Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

José Barrias – a pandeireta que bailava

De todos os músicos que passaram pela Banda de Mateus, um dos mais enigmáticos e estimados, terá sido Zé Barrias - conhecido carinhosamente por “Zé Gago.”

No bombo, ferrinhos ou pandeireta, ele guiava-se pelos sentimentos mais fortes…

Nas procissões, tocava bombo, como solista tocando em catedral…O seu olhar retilíneo, os olhos sem pestanejar, a solenidade do porte, faziam deste músico alguém respeitável e admirado.

Nos arraiais, Zé Barrias, impressionava, sobretudo quando as rapsódias estrondavam na alma do povo. No lugar certo, o homem libertava-se da partitura e era a sua arte que impunha o ritmo exato, aquele bater e aquele olhar que extravasam os sentimentos mais puros…

Não raras vezes, os Mestres olhavam-no e nele se inspiravam para que as rapsódias ganhassem a dimensão da alma. E, assim, o povo se galvanizava até que as emoções rebentassem de contentamento.

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Quando tocava a pandeireta, as soalhas bailavam bem no ar e os sons que dela saíam vibravam por todo o recinto. Aqui, Zé Barrias mostrava a todo o povo que o seu instrumento conseguia construir imagens, inebriar, levando a uma felicidade quase incompreensível…

Zé Barrias não era homem para grandes palavras. Raramente uma ideia chegava ao fim, porque facilmente se emocionava e as palavras se entaramelavam…, mas os sorrisos e os olhares diziam tudo. Neles ficava a felicidade dos momentos, a ternura dos encontros.

Era assim, à sua maneira: mais de gestos do que discursos, mais coração do que palavras.

Um dia, Zé Barrias tocava os pratos numa arruada em rua estreita e sinuosa. Um conjunto de pessoas distraídas da música dificultava a passagem dos músicos. O homem resolveu o problema com o estilhaçar vigoroso e seco dos pratos nesse mesmo pedaço de povo insensível. Ao mesmo tempo, ele desenhava no rosto a expressão mais imaculada. Eu, como Mestre, olhei para trás, fitando o pratilheiro numa atitude recriminatória. Na verdade, aquele entrechocar ouvira-se fora de tempo…compreendi depois a atitude astuta do músico…

Zé Barrias morreu no primeiro dia do ano 2000. Mateus perdeu uma figura típica, um amigo de toda a gente. A aldeia ficou mais triste e mais vazia. Partiu alguém que fazia parte da sua paisagem humana, daqueles rostos e presenças que parecem eternos, até ao dia em que deixaram de estar. Os instrumentos de percussão da banda silenciaram-se por algum tempo, em respeito ao músico que tanto deu à filarmonia.

O silêncio que então se fez dizia mais do que qualquer homenagem: era a forma encontrada pelos companheiros para lembrar quem tantas vezes ajudara a dar ritmo, alma e alegria à música da terra.

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