Esse café funcionava há apenas um mês. Entre adultos e crianças houve 15 mortos. Feridos ficaram dez outros habitantes dessa pequena localidade, onde viviam três centenas de pessoas.
A NOVIDADE DA COR NA TELEVISÃO E O HABITUAL NEGRUME DA NOITE
O jovem José Magalhães Torrão decidiu, na década de setenta do século passado, trabalhar em Espanha. Com o que lá ganhou, resolveu investir na construção e exploração de um estabelecimento de cafetaria na sua terra, ao lado da Estrada Nacional 206, porque, segundo nos afirmou o seu irmão Francisco (que reside na mesma casa de sempre, ao lado do lugar em que a tragédia aconteceu) “não havia qualquer café nesta zona e as pessoas gostariam, nessa época, que houvesse um”.
Ainda com as lágrimas a surgir de vez em quando no seu rosto, foi-nos contando alguns pormenores do “acidente da Natureza” (como faz questão de lhe chamar). Nessa noite (era domingo e todos estavam a ver a televisão espanhola a cores – uma prenda que José Torrão dera aos seus conterrâneos), o senhor Francisco Torrão estava em Braga, onde era motorista. O sobressalto fê-lo vir a correr, ainda a tempo de ver e se aperceber o que tinha acontecido, apesar de ser noite: as paredes do café rebentadas, uma torrente indescritível de pedras e terra a atravessar a estrada e a precipitar-se, ao fundo de uma ladeira em declive, num riacho a cerca de um quilómetro de ali, arrastando tudo: pessoas, cadeiras, mesas, máquinas – e o tal televisor que já apresentava ali programas a cores. Na noite negra, bombeiros e populares (nomeadamente familiares e amigos de quem desaparecera levada pela torrente) procuravam corpos no meio da lama.
“Foi uma noite terrível que nunca mais ninguém esqueceu. Quase quarenta anos depois, ainda não sei explicar o que se passou” – refere Francisco Torrão, cujo irmão, o dono da cafetaria, também foi vítima mortal do acidente: “O meu irmão morreu ali, aos 29 anos de idade”.
“HOJE, PROVAVELMENTE, NÃO PERMITIRIAM A CONSTRUÇÃO DO CAFÉ NESTE LOCAL”
O edifício do café ainda está no lugar, da mesma maneira que ficou em 1981. Um grande buraco no piso térreo e, no primeiro andar, lá estão as persianas de três janelas, tal e qual como ficaram a partir dessa noite. Ao lado, foi construído um memorial com os nomes das quinze pessoas que ali pereceram gravados numa placa de mármore. Entretanto, na aldeia, muitas outras moradias surgiram, muitas condições de vida se modificaram. Só o senhor Francisco permanece na mesma casa em que então vivia, sem grandes alterações. Mora sozinho. Estava sentado no alpendre e foi daí, à distância de uma escadaria que o separa da rua, que falou connosco.
“Depois do acidente, houve críticas à forma e ao local onde o café do meu irmão foi construído. Provavelmente, se fosse hoje, as autoridades não permitiriam que a casa ficasse junto a uma linha de água que, com o temporal que fazia nesse dia, transbordou. Mas, na altura, o café tinha sido licenciado segundo as regras de então. Não era obra clandestina. Foi um acidente da Natureza, como têm acontecido tantos outros, noutros locais” – rematou.
Na capela privada da Quinta da Ponte alinharam-se as urnas do velório. Foi dali que saiu o féretro para o cemitério de Cavez.
No café estavam 27 habitantes de Arosa. Os corpos de 15 deles jaziam ali, crianças e adultos. Outros dez estavam feridos nos hospitais de Braga e Porto. Só duas pessoas sobreviveram. Até estas, provavelmente, não saberão também explicar porquê.
| Testemunho vivido no local |
| Ontem & hoje De súbito, tocou o telefone de minha casa. Eu estava a trabalhar na Rádio Renascença e foi de lá que me comunicavam a necessidade de ir a Arosa onde tinha havido um desabamento de terras. Foi só tempo de me vestir à pressa (estava já de pijama para ir dormir uma noite que julgava ir ser tranquila), ir aos estúdios buscar o equipamento para a reportagem e a carrinha adaptada a estúdio móvel. Nunca pensei que me seria dado ver uma tragédia de tal envergadura. Nos noticiários da RR às sete, às dez e às doze horas tentei afastar a emoção e referir o acontecimento com a maior dignidade, despindo o véu das tremendas situações ali vividas. Em tantos anos de trabalho, aquela continua a ser a mais dramática das milhares de reportagens que fiz. |
| Senti de novo essa emoção ao deslocar-me (quase 40 anos depois) ao mesmo lugar para fazer esta outra reportagem que aqui vos deixo. |






