Acabou-se com a pecuária, com relevo para a vaca leiteira. A maior parte das famílias tinham pelo menos uma vaca leiteira que abastecia a casa de leite e criava um vitelo cada ano. Os terrenos eram todos cultivados. Há uns anos para cá, o trigo deixou de ser cultivado. Era muito lindo andar pelo campo e ver os terrenos agrícolas com searas de trigo a ondular. Era uma riqueza para as nossas terras de Trás-os-Montes com especial importância no concelho de Mogadouro, de onde sou natural e onde vivo atualmente na qualidade de aposentado. Pertencendo a uma família de agricultores é natural que para mim seja um prazer falar de agricultura. A entrada na comunidade europeia conduziu ao desaparecimento daquilo que era a agricultura na minha terra, com realce para a pecuária, a produção de azeite, de trigo e de amêndoa. Por sorte podemos continuar a produzir azeite, já que não sofreu qualquer constrangimento, continuando a ser uma das principais riquezas da nossa região. Muitas famílias viviam dessa agricultura.
Acabaram as vacas leiteiras que eram uma fonte de rendimento certa e segura para muitas famílias pois daí vinha o leite e um vitelo que cada uma, todos os anos, criava. Falar de agricultura implica falar de incêndios. Ano após ano assistimos a incêndios que consomem a nossa floresta que vai desaparecendo e não se veem soluções para terminar com isso. Parece que os incêndios fazem parte da nossa vida. Foi em 1977 que eu assisti ao primeiro grande incêndio na minha vida. Tinha eu 27 anos e ia a caminho do Porto, com a minha esposa e os meus dois filhos. Após passar por Vila Real deparámo-nos com um incêndio de grandes proporções, no Marão. Ficámos assustados, mas continuámos em frente pela estrada sinuosa que atravessava o Marão. Nunca na nossa região tínhamos visto tal.
Quando em Trás-os-Montes os terrenos estavam cheios de trigo, mesmo quando este secava, não me lembro de alguma vez ter havido um incêndio de grandes proporções, mesmo sabendo-se que o cereal ardia com muita facilidade e, depois de se iniciar um incêndio a dificuldade para o extinguir era enorme, quer pela rapidez com que se propagava, quer pela facilidade com que ardia.
Quando me deslocava no comboio entre a estação de Mogadouro e o Pocinho ou vice-versa, como o comboio era alimentado com lenha, desprendiam-se faúlhas em chamas e saltavam para os cereais junto à linha do caminho de ferro. Isto dava origem a pequenos focos de incêndio que eram facilmente extintos.
Esta constatação leva-me a fazer a seguinte pergunta: porque será que hoje há tantos incêndios ao contrário do que acontecia nesses tempos? Será que haveria mais sentido de responsabilidade então do que agora? Será que a existência de um número grande de parques naturais pode contribuir para que isso aconteça?






