Quinta-feira, 14 de Maio de 2026
António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil e Ex-Deputado

A cavar, não dá

As semanas académicas de Vila Real e do Porto, uma, naturalmente próxima, a outra, que motivou a minha participação em dois eventos por razões familiares, provocaram-me uma reflexão sobre a problemática da mobilidade social.

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A do Porto – já tantos anos passaram sobre as vivências de 1971-72! – até me recordou o início de um curso de História naquele edifício junto ao Hospital de Santo António e as corridas, tal e qual, de e para o Colégio Almeida Garret! É que só assim seria possível escalar a montanha. Enquanto aguardava que o desfile descesse Camões abaixo até aos Aliados, num lampejo, passaram por mim lembranças de vários conterrâneos, netos, ou bisnetos, que ali, ou noutras academias, terminavam os seus cursos. Um a um, fui analisando os degraus que eles próprios, os pais e os avós, tinham subido. Razoável observador, permita-se-me esse qualificativo, deu para avaliar as dificuldades que uns e outros tiveram que ultrapassar até poderem celebrar – tal como nós estávamos – tão importante momento da sua vida. Um jovem que interpelei após as bengaladas da praxe a um colega disse-me que estava a desejar ao colega “sorte e trabalho. Assim, claro! Sorte e trabalho! Tão importantes! O resto virá…

Para ali chegar, os caminhos foram diferentes. A uns, com mais escolhos; a outros, com menos. Bem diferentes dos que se viviam há cinquenta, ou sessenta anos, quando o mais difícil era mesmo começar o caminho. E procurando algumas reflexões com base científica sobre estas questões da mobilidade social, encontrei, entre outros, um artigo de Pedro Abrantes, da Universidade Aberta, que sustenta a importância da educação para que se verifique a mobilidade social que se deseja. Na verdade, os jovens que deram azo à minha reflexão, na generalidade, são filhos de famílias em que um, ou os dois progenitores são licenciados. Bem diferentes dos tempos em que eu próprio desci de uma aldeia recôndita para a Praça dos Leões e a pé percorrer as ruas que me levavam, inicialmente, a casa de familiares, ou, depois, ao colégio atrás referido. Sim, porque depois d guerra, o curso continuou, mas como trabalhador-estudante. Na verdade, na segunda metade do séc. XX, como refere o autor que li, «foram construídas e requalificadas milhares de escolas (…), o corpo docente cresceu exponencialmente, o ensino profissional difundiu-se (…) e foram lançados sucessivos programas para apoiar as crianças e os jovens, em particular, em condições e territórios mais vulneráveis».

Daí, a minha constatação naquele momento de júbilo e regozijo, ao ver passar, como que em filme, os rostos sorridentes e felizes de alguns jovens familiares ou conterrâneos que escalaram a montanha. “A cavar, não dá”. Ou é muito mais difícil, podem crer.

 

 

 

 

 

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