeiro desenvolvido em Portugal, para estudar vespa da galha do castanheiro, que aguarda por financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Municípios na linha da frente da luta

Tendo em conta o peso do setor da castanha em alguns concelhos de Trás-os-Montes, vários municípios estão empenhados em combater a praga que, a descontrolar-se, poderá ser uma “tragédia” para economia local.

Em Valpaços, por exemplo, foram criadas brigadas que estão a calcorrear todo o território do concelho para identificar focos da vespa. “São equipas coadjuvadas por elementos das Assembleias Municipais das várias juntas de freguesias (por uma questão de controlo e responsabilidade) que não precisam de autorizações para entrar nos terrenos”, explicou Amílcar de Castro Almeida, presidente da Câmara, testemunhando que o objetivo passa também por retirar e queimar os galhos infetados.

As referidas brigadas, que envolvem à volta de 200 pessoas, estão prestes a finalizar a segunda volta ao concelho, numa operação que tem sido “um sucesso” e que vai continuar, com um terceiro périplo por todas as freguesias. “Estamos a substituir o Estado”, lamentou o autarca que continua a espera de uma resposta a um pedido que fez a Ministra de Agricultura para que visite a região, se “solidarize” com os produtores, com a região, com o interior do país.

 

Mosquito combate vespa

 

“Chama-se Torymus sinensis, é um mosquito que vem da Itália, alimenta-se única e exclusivamente da larva da vespa do castanheiro e é, por isso, o ator principal na luta biológica contra a praga que já invadiu Trás-os-Montes.

Quando a praga é detetada em castanheiros novos a limpeza, através da retirada das galhas afetadas, é fácil, no entanto, nas árvores adultas esse é um processo que se torna muito complicado, e é aí que entra o mosquito.

“Cada indivíduo adulto (da vespa) origina entre 100 a 150 ovos. Ou seja, 100 a 150 gomos que vão ser infestados. Daqui para frente o trabalho vai ser outro. Vai ser mapear e recensear as zonas para continuarmos a luta biológica que, felizmente, já conseguimos implementar em Portugal, um ano após o aparecimento dos primeiros focos em Barcelos”, sublinhou José Gomes Laranjo.

Em Portugal já foram feitas 30 largadas destes insetos, sendo que em cada largada são libertados 150 mosquitos (100 fêmeas e 50 machos), num procedimento que tem um custo médio de 250 euros. Cada fêmea do mosquito põe em média 70 ovos e, após a eclosão, o inseto alimenta-se das larvas da vespa das galhas, causando-lhe a morte.

Na região de Trás-os-Montes e Alto Douro apenas se realizaram largadas em soutos localizados em Vila Marim (Mesão Frio) e Sedielos (Peso da Régua).

Para já, os mosquitos são importados a partir de uma empresa italiana, mas, segundo o presidente da RefCast, o futuro passará, obrigatoriamente, pela produção deles em Portugal.

O mesmo responsável deixou o alerta para a possibilidade dos agricultores serem abordados por pessoas que lhes vão tentar vender o dito parasita, o que “poderá bem ser uma burla”. Além de não terem garantias sobre o que estão a comprar, é preciso ter ainda em atenção que a largada dos mosquitos deve respeitar procedimentos muito específicos.

“O setor está organizado, existe uma associação, esta praga tem inclusivamente uma comissão técnica própria que está a delinear uma estratégia de luta”, frisou José Gomes Laranjo apelando, mais uma vez, aos produtos para que se informem muito bem sobre o problema da vespa das galhas do castanheiro, de forma a adotarem os procedimentos mais adequados.

 

-PUB-

APOIE O NOSSO TRABALHO. APOIE O JORNALISMO DE PROXIMIDADE.

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo regional e de proximidade. O acesso à maioria das notícias da VTM (ainda) é livre, mas não é gratuito, o jornalismo custa dinheiro e exige investimento. Esta contribuição é uma forma de apoiar de forma direta A Voz de Trás-os-Montes e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente e de proximidade, mas não só. É continuar a informar apesar de todas as contingências do confinamento, sem termos parado um único dia.

Contribua com um donativo!

COMENTAR FACEBOOK

Mais lidas

A Imprensa livre é um dos pilares da democracia

Nota da Administração do Jornal A Voz de Trás-os-Montes

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.