Se hoje qualquer equipa do TCR – World Tour, com ou sem o seu GPSno olhar, rapidamente encontra o paddock do Circuito de Vila Real, nem sempre foi assim. Nos anos 60 dos Fórmula 3, e nos 70 dos Sport Protótipos, o paddock de Vila Real… eram as garagens espalhadas cidade fora…
Corríamos em desespero, como se não houvessem telemóveis, facebook´s, instagram´s ou tikTok´s (porque, de facto ainda não tinham sido inventados…) de garagem em garagem naquelas duas semanas feéricas antes da festa.
“Vem ver o 917 do David Piper que está nos Bombeiros de Cima…” atirava aquele, já com o efeito de Doppler a ultrapassar os meus ouvidos como se fosse o Porsche…
“Olha que chegou o Lola do d’udy. Está na Mabor da Avenida…” nova corrida, nova viagem, Avenida abaixo para ver o T70 verde sabonete que tinha acabado de chegar…
“O Shelby Cobra está na Ford…” rematava outro.
“O GT 40 do Paul Hawkins está na Loureiro…”
“O Lotus do John Miles…” “O GRDdo Dave Walker…”
“O Lola T 290 do Vic Elford…”
“O Chevron do Peter Gethin…”
“O Lola BIPdo Carlos Gaspar…”
A adolescência, e não só (mas apenas porque corríamos mais depressa!…), construía umas olimpíadas, como corridas de barreiras em pistas de tartan, de garagem em garagem…
Mas a Garagem Loureiro, também porque estava junto à meta, era o Oráculo de Delfos para todas as profecias…
Todos os anos, invariavelmente, o seu proprietário, de nome José Loureiro, bramia, em alto e bom som:
“Este ano não vempara cá ninguém! Acabou-se! Fazem muito barulho! É uma algazarra! O pessoal não trabalha e, ainda por cima, não os percebo!…” “Ó Tio”, dizia eu com os meus 13, 14 anos, a olhar para cima… sim, que ele era alto…
“Mas eles não têm para onde ir… aqui tão perto da meta…” Então, como habitualmente, lançava eu a já esperada deixa
“Eu tomo conta, pronto!…”
“Hum… só se tu tomares conta!” Falava do cimo da sua encenação…
“Tá bem, eu tomo…”
Por entre o seu olhar que parecia duro, na nossa cumplicidade sabíamos que aquele coração era de manteiga…
E lá se punha uma corrente à entrada… e lá estava eu (em cumplicidade com alguns amigos pecadores de proximidade…) a tentar permitir apenas a entrada de pequenos grupos de mirones, de cada vez, ali presentes a um palmo dos carros, a sentirem o cheiro das octanas e o peito a tremer quando da música dos escapes, qual orquestra na batuta dos mecânicos…
Era assim o paddock!…
Hoje, o que temos poderá não ser um PADDOCK maiúsculo, mas é o que de melhor podemos ter no “Melhor Circuito Urbano do Mundo!…” (sondagem promovida pela Red Bull em 2016).



