Quinta-feira, 28 de Maio de 2026
António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil e Ex-Deputado

O Douro é, sobretudo, pessoas

Arredado das lides políticas, tinha-me imposto silêncio sobre as questões ligadas à vitivinicultura duriense.

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No entanto, quando soube do interesse que o Senhor Deputado Filipe de Sousa do Partido Juntos pelo Povo (JPP) manifestara pelos problemas da Região Demarcada do Douro (RDD) achei por bem dedicar alguma atenção à temática que o trouxera a Lamego. Na verdade, o tema não é novo para mim. Acompanhei o Eng. Mesquita Montes em variados momentos, também quando ousou tomar a iniciativa de propor que se combatessem os excedentes de vinho na RDD, destilando para produzir a aguardente que é uma matéria-prima necessária ao Vinho do Porto. Como sempre, quando se tocam em prerrogativas dos grandes e se ousa melhorar um pouco a vida dos pequenos e médios produtores, o assunto foi adiado.

Mas porque será que, reconhecendo-se a crise no Douro, melhor dizendo, constatando-se que há no Douro quem trabalhe, muitas vezes, debaixo de sol escaldante, quem granjeie as suas videiras e as dos outros e não consiga uma recompensa justa pela venda das uvas que produz, não se procura uma solução, justa para todos, os que produzem, em pequena e média escala, e os que comercializam? Porque será que se sabe que entra vinho, ou uvas, na região demarcada, de forma irregular e não se combate esse “contrabando”? Solução para tanta injustiça precisa-se. Pode haver soluções diversas. Mas não é aceitável que se diga que uma solução, tecnicamente fundamentada, como a da aguardente com origem em uvas da região é, à partida “inviável, ilegal e destrói o setor”. Acarreta todos os males do mundo!

Esquecem-se, esses, que, como se pode encontrar num muito interessante trabalho da ADVID e que um Primeiro-Ministro, muito a propósito, lembrou já nos 250 anos da RDD, “Douro é vinho, é paisagem, é cultura e é turismo”. Mas é isso tudo porque «os homens desbravaram mato, subiram as encostas, aterraram e surribaram. (…) levantaram muros, construíram milhares de quilómetros de socalcos, serra acima, vale adentro. (…) enxertaram, podaram as vides, colheram as uvas, pisaram, trasfegaram, transportaram, fizeram o vinho», como bem escreve António Barreto. Ou, como afirma António Cabral, «Aqui é o homem». Sim, o Douro é, sobretudo, pessoas. Foram as pessoas que o tornaram Património da Humanidade, em tempos mais distantes, quando os romanos faziam vinho na Fonte do Milho – Régua, ou em Vale de Mir – Alijó; ou mais tarde, quando chegaram os Monges de Cister, no séc. XII, ou mesmo depois, no tempo de Pombal, ou com Dona Antónia Adelaide Ferreira que sempre procurou respeitar e tratar bem os trabalhadores. E deverá ser nesse sentido que devem buscar-se as soluções para a crise.

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