Em Foco“Um bispo é sempre servidor de cada pessoa”

“Um bispo é sempre servidor de cada pessoa”

Gilberto Délio Gonçalves Canavarro dos Reis, natural do concelho de Vila Pouca de Aguiar (diocese vila-realense), teve ordenação episcopal na Paróquia de Santa Maria Maior de Chaves, em 12 de fevereiro de 1989. Tornou-se Bispo Titular de Elefantaria da Mauritânia e Auxiliar do Porto. Vinte e seis anos depois, D. Gilberto termina um ciclo intenso, traduzido também pelo exercício ministerial encetado na diocese de Setúbal que agora chega ao fim. Ocasião, pois, para um balanço, na altura em que se torna Emérito.

Um trajeto de Chaves a Setúbal

 

A cerimónia da ordenação episcopal de D. Gilberto Délio Canavarro dos Reis (que contou com a presença do Bispo de Vila Real, à época, D. António Cardoso Cunha – bispo sagrante principal; e dos bispos consagrantes D. Joaquim Gonçalves – Bispo Coadjutor de Vila Real – e D. Júlio Tavares Rebimbas – Bispo Titular do Porto) constituiu um momento de grande relevo e significado na diocese vila-realense, com a ordenação de um dos seus filhos mais diletos, momento que viria a repercurtir-se, depois, com o aparecimento e enaltecimento de outros jovens valores do clero desta diocese elevados à condição de bispo, depois de alguns anos em que não houvera, entre nós, ordenações episcopais.

Foi na cerimónia da sua ordenação que D. Gilberto referiu: “Ser bispo é um serviço. O bispo existe para que a Igreja inteira seja sacramento ao nível da salvação trazida por Cristo”. E, interrogando-se logo a seguir: (“Como exercer este ministério de forma a evitar a tentação de poder ou do sucesso fácil?”), o novo bispo depositou em Cristo a sua “confiança”: “O Senhor é o meu refúgio. N’Ele ponho a minha confiança”.

Nomeado bispo para a Diocese de Setúbal, depois de ter sido Bispo Auxiliar do Porto, D. Gilberto tornou-se agora emérito, ao atingir o final do seu múnus. Passa a ser substituído na diocese por D. José Ornelas de Carvalho, novo bispo setubalense. Para trás, fica um desempenho de grande nível, reconhecido por todos quantos puderam acompanhar as incidências do seu magistério, ora da comunidade religiosa ora da sociedade civil, tendo sido galardoado com a Medalha Municipal de Mérito – Grau Ouro pela autarquia que representa uma das maiores regiões do país. Como nos afirmou na abertura da entrevista que nos concedeu em mais este momento da sua vida,“as coisas acontecem geralmente de forma rápida, pelo que é difícil fazer balanços, atendendo a que a conversão acontece no coração, às vezes com coisas bem simples”. Com efeito, a ida de D. Gilberto para a Diocese de Setúbal foi feita numa altura em que se processaram muitas e fortes modificações a nível diocesano, acompanhadas mesmo depois por novas diretrizes sociais apontadas pelo Vaticano em que também emergiu a figura do Papa Francisco.

 

Daí a pergunta inicial: que balanço poderá fazer D. Gilberto desta sua presença na Diocese de Setúbal?

“Em 17 anos, muitas coisas acontecem e aqui aconteceram, desde criação de paróquias, centros sociais, construção de igrejas, criação de estatutos e serviços, ordenações de padres e diáconos…

Estas coisas vêem-se e registam-se. Mas há algo que não se vê e que é essencial e para o qual tudo deve convergir: o encontro no coração das pessoas com Deus. Uma palavra ocasional, uma visita a um doente – coisas que nem se contam – mudam uma vida e fazem acontecer o Reino de Deus, de forma discreta mas forte. Por isso, para a Igreja, estes balanços serão sempre difíceis. Setúbal é uma diocese com muitas potencialidades, apesar de ter uma prática dominical baixa. Encontrei aqui gente muito boa, como já tinha encontrado na diocese de Vila Real e no Porto. Foi uma honra e uma alegria ter estado aqui a anunciar a alegria do evangelho”.

 

Como se desenvolveu a mudança de um bispo mais exuberante e paradigmático na estrutura eclesial da diocese e do país (D. Manuel Martins) para um outro, menos mediatizado e mais contido, mas com uma grande eficácia como se viria a revelar junto dessa gente muito boa que aí encontrou?

“Com normalidade. O povo de Deus sabe que cada padre ou cada bispo é diferente mas em cada um vê Jesus Bom Pastor a conduzi-lo. Aqui também foi assim. Esta diferença enriquece, pois cada bispo como cada teólogo apenas consegue destacar um aspeto do mistério inesgotável e belo de Jesus Cristo. Os quatro evangelhos são diferentes. E assim nos dão um rosto mais completo de Jesus”.

 

“Deus não criou o homem para um projeto falhado”

 

Face aos problemas que estamos a viver, entende haver razão para otimismo, no que se refere ao nosso futuro?

“Sem dúvida que sou otimista. Deus não criou o homem para um projeto falhado. E a presença de Cristo Ressuscitado é a nossa esperança. É a certeza de que o pecado e o mal foram destruídos na sua raiz. Isto não quer dizer que aquele que procura trilhar o caminho da verdade, da justiça, da solidariedade, do amor de Cristo, da defesa e integração do pobre, não tenha de passar pela dor, e até dor de morte, mas saiba que irá ressuscitar para a vida sem fim. Há muitas cruzes que levam ao abismo. Mas a cruz de Jesus, com todo o seu drama, vai desembocar no mar da Glória sem fim. É esta esperança que os cristãos devem testemunhar, abrindo o coração de verdade aos gritos dos pobres, seja que pobreza for, e colaborando com entusiasmo e lucidez na edificação dum mundo em que a paixão pelo bem comum e a defesa e promoção da dignidade de cada pessoa sejam vivas.

Em Portugal, não faltam capacidades, mas é preciso que os cidadãos – e os cristãos têm de ser plenamente cidadãos – assumam com alegria a condição de construtores dum país melhor e dum mundo para todos, também para os vindouros. Também é preciso que muitos políticos coloquem o desejo de servir o povo acima dos seus interesses e dos jogos mesquinhos de poder partidário”.

 

Abrir o coração de verdade aos gritos dos pobres, seja que pobreza for

 

Qual o papel da Igreja no convívio com esses problemas e na disposição de complementar a ação política e social do mundo moderno, para melhoria da qualidade das comunidades?

“É de várias ordens. De assistência, enquanto não se encontra uma solução melhor. De promoção, para capacitar as pessoas de forma que se bastem a elas. De ajuda na formação da consciência reta que comprometa as pessoas na busca do bem comum, na defesa da dignidade de cada pessoa e na organização da sociedade, de forma a que os mais pobres e fracos sejam ajudados a passar da margem para o centro.

Mas é mais profunda. É ajudar as pessoas a abrirem o coração a Cristo Redentor, Aquele que tem o poder de libertar o homem do egoísmo que o fecha em si como se fosse Deus de si mesmo e que o faz esquecer dos outros ou até destruí-los. Esta é a razão última da desordem do mundo”.

 

A tarefa de um bispo nunca se esgota, mesmo quando se alcança o seu título de emeretismo. O que poderemos então contar relativamente à sua prática futura, depois das ações já por si desenvolvidas na cúpula da Igreja Católica e numa altura em que tantas necessidades se abrem na vida das pessoas mais repudiadas, mais esquecidas, a que chamou o grito dos pobres bem exemplificados, por esemplo, nos povos refugiados que em nós procuram âncora para uma vida mais justa, em espírito de família?

“Desde pequeno, senti que Jesus é o Redentor do homem. Isso me levou a desejar ser padre, para prestar o serviço de levar as pessoas a Jesus e Jesus às pessoas. Foi isso que sempre me norteou e é isso que desejo continuar a fazer, independentemente das circunstâncias. O bispo é sempre um servidor de cada pessoa, qualquer que seja a tarefa que é confiada ou o lugar onde viva.

Em princípio, repartirei o meu tempo entre Porto e Setúbal. Mas gostava de deixar um agradecimento grande ao sr. D. Amândio Tomás, Bispo de Vila Real, pelo convite que me fez para ir para a Diocese de Vila Real, onde fui gerado para a vida, para a fé e para o sacerdócio ministerial e, por isso, terra do meu coração. Mas, ficando em Porto e Setúbal, fico mais perto de tudo, nomeadamente da família”.

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