Assim, conseguia-se estar em contacto com a enorme multidão das romarias. Obedeciam prontamente, transmitindo com alegria, músicas, cânticos e melodias que ajudavam a animar os romeiros.
Na retransmissão dos atos religiosos, eram, na verdade, insubstituíveis. Mas havia também outra vantagem: faziam barulho suficiente para tirar todo o gosto a certos folguedos considerados impróprios ou indesejáveis.
Muitas vezes, era o próprio padre, irritado, que pedia para que aquele poderoso meio de som subisse os decibéis, sobretudo quando alguns atrevidos cantadores à desgarrada se aventuravam no uso desbragado de uma linguagem impura e brejeira, com “expetoração “, como referiam alguns sacerdotes.
Normalmente, estas leviandades aconteciam junto às barracas, onde alguns, facilmente, se embriagavam e cometiam todo o tipo de excessos. Depois, adormeciam sobre as mesas, satisfeitos de prazeres considerados nojentos e de intentonas de promiscuidade.
Nas romarias, valiam também as charangas no coreto que, ao desafio, lançavam torrenciais rapsódias pelas crateras metálicas dos trompetes e trombones, procurando amaciar a bravura azougada de alguns foliões.
Também os foguetes, que, em abundantes lágrimas de luz, polvilhavam o ar de cores, iluminando o recinto da festa e os montes ao lado, pareciam trazer alguma brandura aos ímpetos dos zaragateiros. As nuvens de poeira indicavam os lugares onde a dança acontecia.
Já no final da festa, os romeiros não abandonavam o recinto sem se despedirem do Santo. E este parecia corresponder-lhes com um sorriso nos lábios, como desejo de os voltar a ver no ano seguinte.
Era então que os sons das bandas filarmónicas imprimiam à dança o movimento exato que, por vezes, levava os bailadores ao delírio da fantasia, perfumada pelo sonho e pela felicidade. Já noite dentro, o povo queria que a música os divertisse e os fizesse saltar e dançar de forma livre, alegre e inebriante.
As bandas sempre souberam fazê-lo de uma forma distinta e única. As suas músicas ficaram ligadas à memória de muitas festas e romarias, atravessando gerações. Os seus sons fizeram parte da vida das pessoas, acompanharam momentos de alegria e deram alma a lugares onde a tradição, a fé e a festa se encontravam.
Guardo comigo a satisfação de ter participado nessa caminhada e o orgulho de sentir a banda da minha terra, que soube preservar a sua identidade, a sua arte e a sua ligação às gentes da nossa terra.
Faço votos para que as bandas continuem a trilhar a senda dos sucessos, levando cada vez mais longe o seu nome, através da música, contribuindo para a glorificação da arte musical e para a preservação das nossas memórias e tradições.


