Sexta-feira, 17 de Abril de 2026
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António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil e Ex-Deputado

Isto não é o Parlamento da Constituição de Abril

Por feliz coincidência, encontrei-me há dias com um dirigente dos Serviços da Assembleia da República.

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Podem crer que é sempre agradável encontrar alguém com quem, mais direta ou indiretamente, se trabalhou e que nos recorda de forma positiva. Mas há dias, a nossa conversa versou uma atualidade que nunca nenhum de nós esperaria viver. «O Parlamento está muito diferente do seu tempo»!

Aceitemos o eufemismo e continuemos, porque se para o meu interlocutor, o que ali se passa, muitas vezes, é para esquecer, para nós, que seguimos os trabalhos só com algumas imagens que a comunicação social nos traz, é uma vergonha!

Atente-se nas provocações que se puderam ver na sessão solene em que se celebrava o 50º da aprovação da Constituição da República Portuguesa, no passado dia 2. Ou recordem-se os momentos em que o Presidente do Brasil, o país com maior número de falantes da língua portuguesa, foi insultado em semelhante sessão solene. Ou, ainda, as queixas de várias Deputadas relativas a atitudes machistas ou de assédio. Ou outras de racismo e xenofobia.

E os trejeitos de beijos dirigidos a Deputadas, assim como o esbracejar com gestos descontrolados, acompanhados de palavras, por vezes, impercetíveis, mas que não conseguem esconder a má criação de quem as profere. O combate político, a defesa vigorosa das convicções, o chiste jocoso, ou até o aparte verrinoso enquadram-se no debate parlamentar e ninguém ousará pôr em causa o seu uso. Recordo alguns desses momentos.

A propósito deixo aqui um momento de chiste em que se debatia um problema na localidade de Sarilhos Pequenos, ou Sarilhos Grandes, não recordo bem, ambas na margem esquerda do Tejo, em sessão de perguntas ao Governo. A certa altura, o Presidente, naquele momento, desempenhava essas funções o Vice-presidente João Amaral, no final das questões, saiu-se com esta expressão, que cito de cor: “Veja lá, não se meta em sarilhos”. Sorrisos, claro!

Hoje, com as atitudes que o tornam “diferente”, degrada-se a imagem do Parlamento, menoriza-se o seu papel, desconsideram-se os eleitos. Em 2023, foi insultado o Presidente Lula da Silva, no próprio dia 25 de Abril; há dias, foram os Deputados constituintes. Não se invoque a liberdade de expressão, conquista de Abril e que essa mesma Constituição consagra.

Porque o que nos foi dado ver só pode ser classificado de má educação. Ninguém, escorreito da cabeça, convida alguém para sua casa para o insultar. Nada disto é aceitável. Só merece, mesmo, o qualificativo de gente que “pretende destruir a democracia por dentro”.

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