Em cada constelação de relações humanas, há uma homeostase discreta que assegura a perpetuação dos mesmos corpos e das mesmas vozes, como se o poder fosse um sistema biológico que se autorregula para evitar a mutação. Nessas comunidades, o mérito raramente é critério. O mérito é, quando muito, ornamento.
O verdadeiro princípio de seleção é a conveniência, e esta, quando institucionalizada, transforma-se em dogma. Quando os “escolhidos” são confrontados com o contraditório, o consentimento torna-se regra e o silêncio, método. Não é o silêncio da prudência, mas o da ignorância confortável, o da aceitação de uma narrativa encantatória que justifica tudo e explica nada.
A democracia, nesse contexto, é reduzida à sua caricatura, um ritual de legitimação do próprio, uma liturgia de continuidade. E quem ousa introduzir o dissenso é tratado como heresia, não pela força, mas pela invisibilidade. A discordância, que deveria ser o espaço vital da democracia, é convertida em ameaça. O paradoxo é cruel: quem sabe que pode discordar, consente quando escolhe não o fazer. A liberdade de expressão, sem o exercício da coragem, é apenas um conceito vazio.
O desencontro de opiniões, longe de ser fragilidade, deveria ser o habitat da visão coletiva, o lugar onde o futuro se pensa antes de se decidir. Mas o poder prefere a quietude à claridade, e o consenso à verdade. O objetivo não é o debate, é a domesticação. Faz-se, com diplomacia, o que Estaline fez a Trotsky com brutalidade, elimina-se o incómodo, não pela violência, mas pela indiferença. A tática é antiga e refinada: negar o espaço, amputar a visibilidade, fingir que o outro não existe. É o triunfo da mediocridade organizada sobre o talento solitário.
O velho axioma de que “os vencedores escrevem a história” continua a servir os que confundem vitória com permanência. A imaginação dos seguidores alimenta o delírio dos dirigentes, e a mentira, repetida com disciplina, adquire a textura da verdade. Mas a história, essa guardiã das ironias humanas, conhece também o reverso da coreografia. Há sempre uma versão antitética, a resistência.
A persistência que não se dobra, a coragem que não se apaga. A filosofia que transforma o permanecer em gesto de lucidez. Porque há momentos em que resistir não é teimosia, é clarividência. E há presenças que, mesmo silenciadas, continuam a falar, não pela voz, mas pela inevitabilidade da sua existência.

