Quinta-feira, 9 de Julho de 2026
António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil e Ex-Deputado

As confrarias gastronómicas e a valorização dos sítios

Do que se pode ler em alguma investigação sobre o nascimento das Confrarias Gastronómicas, estas têm origem na Alta Idade Média quando surgiram “organizações que pretendiam, à volta de uma refeição gastronómica, promover, divulgar, um produto, uma região, defendendo todos os aspetos sociais inerentes à partilha, à entreajuda e ao convívio”.

Quando se reforça a componente de afirmação de um produto que realça a visibilidade de uma região, tendo presentes várias componentes da vida de uma comunidade, está-se claramente a valorizar a cultura dessa região. Bastará atentar às suas designações.

A Confraria do Covilhete (CC) achou por bem conceder-me a honra de me tornar seu confrade. Noviço, por enquanto, pois estes devem fazer prova da sua entrega aos hábitos estabelecidos. E, primeira nota, a cerimónia decorreu na igreja matriz de Torgueda, um bom testemunho de uma época em que a talha dourada sobressai. A entronização tem o seu ritual. Destaque para a imposição do traje e para a leitura do compromisso. O Coro local mimoseou-nos com música de Mons. Ângelo Minhava, ali homenageado como músico e poeta, com uma cantiga do nosso folclore e com o Coro dos Escravos Hebreus, de Verdi. Pouco depois, em São Miguel da Pena, foram as homenagens a António Cabral e a A. M. Pires Cabral, poetas e romancistas. E foram lidos poemas seus. Valorizaram-se, assim, aqueles sítios. A imponência do Marão e a harmonia do Alvão lembraram-nos como são importantes aquelas serras para nós, vila-realenses. E o facto destes rituais se deslocarem pelo município é uma boa opção. Valoriza componentes diversas da comunidade que, como se diz a propósito da fundação da CC, se juntava no Largo do Calvário, nos finais do séc. XIX, na feira de Santo António e se deliciava com os covilhetes e arroz de forno. Como associação que é, valoriza e promove o covilhete, mas de igual modo, outros produtos gastronómicos e culturais com ele relacionados. Bem analisado o seu objeto, ela é uma Confraria Enogastronómica, porque alarga o seu âmbito ao vinho, passa pelo barro negro de Bisalhães, onde vai buscar o nome pela forma da peça de barro em que se confeciona e pretende, de igual modo, valorizar o tecido empresarial ligado a esses produtos.

Pode afirmar-se, assim, que, toda a sua atividade tem a ver com identidade, que valoriza, com património cultural, que preserva nas artes tradicionais, mas incentivando a inovação, com a valorização do que é local, encontrando diversas formas de promoção, integrando, finalmente, todos estes aspetos num valioso produto turístico. O seu 10º Capítulo foi disso testemunho eloquente.

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