Não se conta em anos, conta-se em minutos ganhos ao destino, em segurança nas viagens e, acima de tudo, no fim de uma barreira psicológica que, durante gerações, nos fez sentir que o resto do país ficava sempre “do outro lado”.
O Túnel do Marão não é apenas uma obra de engenharia moderna, por muito impressionantes que sejam os seus números ou a técnica de quem o escavou. Para nós, esta infraestrutura é, acima de tudo, um ato de justiça territorial. Durante demasiado tempo, habituámo-nos a medir o país não em quilómetros, mas em dificuldades. O Marão era a nossa grande muralha: bela, imponente e parte da nossa identidade, mas também um obstáculo severo que nos obrigava a serpentear curvas intermináveis, muitas vezes sob neve, gelo ou um nevoeiro que não nos deixava ver o futuro.
Lembro-me bem da expectativa que rodeou a sua inauguração. Havia no ar um sentimento que o betão e o asfalto não conseguem explicar por si só. Era a sensação de que estávamos finalmente a ligar comunidades, economias e pessoas que, embora partilhassem o mesmo mapa, pareciam viver em tempos diferentes. O túnel não veio vencer a montanha — essa continuará sempre lá, majestosa — veio sim estabelecer um diálogo com ela. Permitiu-nos estar mais perto de tudo, sem que para isso tivéssemos de abdicar de sermos quem somos.
O impacto no nosso quotidiano é visível em cada esquina da região. É o empresário que agora consegue colocar os seus produtos no litoral com uma previsibilidade que antes não existia. É o estudante que pode manter as suas raízes em casa porque o caminho para a universidade deixou de ser uma odisseia. É, tragicamente, mas de forma vital, a ambulância que chega mais rápido ao hospital. O que o túnel nos trouxe foi “vida prática”. Devolveu-nos tempo — e o tempo é o bem mais escasso e valioso que uma família ou um trabalhador pode ter. Esta ligação reforçou a nossa economia, deu uma fluidez sem precedentes ao turismo e ao comércio e, talvez o mais importante, ajudou a dissipar aquela resignação antiga de que o interior estava condenado ao isolamento. Mas não nos enganemos: o Túnel do Marão não é um ponto de chegada, é um ponto de partida. Ele recorda-nos, todos os dias, que o interior não pede favores nem reclama exceções por piedade. O que o Douro e Trás-os-Montes exigem são condições. Exigem que a geografia não seja um castigo e que o acesso ao desenvolvimento seja um direito de todos, vivam eles à beira-mar ou no coração da montanha.
Ao celebrarmos este décimo aniversário, celebramos uma transformação que é técnica, mas que é, sobretudo, humana. Hoje, atravessar a serra é uma rotina, um gesto simples de mais ou menos minutos. Mas nunca devemos esquecer o que custou chegar aqui e o que esta porta aberta representa para as gerações que agora crescem sem o “medo da serra”. Como escreveu Miguel Torga — ninguém leu este chão como ele — “o universal é o local sem paredes”.
O Túnel do Marão foi a marretada final numa dessas paredes que nos cercavam. Dez anos depois, o Douro e Trás-os-Montes estão mais ligados ao mundo, e o mundo, felizmente para todos, está muito mais perto de nós.
Que venham as próximas décadas, com a certeza e a vontade de que o nosso horizonte, agora, não tem limites.




