A minha tia, tinha uma forma peculiar de receber a família e os amigos. As suas palavras e sorrisos contagiavam e adornavam aqueles momentos como se o céu e o mundo fossem feitos de felicidade e o pecado não existisse.
Lembro, enternecido o Natal de 1968, quando cheguei de férias de Lisboa.
A minha tia, na minha chegada, foi logo procurar-me na Rua da Moura, olhou-me afagada de alegria, e sentenciou-me:
– Tu, meu sobrinho, agora vais ficar em minha casa; o quarto está pronto e vais dormir como um príncipe.
E assim foi.
Naquela casa havia sempre lugar para mais um. Havia sempre uma cama preparada, uma mesa onde cabia mais um prato e, sobretudo, um coração aberto para receber mais um familiar.
A casa da minha tia era, na verdade, um abrigo de afetos.
Recordo-a, sobretudo, naquele Natal de 1968 quando me olhou com aquele sorriso que só ela sabia dar.
Aquela casa era pequena, mas enorme na forma como ela sabia receber.
Naquela casa nos anos 60 e 70, havia o chá e as torradas preparadas com carinho para as irmãs e sobrinhos. O meu tio Manuel “Marinheiro”, por volta das quatro horas lembrava à mulher:
– Guiomar prepara o lanche, que as tuas irmãs devem estar a subir as escadas.
Pouco depois, começavam a chegar as irmãs, os sobrinhos e talvez algum amigo que aparecia sem aviso. E aquela pequena casa voltava a encher-se de vozes, de histórias sempre bonitas.
Hoje, quando penso nesses fins de tarde, quase consigo ouvir em surdina a voz do meu tio, sentir o cheiro do chá e imaginar a minha tia atarefada a preparar as apetitosas torradas com planta e o bolo de água…
Aquela cozinha, com o sol a entrar pela grande janela, era um lugar que embriagava de felicidade. Fora da janela, olhava-se o quintal e vivia-se o êxtase pela beleza da paisagem.
São estas pequenas coisas que, com o passar dos anos, se tornam enormes, porque nelas estava o elo familiar. Porque nelas estavam outras pessoas, não da família, mas que continuam vivas na lembrança de quem não sabe esquecer.
A minha tia Guiomar, essa, continua viva na saudade: sorrindo, preparando o chá, torrando o pão, abrindo o coração na companhia do inseparável marido. Há tias que nos hão de arrastar nos últimos pensamentos das nossas vidas.
Em 1976, a minha tia Guiomar morreu desapegada da vida, pois era a pressa de ir ao encontro do marido que tinha partido em agonia um mês antes.

