Recordo com muita saudade um ano em que eu ainda frequentava a escola primária. Logo a seguir às férias do Natal apareceu em Remondes uma senhora professora que ia substituir outra que se encontrava doente. Era de Vilar Chão, Alfândega da Fé. Era a mãe do Excelentíssimo Senhor Bispo, D. José Manuel Garcia Cordeiro. Eles tinham chegado no domingo. Após a sua chegada nevou tanto que a neve atingiu uma espessura de mais de um metro.
No dia seguinte, segunda-feira, nem a senhora professora iniciou as aulas, nem o seu irmão regressou a casa. Nem as pessoas nem os animais puderam sair para a rua. Para que isso acontecesse foi preciso abrir carreirões retirando a neve às pazadas, abrindo uma vala por onde se podia passar.
Para passar o tempo, o irmão da senhora professora ensinou-nos, a mim e aos meus irmãos, a jogar dominó. Foram quatro ou cinco dias a ocupar assim o tempo.
Também me recordo que em Bragança, durante o inverno havia quase sempre uma semana de férias forçadas porque a neve era tanta que nem as pessoas nem os automóveis podiam circular. Nos cinco anos que ali estudei, dois no Seminário, um no Liceu e dois no Colégio de São João de Brito, foi isso que aconteceu. Para nós era uma semana de festa.
Todos conhecíamos o ditado que dizia: em Bragança há 9 meses de inverno e 3 de inferno. Há mesmo um documentário que passou na RTP e deu origem a um livro de João Pedro Marnoto, com esse título.
Os 3 meses de inferno eram os meses de verão. Eram extraordinariamente quentes. Quando eu regressava aos estudos a seguir às férias do verão, também chamadas férias grandes, muitos colegas me perguntavam em que praia tinha estado, tal era a cor morena da minha pele. Por graça, respondia que tinha estado nas praias de Remondes, pequena aldeia de concelho de Mogadouro.
No inverno as temperaturas atingiam valores tão baixos que, em alguns troços do Rio Fervença e do Rio Sabor, a água congelava e servia de campo de futebol e ringue de patinagem. Não me recordo de alguma vez ter havido acidentes com consequências graves, provocados por quebra do gelo. Até de bicicleta e automóvel havia quem arriscasse.
Como consequências das elevadas temperaturas do verão, durante a tarde, logo após o almoço, todas as pessoas procuravam sombras para dormir a sesta. Todos os locais serviam de cama: eram os carros de bois parados debaixo das árvores, era em casa e em qualquer local onde o sol não penetrasse. Sair deste estado era só pelas 16h00 ou 17h00. Só a partir daí é que se saía com os animais para o trabalho ou para os lameiros.
Durante esse período o silêncio na aldeia era total.
As ovelhas tinham todos os dias um período para descansarem e dormirem, chamado amariço que durava até cerca das 17h00 ou 18h00. Durante esse período era como se estivessem a dormir. Só depois voltavam à vida normal.






