Quinta-feira, 21 de Outubro de 2021

Vai tudo ficar bem (?)

Vivemos (e viveremos) tempos estranhos, tempos que nunca imaginamos sequer viver.  Além do COVID-19 evidentemente, preocupam-me também outras consequências da pandemia. Vejamos: o número de episódios de urgência diminuiu cerca de 45% em março. É sobejamente conhecido que a população portuguesa recorre demasiado ao Serviço de Urgência, no entanto podemos ter aqui um fenómeno preocupante, […]

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Vivemos (e viveremos) tempos estranhos, tempos que nunca imaginamos sequer viver.  Além do COVID-19 evidentemente, preocupam-me também outras consequências da pandemia. Vejamos: o número de episódios de urgência diminuiu cerca de 45% em março. É sobejamente conhecido que a população portuguesa recorre demasiado ao Serviço de Urgência, no entanto podemos ter aqui um fenómeno preocupante, que é o de situações graves e fatais estarem a procrastinar a ida ao médico. Importa não nos esquecermos que outras doenças fatais como enfartes, AVC, cancros vão continuar a acontecer, não tiraram férias e que se deve recorrer aos profissionais de saúde sempre que algum sintoma grave surja, sem medos. Arrisco-me dizer que hoje em dia ir à USF constitui menor risco infecioso do que ir ao supermercado, isto porque existem circuitos totalmente separados para os doentes suspeitos.

No início da pandemia, em que as consultas já eram realizadas pelo telefone, liguei a um utente (chamemos-lhe “António”) de 86 anos que tinha consulta nesse dia. Vive com a esposa numa aldeia onde o futuro parece não querer ir. Uma aldeia com pouquíssimos habitantes, com uma população maioritariamente idosa, com rede de transportes péssima, um isolamento que vai para além do físico. Disse-me: “Dra., obrigada por ter ligado e se ter lembrado de mim e da minha mulher. Nós estamos aqui sozinhos, não temos ninguém… Temos medo que se esqueçam de nós”. 

A estes utentes, e a todos com quem falo, tento transmitir uma palavra de conforto, de segurança, de que “vai ficar tudo bem”. Mas eu minto, não sei se vai ficar tudo bem. Muitos deles não vão “ficar bem”: consultas adiadas, análises adiadas, exames adiados, e um retomar à normalidade que não sabemos quanto tempo irá demorar. Tento dar o meu melhor e dentro do possível tratar as outras doenças, mas há muita coisa que fica por fazer por falta de recursos. E depois? Depois vamos ter um sem número de doenças descontroladas e muito trabalho a fazer, muito tempo a recuperar. O problema é que tempo é algo que alguns utentes não têm… E temo que existam situações irrecuperáveis, inevitavelmente.  Num concelho tão envelhecido, é premente adotarem-se medidas que tentem minimizar as potenciais perdas nesta altura de crise e também tentar menorizar o (ainda) maior isolamento que advém de toda esta situação. 

Por isso, não, não sei se vai ficar tudo bem. Mas posso prometer, Sr. “António” e tantos outros, que não nos esquecemos de vocês.

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