Quinta-feira, 30 de Junho de 2022
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Alma transmontana

Que saudades…! A neve cobria as montanhas com o vento a soprar enregelando os corpos…e no aconchego da lareira as avós velhinhas lá iam deliciando os netos com o fascínio das histórias, contos maravilhosos que eram tesouros…

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E a avozinha contava assim:” queridos netos, havia três irmãos, o mais novo tinha três maçãzinhas de ouro e os outros para ver se lhas tiravam, mataram-no e enterraram-no no monte…depois nasceu na sepultura uma cana.” Continuou entusiasmada a avozinha: “Certo dia passou por lá um pastor, que cortou um pedaço da cana para fazer uma flauta. O pastor começou a tocar, mas o pífaro em vez de tocar, falava e dizia a chorar toca, toca ó pastor, os meus irmãos me mataram, por três maçãzinhas de ouro e no fim, não as levaram…

O pastor quando ouviu isto, chamou um carvoeiro, e deu-lhe a flauta. O carvoeiro ao tocar o instrumento também ele dizia o mesmo que ao pastor tinha dito…

E assim a flauta passou para outros tocadores, até que chegou às mãos do pai e da mãe do morto. E a flauta mais triste dizia, toca, toca, ó meu pai, toca, toca minha mãe, os meus irmãos me mataram por três maçãzinhas de ouro, e no fim não as levaram… 

Chamaram o pastor que disse onde tinha cortado a cana. Foram lá e encontraram o morto com as três maçãzinhas de ouro. Tinha o rosto triste, ostentando a expressão de alma inocente, sofredora e santa…”

Eram assim os contos em Trás-os-Montes no viver das pessoas de uma simplicidade rústica e de trabalho em prol da sua terra. Esta província vale por vários livros abertos: livros de poemas, quando os rios refletem os rostos dos salgueiros, livros de música quando o luar entorna o seu doce nos montes e nas planícies adormecidas e tranquilas…ah! 

Que felicidade recordar estas paisagens, estes lugares, estes nichos onde morreram anónimos heróis… e no cimo dos montes e dos rochedos dominavam cruzes solitárias, criando deslumbramento e fé nos velhos e nos celibatários. E nos vales havia pequenos pomares, onde de árvore para árvore se teciam teias de luar. 

Quem desce à Régua e para em Vila Real, nem chega a ter tempo de ouvir as serenatas dos rouxinóis…e se rouxinóis cantam, é porque só os seus trinados poderão ser justo acompanhamento musical de panoramas que sobem aos pinos de onde se pode quase tocar com a mão em nuvens errantes e formosas…

Em muitos sítios, as imagens desdobravam-se em estradas curvas, em regatos de nostalgia, em ravinas abruptas, em poentes cheios de silêncios, dor e saudade…

Ah! E as ovelhas a beberem a água que os verões degelaram…e o pastor ajoelhado perante Deus, agradecendo-lhe a imensidade que a paisagem transmontana lhe ensinara, desde o berço…aquela paz era absolutamente única…todo o vislumbre era oração devota a que  a alma deste pequeno povo continuamente flui e exprime.

Num domingo de Ramos o rapazio acordou cedo. E de roupa domingueira, cara lavada e sapatos a reluzir, começaram a chegar ao adro da igreja os primeiros fieis, ramos enfeitados ao ombro, face rosada e ar alegre, dessa alegria comunicativa que irmana os habitantes de cada freguesia transmontana. Não havia refolhos na amizade, porque todos eram primos e primas, sangue do mesmo sangue… e não havia desejos desonestos porque as desgraças pesavam tanto a quem as recebia como a quem as originava…

A igreja enchia-se. O padre dava as ordens e a criançada apertava-se, comprimia-se, ramos altos e baixos misturados, flores beijando flores. Ali na igreja sentia-se o cheiro puro da serra porque o aroma das flores inebriava o povo e os lugares…e as almas vibravam de alegria. E o padre, respirava de contentamento para a cerimónia que ia começar… e os sinos ufanos tocavam na sua alegria que chegava a todos. 

E assim as pessoas viviam imbuídas de um espírito cristão sempre renovado…

Com tanta alegria no ar, as velhas não queriam morrer num dia de festa.

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