Tem uma clara ligação ao cante alentejano, essa expressão cultural que a UNESCO incluiu na lista de Bens Culturais Imateriais Mundiais e evidencia o brio com que os alentejanos agarram o seu Património Cultural para o levaram mais além, tão longe quanto possível, dizia há dias um dos membros do grupo vencedor, os Bandidos do Cante. Os grupos corais originários que deram azo à classificação em que o “repertório constituído por melodias e poesia oral (modas), é executado sem instrumentos musicais”, os mais recentes que nos entram porta adentro através da televisão, já com instrumentos, os cantores, nomes feitos no panorama musical português, como Vitorino e Janita Salomé, ou António Zambujo, todos dão corpo e expressão a esse gosto pela sua identidade cultural, por uma das mais expressivas componentes dessa identidade.
Quando em tempos tive o privilégio de contactar mais de perto com o sentimento de pertença que os alentejanos nutriam pela sua terra, fossem as planícies escaldantes, o montado de sobro e azinho, ou, mais tarde, a albufeira do Alqueva a encher – tudo devagarinho – aliás, fazendo jus ao poema vencedor, «No silêncio do luar
/Sopra o vento devagar», a comparação com o povo transmontano surgia com alguma naturalidade. Pelo abandono do Terreira do Paço? Talvez. Pela agrura e dureza das terras e do trabalho a que obrigavam? Porventura. Mas também pela vontade em se superarem e irem mais além.
Ora, cá como lá, temos também nós motivos vários para com brio falar da nossa identidade cultural. Se por lá se rasgaram as planuras com o cante das suas mágoas, por cá rasgaram-se as encostas de xisto para, “em Jardins Suspensos” plantar vinhedos que nos dessem os meios de subsistência. Ali, o cante é “reconhecido como gerador da diversidade cultural, garante do desenvolvimento sustentável, realçando o papel fundamental das comunidades na produção e salvaguarda destas manifestações culturais”; por cá, o Alto Douro Vinhateiro, “obra conjugada do homem e da natureza”, que resultou numa “paisagem cultural evolutiva e viva”; ambas com um “valor universal excecional do ponto de vista histórico, estético, etnológico ou antropológico”. Uma diferença ressalta. Por cá, carpem-se mágoas pelas exigências a que a preservação do bem obriga; por lá realça-se e afirmam-se as virtualidades de tal classificação. E lá vai música portuguesa, inspirada no cante alentejano, até Viena. Com os nossos votos de muito sucesso.






