As primeiras palavras foram: já tive tantas declarações de amor e só desta vez comecei a escrever um diário. Porquê? Porque pressinto que é hoje que começa a minha felicidade que perdurará até ao fim da minha vida.
O nosso namoro tinha começado no Porto, no Café Astronauta, Rua de Santa Catarina, em frente ao Coliseu, no dia 13 de Outubro, um mês antes.
Recordo que a Maria Antónia tinha 23 anos, ou seja, era uma jovem. Este diário terminou-o no 11 de julho de 1971. Porquê? Porque no ano letivo de 1971-1972, que começou no setembro desse ano, a Maria Antónia foi colocada na Escola Primária da Gandra, Paredes, Distrito do Porto e foi viver para o Porto. Assim passámos a poder encontrar-nos com regularidade.
A nossa relação foi sempre pautada por princípios que tinham sempre em conta a solidariedade, a amizade, a consideração, o amor verdadeiro, etc.
Durante cerca de um ano letivo, 1969-1970, estivemos longe um do outro, pois eu estava na Universidade do Porto a frequentar o 1º ano da Licenciatura em Engenharia Eletrotécnica e a Maria Antónia a lecionar no Ensino Primário em Castro Vicente, Mogadouro, na terra do seu pai e dos seus Avós paternos. Apesar da distância física entre nós, todos os sentimentos que tínhamos um em relação ao outro foram crescendo.
Todos os dias eu lhe escrevia. Então os seus alunos quando viam passar o carteiro diziam-lhe: Senhora Professora, o carteiro já passou. Isto repetia-se todos os dias úteis da semana.
Apesar de as nossas famílias serem de terras diferentes, os nossos pais e avós conheciam-se bem. Muitas vezes ouvi o meu pai dizer “Manuel tiveste sorte. A Maria Antónia é de boas famílias”. Para mim isso enchia-me de orgulho e de alegria. Com o decorrer do nosso namoro pude constatar isso mesmo. Já casados, tudo ficou ainda mais claro, que as palavras que o meu pai me disse, eram as adequadas.
Há episódios familiares que mostram bem isso. Eu para a mãe da Maria Antónia era o “meu queridinho”. Tanto a ela como ao pai, tratei-os sempre como se meus pais fossem. Eles retribuíram ao tratar-me como um seu filho.
Por tudo isto e muito mais, os meus leitores podem avaliar o que para mim representa o falecimento dela.
Muitas vezes nas nossas conversas nos perguntávamos como é que duas pessoas de famílias diferentes podem gostar tanto uma da outra, como era o nosso caso. Posso dizer, sem qualquer dúvida, que isso é possível, pois connosco foi-o.
Para completar este texto pedi à minha neta Leonor, quase a fazer 11 anos, que me mandasse umas frases dedicadas à Avó, e ela mandou-me quatro: 1 – A saudade é a prova de que o nosso amor nunca acabará; 2 – O céu ganhou uma estrela linda e muito especial para mim; 3 – Avó a tua luz brilha para sempre no meu coração; 4 – As saudades são tantas que muito gostava de te abraçar de novo.



