Naquele instante, não estava apenas diante de um automóvel. Estava perante um companheiro de viagem, pronto para partilhar comigo estradas e aventuras, sem que eu o pudesse imaginar, muitos sustos e histórias que o tempo jamais apagaria.
Na reta de Mateus, em frente à minha casa, esperavam por mim a minha mãe, vizinhos curiosos e um mecânico amigo.
A receção parecia uma verdadeira cerimónia de inauguração. Só faltou o padre Miranda para abençoar aquela maravilha de quatro rodas.
Toda essa gente mirava o carro. Com os vidros abertos, aproximavam o rosto e abriam a boca de prazer perante o perfume agradável que vinha de dentro.
E, depois de tanta curiosidade, saí disparado a caminho de Constantim. Parei em frente ao palácio. O porteiro, Domingos, olhou para o Mini e, com um sorriso de quem conhecia bem o meu passado ao volante, recomendou-me, em tom de preocupação:
– Vê lá se agora tens juizinho! Não te distraias como fizeste com o Fiat. Olha que ali ao fundo ainda lá está uma pedra partida da pancada que lhe deste.
Segui e deslizei suavemente até casa do meu tio António Silveira. Logo no começo da rua, ouvia-se o som do bombardino cheio de vigor. O meu tio, músico consagrado pelos aplausos que recebia nas festas, tocava como se cada nota fosse uma celebração da vida.
Ao ver o Mini, sorriu de satisfação e comentou:
– Que belo carro! Parabéns! O melhor é que tenhas mais sorte com este do que tiveste com o outro.
Ficámos refastelados, depois de saborearmos umas generosas fatias de presunto e provarmos um bom vinho.
O quadro era maravilhoso, valorizado com a presença do Mini, mesmo à nossa frente. Faltava apenas convencer o meu tio a acompanhar-me nalgumas voltas pelas ruas de Constantim.
Ao passarmos pela igreja matriz, contemplámos São Frutuoso. O seu olhar parecia misterioso, envolto numa serenidade quase sobrenatural. Retomei o volante, decidido a acelerar. Mas, inesperadamente, atropelei uma Mula cujo ocupante apenas tinha uma perna. O meu tio ficou hirto de terror.
Eu próprio estremeci.
E tive a nítida sensação de que ele rezava em silêncio a São Frutuoso que permanecia ali ao lado como silenciosa testemunha daquele inesperado acidente. O meu tio, com um sentido de humor apurado, descarrega:
– Se não fosse São Frutuoso, a Mula talvez tivesse partido duas patas.
O dono do animal era conhecido por requeiro – homem muito generoso para com os pobres.
A queda foi aparatosa, mas, felizmente, sem qualquer gravidade. A Mula ficou a mancar durante algum tempo apenas isso.
Levei o meu tio a casa e fiz-me ao caminho para casa.
Cheguei passados alguns minutos. A tensão daquele primeiro dia só se desfez quando, finalmente, adormeci.

