Ricardo Almeida
Ricardo Almeida
Professor e Empreendedor Social

Pós-verdade

Há épocas em que o poder não se afirma pela força, mas pela aparência de verdade.

O discurso político, que outrora se sustentava na autoridade do medo, aprendeu a disfarçar‑se de evidência. A hipocrisia do medo, que silencia pela intimidação, deu lugar à hipocrisia da verdade, que manipula pela convicção. O medo paralisa o pensamento, a mentira desvia o olhar. E ambos servem ao mesmo propósito, domesticar a consciência pública.

“Pós‑verdade” tornou‑se uma fórmula automática, usada para descrever um tempo em que a racionalidade estaria em declínio. Mas a ideia de que vivemos num período posterior à verdade é, ela própria, uma ficção conveniente.

A verdade nunca existiu fora da política; sempre foi parte do seu território. E é precisamente por isso que hoje assistimos a uma disputa intensa não apenas sobre factos, mas sobre quem tem o poder de definir o que é verdadeiro. A verdade não é um espelho neutro da realidade, é uma construção coletiva, vulnerável à manipulação, à distorção e ao silêncio. Vulnerável à narrativa que se apresenta como inevitável e ao poder que se disfarça de neutralidade.

Nos últimos anos, a política local tem sido marcada por práticas que não são novas, mas que se tornaram mais visíveis, a fabricação de boatos, a insinuação calculada, a construção de suspeitas, a transformação de divergências legítimas em ataques pessoais. A mentira, neste contexto, não é apenas um desvio moral é uma técnica de poder. Serve para apagar adversários, moldar perceções e controlar o espaço público. O problema não é o conflito político, o conflito é inerente à democracia. O problema surge quando o conflito é substituído pela mentira, quando a disputa de ideias é substituída pela fabricação de narrativas, quando a política deixa de ser debate e passa a ser manipulação. É exatamente isso que se observa no episódio recente do curso de Medicina da UTAD. Durante anos, muitos dos responsáveis políticos que agora se apresentam como autores do projeto nada fizeram para o concretizar. Não pressionaram ministérios, não criaram condições, não assumiram responsabilidades. Mas, no momento em que o curso se tornou tema de destaque, apressaram-se a reivindicar protagonismo, a moldar narrativas e a apresentar-se como guardiões de uma verdade que nunca defenderam. Este comportamento não é apenas oportunismo é uma tentativa de reescrever a realidade, de transformar omissão em mérito, de converter o silêncio em liderança. O mesmo padrão repete‑se na construção das residências universitárias. Durante anos, o problema da falta de alojamento estudantil foi conhecido, debatido e ignorado. Muitos dos que agora surgem como grandes promotores das residências nunca moveram uma peça quando tinham ferramentas e responsabilidade para o fazer. Mas, quando as obras avançam e a visibilidade aumenta, apressam-se a aparecer na fotografia, a reivindicar autoria e a moldar discursos que os colocam no centro de uma solução que nunca construíram. É a mesma lógica, transformar ausência em ação, o silêncio em virtude, a omissão em poder. Quem controla a narrativa controla a perceção pública, define o que é verdade e o que é possível.

-PUB-

A hipocrisia do medo impõe o silêncio, a hipocrisia da pós‑verdade impõe a ilusão. A verdade é terreno da política e é precisamente por isso que não pode ser deixada nas mãos de quem a usa para desvirtuar a perceção da comunidade.

Ambos servem a mesma finalidade, perpetuar o poder pela invisibilidade: o medo impede o cidadão de falar, a mentira impede-o de compreender.

ARTIGOS do mesmo autor

NOTÍCIAS QUE PODEM SER DO SEU INTERESSE

ARTIGOS DE OPINIÃO + LIDOS

Notícias Mais lidas