Dez anos depois dos primeiros ecopontos começarem a ser instalados em Vila Real, o balanço da recolha seletiva de resíduos não é o melhor, tendo-se registado uma quebra, desde 2010, superior a mil toneladas nos papéis, vidros e embalagens que foram enviados para reciclagem.
A instalação dos primeiros ecopontos começou no final de 2003, no centro da cidade, e alargou-se, progressivamente, a todo o concelho durante o ano de 2004, altura em que foram distribuídos centenas de contentores diferenciados pelo território vila-realense. No primeiro ano de funcionamento da rede, a população respondeu desde logo de forma positiva, tendo separado 357 toneladas de vidro, 388 toneladas de papel e 110 toneladas e embalagem.
O recorde da reciclagem na capital de distrito foi batido em 2010, altura em que os cidadãos depositaram nos ecopontos mais de 2,1 mil toneladas de resíduos passíveis de valorização, um número que, a partir desse ano, entrou em queda, chegando em 2014 às 942 toneladas.
A par com a queda dos resíduos diferenciados, está também a redução na quantidade de resíduos indiferenciados, ou seja, do lixo que não é direcionado para a reciclagem e tem como fim o aterro. Só em 2014 os vila-realenses produziram 18.857 mil quilos de lixo que não entrou em qualquer cadeia de valor, contra os mais de 21 mil quilos produzidos em 2010.
Manuel Moras, presidente do conselho de administração da Empresa Municipal de Águas e Resíduos (EMAR) de Vila Real, confirmou que nas estatísticas “podemos verificar que, na generalidade, a quantidade de resíduos tem vindo a diminuir nos últimos anos, à semelhança do que acontece nos restantes municípios do país”, uma diminuição que se deve à “quebra do consumo da população, fruto da conjetura económica”.
“O lixo produzido no concelho foi crescendo desde 2004 a 2010, isso quer na recolha indiferenciada, quer na recolha seletiva. Em 2004 andávamos na ordem das 19.800 toneladas e em 2010 atingiu-se o máximo. A partir dessa data os resíduos tiveram um decréscimo e, em 2014, tivemos um nível de produção inferior a 2004”, explicou o mesmo responsável.
Para Manuel Moras a redução na quantidade de resíduos indiferenciados poderia ser resultado de uma “maior consciência ambiental e de alterações no modo de produzir resíduos”, o que “seria ótimo, porque, obviamente, é uma coisa que devemos ambicionar”, o problema é que também as toneladas de resíduos recicláveis recolhidos tiveram uma redução “brutal”.
A recolha dos papéis, vidros e embalagens que são depositados nos ecopontos, bem como o destino final dado à generalidade dos resíduos sólidos urbanos do concelho, deixou de ser uma obrigação do município em 2010, altura em que o serviço foi concessionado pelo Estado à Resinorte, hoje responsável pelo “lixo” de 35 concelhos da região Norte Central.
E é exatamente àquele sistema multimunicipal de triagem, recolha, valorização e tratamento de resíduos sólidos urbanos que o administrador vila-realense aponta o dedo, sobretudo no que diz respeito à sensibilização. “A maior falha, na minha ótica, está nas campanhas de sensibilização. Não se pode fazer uma campanha e depois, passado uns anos, não se fazer mais nada”, lamentou.
Manuel Moras acredita ainda que o sistema, que é responsável por quatro mil ecopontos que servem uma população de cerca de um milhão de habitantes, poderia ser mais eficaz quando se fala na recolha. “Existe um contrato de exclusividade na recolha. O que quer dizer que se o município de Vila Real decidir que o serviço está mal feito e se puser a fazer a triagem e a recolha de materiais selecionáveis está a violar o exclusivo da Resinorte, está, no fundo, a cometer uma ilegalidade”, explicou advertindo que a “única solução” é “exigir que a empresa amplie a rede de ecopontos e mantenha uma recolha eficiente”.
“É intolerável que as pessoas, que até têm consciência ambiental e insistem em fazer a separação, encontrem os contentores cheios e sejam obrigadas a por os resíduos ao lado. Dá uma imagem degradada da cidade e de qualquer aglomerado populacional”, sublinhou.
Lixo custa ao município cerca de 70 mil euros por mês
Apesar da autarquia ser responsável pela recolha do lixo indiferenciado, ou seja, pelo transporte de todos os resíduos que são colocados nos contentores normais, é também à Resinorte que cabe dar-lhes um destino final, um serviço que custa à EMAR uma média de 65 a 70 mil euros por mês.
“O destino final também foi concessionado. Desde o ano que foi concessionado, a tarifa de deposição em aterro triplicou”, referiu o presidente do conselho de administração da EMAR recordando que em 2009 a deposição do lixo em aterro tinha uma fatura de 11,32 euros por tonelada, valor que passou para 32,13 euros em 2010, chegando, atualmente, aos 36,48 euros por cada tonelada de resíduo.
O aumento na fatura, segundo Manuel Moras, não teve correspondência no aumento da qualidade de serviço. “É natural que algumas práticas tivessem melhorado, que algumas coisas tivessem sido feitas, mas, obviamente, não o suficiente para justificar tal aumento”, testemunhou, defendendo que deveria haver maior investimento em “novas tecnologias e tratamentos alternativos, que valorizassem mais os resíduos”, de forma a tornar o setor mais rentável e reduzir a fatura paga pelos cidadãos.
Outra questão que Vila Real continua a defender é a criação de um verdadeiro Ecocentro, isso tendo em conta que, como explicou, o que existe atualmente não tem as condições necessárias para receber os resíduos diretamente das mãos dos cidadãos. “Temos vindo a pressionar a empresa para que o faça, e estou convencido que há sensibilidade nesse sentido, mas o certo é que até hoje ainda não o fizeram, talvez porque estejam num processo difícil de privatização”, frisou.
A VTM tentou entrar em contacto com o Conselho de Administração da Resinorte, o que não foi possível.






