Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2026
No menu items!
Ricardo Almeida
Ricardo Almeida
Professor e Empreendedor Social

Bob e Carney, uma fusão inspiracional

Há versos que atravessam décadas e continuam a iluminar o presente. “How many times must a man turn his head, pretending he just doesn’t see?”, Bob Dylan escreveu este num tempo de convulsão moral, mas a pergunta parece hoje dirigida à Europa, aos seus líderes e, de forma mais ampla, a todos os que sentem que o mundo está a mudar mais depressa do que a capacidade de o compreender.

-PUB-

A política externa de Donald Trump não é apenas uma alteração estratégica, é uma mudança atmosférica. Um vento persistente que atravessa o Atlântico e chega à Europa como aviso. Não um trovão súbito, mas uma deslocação lenta, profunda, que reconfigura equilíbrios e expõe fragilidades. A visão do mundo onde os Estados Unidos deixam de ser o garante da ordem internacional e passam a agir como uma potência transacional, que escolhe alianças como quem escolhe fornecedores, significa para a Europa menos previsibilidade, menos proteção e mais incerteza. Significa que o edifício jurídico e político que sustentou a paz durante décadas está a ser posto à prova por uma nova lógica de poder. Os travões institucionais que contiveram Trump no passado estão hoje mais fracos. A elite republicana está alinhada com a sua visão e a política externa tornou-se uma extensão da política interna. O que antes era exceção pode tornar-se regra, o que antes era improviso está a tornar-se doutrina. E a Europa, habituada a um aliado estável, vê-se agora diante de um parceiro imprevisível, cuja direção muda ao ritmo das marés eleitorais.

Ainda que, apesar de tudo, este não seja um momento para desespero. É um momento para a lucidez. A erosão da ordem internacional não é apenas um risco: é também uma oportunidade para a Europa se reencontrar consigo própria. Para assumir a sua autonomia estratégica, reforçar a sua defesa, reconstruir a sua coesão interna e deixar de ser espetadora. A mudança não é uma ameaça inevitável, é um apelo à ação. E é precisamente neste ponto que a intervenção do primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, em Davos, ganha o peso da visão e do realismo. Carney não dramatizou, não procurou antagonizar, não se escondeu atrás de fórmulas diplomáticas. Falou com a clareza de quem conhece os mecanismos do poder global e com a coragem de quem sabe que a ambiguidade já não serve. Ao afirmar que a Europa e o mundo democrático precisam de se preparar para um futuro em que os Estados Unidos já não são a âncora estratégica de sempre, Carney não ofereceu pessimismo, ofereceu clareza. E, num tempo de incerteza, a clareza é uma forma de esperança.

A política internacional pode estar a mudar, mas a Europa não está condenada a ser arrastada pela corrente. Pode escolher nadar. Pode escolher erguer-se. A Europa pode escolher temer a mudança ou pode escolher moldá-la. Como diz Bob Dylan, “The times they are a-changin”.

ARTIGOS do mesmo autor

A moderação exala carisma

44,95%

Passar para a outra margem

Do lado do silêncio…

NOTÍCIAS QUE PODEM SER DO SEU INTERESSE

ARTIGOS DE OPINIÃO + LIDOS

Notícias Mais lidas

ÚLTIMAS NOTÍCIAS